DUTOS DE PVC

duto DM 6Assim que terminou a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi inundado com novas matérias primas. Apareceram borrachas sintéticas, polietileno, polipropileno, poliestireno, acetatos, acrilatos, vinil e vai por aí afora.

A presente história contempla apenas um entre milhares de casos onde novos materiais revolucionaram o mercado.

Refiro-me a dutos de PVC, que substituíram os tradicionais dutos de grês, usados no Brasil e no mundo desde a invenção do telefone por Graham Bell.

O desenho acima foi tirado da Prática Telebrás, 235-201-708, série rede, de outubro 1976. Na ocasião, dutos de grês continuavam em uso apenas em serviços de reparo de trechos existentes. Pode-se dizer que haviam entrado em processo de extinção.

Uma peça de 06 furos com um metro de comprimento pesava 60 Kg. Apenas para exemplificar, um quilômetro de canalização de seis furos requeria que uma carga de 60 toneladas fosse transportada para o local da obra, que poderia estar a centenas de quilômetros de distância.

O alinhamento entre peças era feito por dois pinos de aço introduzidos nos furos que aparecem no corte e a vala precisava ter no mínimo 50 cm de largura. Largura menor significava falta de espaço para o trabalho dos pedreiros. Sim, eram usados pedreiros no assentamento dos dutos. O fundo da vala recebia uma camada de argila que era previamente compactada e nivelada. Por ser frágil à compressão, todas as travessias e entradas de garagem eram “envelopadas” com concreto.

O peso da peça requeria que três homens fossem usados no assentamento. Antes do pedreiro fazer o “embolsamento” com massa de cimento, era necessário enrolar uma faixa de tecido de algodão no ponto de junção para evitar a penetração de cimento no duto.

Resumindo, embora uma manilha de grês fosse relativamente barata, sua utilização exigia muito gasto em a transporte e o método de construção era caro e complicado, tornando o preço do quilômetro construído bem alto!

Quando comecei a trabalhar na Telepar, a empresa costumava usar dutos de grês de 4 furos em suas canalizações subterrâneas. A maioria das cidades que estavam sob minha responsabilidade eram pequenas e não exigiam a construção de linhas de dutos. Apenas alguns laterais curtos. Mas, herdei também algumas cidades grandes, cujas redes exigiam canalizações subterrâneas. Entre elas estava Cascavel, uma das primeiras que projetei e construí. O projeto previa a construção de apenas 1.400 metros de dutos de grês de 04 furos, chamados DM-4.

Seguiu para lá nosso melhor e único empreiteiro de dutos, Lourival Frelik. Foram enviados para Cascavel seis caminhões com dutos DM-4. É importante lembrar que Guarapuava fica a 450 Km de Curitiba. Na ocasião, o trecho entre Guarapuava e Cascavel, com 220 Km, ainda era de terra.

Passadas umas três semanas, o Lourival ligou pedindo mais dutos DM-4. Providenciamos uma carga adicional de 10 toneladas, um caminhão com 250 peças. Na semana seguinte novo telefonema, pois continuava faltando manilhas. Desta vez, quisemos saber o que estava acontecendo. “Tem muito buraco no trecho entre Guarapuava e Cascavel. Quase todas as manilhas estão chegando quebradas”, explicou Lourival.

Em resumo, Compramos e mandamos para Cascavel 2 mil dutos DM-4, e aplicamos mil e quatrocentos. Seiscentas unidades quebraram no transporte. O custo da obra praticamente dobrou!

Fiquei sabendo que uma companhia telefônica que operava na região do ABC paulista tinha começado a usar dutos de PVC. Tratei de acionar os meus contatos e consegui uma visita.

Descobri que uma barra de 6 metros de PVC equivalia a um DM-6 ou a 1,5 DM-4, com um décimo do peso. O preço do quilo de resinas plásticas na época era muito mais caro do que nos dias de hoje, mas as vantagens eram muitas.

Por exemplo, um trecho de 120 metros de canalização DM exigia 120 embolsamentos feitos dentro da vala. Os mesmos 120 metros realizados com PVC exigiam apenas 24 conexões, feitas com cola e fora da vala, pois só depois de emendados, os dutos eram colocados na vala, que podiam ser mais estreitas. Bastavam 40 centímetros, o que representava 20% de economia nos custos de escavação, fechamento e repavimentação.

De volta a Curitiba, lembrei que um colega meu de curso, que havia se formado engenheiro civil, estava trabalhando na Tigre. Combinamos realizar uma construção experimental com a participação daquele fabricante. A Tigre possuía uma frota de caminhões para transportar seus produtos.

Para minimizar custo com transporte, a parede dos dutos teve sua espessura diminuída. Também decidimos usar dutos com 100 mm e com 75 mm. Dutos de 100 mm para receber cabos com capacidade acima de 600 pares. Dutos de 75 mm para cabos abaixo de 600 pares. Estimávamos que as quantidades em metros se dividiriam mais ou menos ao meio, o que se confirmou na prática.

Como o volume máximo de carga sempre era atingido antes do limite de peso, A Tigre carregava primeiro os dutos de 100 mm. Os dutos de 75 mm viajavam dentro dos dutos de 100 mm. Na maioria das obras de canalização subterrânea implantadas no interior, um único caminhão passou a transportar todos os dutos necessários.

Para evitar que a pequena espessura resultasse em amassamentos durante a compactação, decidimos tamponar as pontas dos dutos e pressurizá-los durante a obra. A construção experimental foi implantada em Pato Branco e correu tudo tão bem que a Telepar tratou de padronizar de dutos de PVC em todas as suas canalizações subterrâneas. Com o tempo, o preço do PVC baixou e a espessura dos tubos foi aumentada até  um valor entendido como sendo de segurança e acabou a necessidade de pressurizar durante a obra.

O uso de dutos de grês ficou restrito serviços de reparo de linhas existentes. É claro que tivemos que enfrentar alguns problemas criados pelos fabricantes de dutos DM. Mas, esta é outra história.

Já faz pelo menos duas décadas que dutos de PVC não são mais usados em canalizações de telecomunicações. De lá para cá tem sido usados dutos de polietileno e de polipropileno. Eles possuem a vantagem de ser flexíveis. Eles são entregues em bobinas com centenas de metros. Ninguém mais fala mais em “barras” de dutos.

Há dutos lisos e corrugados. Dutos singelos e múltiplos. Para facilitar a identificação, os tubos são numerados ou coloridos. A única desvantagem que o polietileno e o polipropileno apresentam com relação ao PVC está no fato de não poderem ser colados: Exigem conexões mecânicas que muitos empreiteiros insistem em não usar.

No exato momento, está chegando uma nova família de dutos no Brasil. Tratam-se de micro dutos, com diâmetros entre 04 mm e 15 mm, destinados a receber micro cabos ópticos. Micro cabos não podem ser tracionados. Precisam ser lançados por sopramento. Esta técnica será coberta em outra oportunidade!

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