URUBUS DE ESTIMAÇÃO

Foto Urubus 1Esta história se passa em Faltesgoto, uma distante cidade de um remoto país. Por coincidência, talvez o leitor conheça alguma cidade igual a Faltesgoto aqui no Brasil.

Em 1979, trabalhei em Lagos, Nigéria, onde coordenei a elaboração do projeto da rede telefônica de uma extensa região da cidade, chamada Apapa, que abrangia a zona portuária, vários quarteis do exército e também o matadouro da cidade.

Não tenho nenhuma foto da viagem, pois era considerado crime um estrangeiro tirar fotografias no país. Mas, nuca vou esquecer do mau cheiro que se sentia nas ruas, nem dos milhares de urubus que habitavam a cidade, disputando espaço com os seus habitantes.

Muito antes disto, ainda menino, vivi situação parecida. Foi no início da década de cinquenta, em Itatinga, cidade do interior paulista onde cresci e fiz o Grupo Escolar.

Urubu existe em todo lugar. Essas aves rústicas, que despertam asco, prestam um serviço de inestimável valor para o meio ambiente. Alimentam-se de matéria orgânica em decomposição e, ao fazer isto, eliminam bactérias nocivas e perigosas que colocam em risco as vidas de todos os outros seres viventes. Eles vêm correndo, digo voando, quando sentem os miasmas emanados de matéria orgânica em decomposição.

A estas alturas do relato, você já deve ter deduzido que os urubus representam um elo comum entre as três cidades acima citadas. É verdade, mas, é necessário levar em consideração o fator tempo na história.

Em Faltesgoto, os urubus foram fotografados em ação recentemente. Uma situação presente e preocupante. Em Itatinga, a convivência com urubus parou de acontecer há 50 anos. Em Lagos, infelizmente não sei dizer. Nunca mais voltei para ver. Pelo que ouço, nada mudou por lá.

Independente de lugar e época, urubu gosta mesmo é de matéria orgânica apodrecendo. Quanto mais, melhor.

Há duzentos anos, nenhuma cidade do mundo possuía esgoto. Em Lisboa, dejetos líquidos escorriam pelas sarjetas e dejetos sólidos eram atirados em carroções para serem enterrados no campo na época em que a família real portuguesa se mudou para o Brasil. Posso até imaginar o mau cheiro que havia nas ruas de Lisboa e a quantidade de urubus que devia havia por lá. Como não conheciam esgoto, os monarcas portugueses que aqui aportaram em 1808, trouxeram ópera, biblioteca, jardim botânico e outras novidades, mas, não se preocuparam com saneamento.

Em Faltesgoto, a situação até que não é tão ruim assim. Afinal de contas, existem fossas nos quintais, que recebem o produto dos assentos sanitários. É claro que o lençol freático está contaminado. Mas os carroções foram abolidos. Entretanto, para retardar o enchimento das fossas sanitárias, água de banho, roupa e cozinha corre para as sarjetas. É oportuno lembrar que essa água contém restos de comida, não apenas espuma de sabão. Um grão de arroz aqui, outro ali. Um feijãozinho aqui outro ali. Um fio de macarrão, um ossinho de frango, um pedacinho de peixe, um naco de carne. Tudo isto combinado com o sol escaldante de nosso país fermenta, produzindo aquele odor desagradável ao ser humano. Mas irresistível para nossos amigos urubus.

Andando pelas ruas de Faltesgoto, topei com urubus em todo canto e lugar. Tinha urubu na cerca, urubu no muro, urubu no telhado, urubu na praça. Despreocupados, tranquilos, não se assustavam nem com os pedestres, nem com as barulhentas motocicletas que cruzavam a cidade em todas as direções a todo momento.

Não fosse pelo horrível pescoço, por sua mansidão diria que os urubus de Faltesgoto estão mais para galinhas pretas.

Havia crianças brincando e mães passeando com seus bebês bem perto das aves. Não duvido que algumas tenham até nome. Quando eu era criança, galo, pato e galinha lá em casa tinham nomes. Minha mãe me dizia: “Joaquim Carlos, quero fazer uma canja, vai buscar a Lurdinha. Mas, só se ela não tiver com ovo. Se tiver, destronque o pescoço da Cida e depene ela para mim”!

Em Itatinga, embora seja proibido, tem gente criando galinha até hoje. Mas, urubu não tem mais! A cidade ganhou seu sistema de esgoto há muitos anos e conta até com estação de tratamento.

Meu pai foi presidente da Câmara Municipal da cidade nos anos 50. Na ocasião, o município foi contemplado com uma verba federal de valor considerável para ser aplicada em infraestrutura. Ele era primo do prefeito e ambos queriam o esgoto. Mas, alguns vereadores queriam aplicar a grana no asfaltamento das ruas da cidade, que eram de terra. Os defensores do asfalto argumentavam que a cidade ficaria mais bonita, que a obra ia acabar com o poeirão e que mostraria para eleitores e visitantes o grande progresso do município. Diziam também que ninguém ia ver o esgoto.

Meu pai propôs então a instalação de tampas de vidro nas caixas de visita, para que o povo pudesse observar os bagres cegos passando. É claro que isto acabou não acontecendo, mas o argumento foi decisivo. O esgoto ganhou!

Na distante Faltesgoto, povo e galinhas continuarão convivendo com os urubus por muito tempo, pois tudo indica que o esgoto vai demorar para chegar. Falta vontade política e aparentemente ninguém reclama. O povo já se acostumou com o mau cheiro e parece até que gosta da companhia dos urubus.

Faltesgoto tem urubus de estimação!

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