PORQUE ME TORNEI ENGENHEIRO ELETRICISTA

Foto atual – Subestação da Copel, Campo Comprido Subestação Campo CompridoNo início da década de 60, o governo do estado de São Paulo criou algumas unidades de ensino superior no interior. Botucatu, onde fiz o científico, ganhou uma Faculdade de Ciências Médicas, Biológicas e Veterinárias, que hoje faz parte da UNESP. No distrito de Rubião Junior, havia sido construído um enorme edifício destinado a receber doentes de tuberculose. O local tinha sido escolhido devido ao clima de montanha da cidade, que tinha fama de curar a doença.

A ciência andou mais depressa do que a construção. Quando o prédio finalmente ficou  pronto, já existiam antibióticos e tratamentos especializados bem mais eficientes do que repouso em local montanhoso.

O prédio, que tinha se tornado um elefante branco, possibilitou que a Faculdade Botucatu funcionasse quase que imediatamente. O lema da cidade, que era Cidade dos Bons Ares, passou a ser Cidade dos Bons Ares e das Boas Escolas!

Sempre quis fazer engenharia, mas, sabia que meu pai teria dificuldade de me manter estudando fora em faculdade particular com a renda do armazém que possuía. A saída poderia ser estudar medicina.

No início de 1963, a convite da faculdade de medicina, as três séries do científico do IECA fizeram uma visita à instituição. A escola era nova e precisava atrair o maior número possível de candidatos. Os organizadores da visita não pouparam esforços para nos impressionar bem.

Nunca mais esqueci a visita à sala de anatomia: Alguns alunos do primeiro ano, nossos conhecidos, assistiam a uma aula prática. O professor estava dissecando (melhor dizendo, retalhando) um cadáver. Lembro até hoje do cheiro forte de formol, a cor amarela do pobre defunto e do enjoo de estômago que tive. Medicina, nem pensar!

Desde pequeno, gostava de construções. Desenhava prédios e adorava idealizar estradas, pontes e trevos. Um ano depois da famosa visita à Faculdade de Rubião Júnior, terminei o colegial. Como a vida nos reserva também boas surpresas, me surgiu a oportunidade de prestar vestibular de engenharia em Curitiba e passei na primeira tentativa.

Quando comecei a cursar o ciclo básico, a escola só tinha dois cursos: Mecânica ou Civil. Eu só pensava em ser engenharia civil. Mas, no início de 1965, foi criado o curso de engenheiros eletricistas. Qualquer que fosse a especialidade a ser escolhida, era necessário cursar os dois anos básicos.

Fui relativamente bem no primeiro ano e passei para o segundo sem nenhuma dependência. Já no final do segundo ano, como ocorria com quase todo mundo, peguei segunda época em Resistência dos Materiais. E também ocorreu um imprevisto. Passei por média em eletrotécnica, mas, fiquei de segunda época por falta (falta de vergonha na cara reconheço). A matéria era tão fácil que a gente gazeava as aulas. Eu tinha uma tabelinha de controle de presença, mas, me atrapalhei com a semana da Pátria. Contei como dias úteis os feriados e esses não contaram na percentagem calculada pela secretaria da escola. 

No começo de janeiro de 1966 fui até Centro Politécnico para fazer o exame de segunda época em eletrotécnica. Faltava apenas uma semana para o encerramento das matrículas. Depois do exame, fui almoçar no restaurante do Centro Politécnico. Um barracão de madeira que tinha servido de depósito durante a construção, bem próximo da Avenida das Américas. Sempre preferi almoçar lá, pois a comida era melhor do que a do restaurante do centro.

No momento que entrei, vi um cartaz: “A COPEL convida os terceiranistas para uma visita à Subestação de Campo Comprido. O ônibus sairá da Praça Santos Andrade às nove da manhã. Será oferecido um almoço aos visitantes”.

Tratei de voltar rápido para a minha república. Precisava passar a notícia adiante. Moravam comigo no apartamento 1302, meus colegas Roberto Rasi de Bauru e Olavo Gignon Guimarães de Jundiaí. No número 1310, moravam Newton Faoro e seu irmão Guilherme, vestibulando de medicina. Contei a novidade e eles adoraram, principalmente o almoço grátis. Decidimos convidar o Francisco Piccione, que morava perto. No dia seguinte, além de nossa panela de cinco, havia outros quatro ou cinco colegas no ônibus. Ninguém ali tinha considerado cursar eletricidade até aquele momento.

Chegamos a Campo Comprido e fomos nos empolgando! O engenheiro que nos recepcionou, um nissei, era excelente vendedor. Levou o grupo para uma sala com projetor de slides e mostrou fotos de usinas, linhas de transmissão, subestações e escritórios. Fotos de pessoal técnico impecavelmente uniformizado e de engenheiros sorridentes realizando seus trabalhos. Falou sobre planos da Empresa. Depois nos acompanhou na a visita. Fomos apresentados a barramentos, transformadores, disjuntores, chaves de aterramento e bobinas de acoplamento de sistemas carrier monocanais usados por canais de serviço.

A esta altura, já estávamos sabendo que, caso optássemos pelo curso, estagiaríamos na Copel já nas férias de julho daquele ano. Na hora do almoço, fomos levados até uma churrascaria em Campo Largo. Na ocasião, a subestação parecia longe da capital. Hoje, está no coração da Cidade Industrial de Curitiba.

Na volta, aquecidos pelos aperitivos e cervejas tomados durante o almoço, iniciamos uma convenção. Foram desfiados os prós e os contras de se optar pelo curso de engenheiros eletricistas. A viagem foi rápida demais e não chegamos a nenhuma conclusão. Quando descemos do ônibus, ao invés de ir para casa, fomos para o Pote Chope, uma choperia que ficava na Rua João Negrão, em frente da rodoviária velha.

Estávamos de ferias e tínhamos um assunto sério a tratar. Ficamos lá até quase dez da noite. Depois de dúzias de camarões abraçadinhos e de um incontável número de canecos de chope, foi feita a votação. Por unanimidade, ficou decidido que nossa panela faria o curso.

O tempo voou e chegou o primeiro dia de aula. Quando entramos na sala, tivemos uma grande surpresa: Além de nós cinco, apenas outros dois colegas de ciclo básico haviam se matriculado. Sete ao todo. Havia também quatro repetentes. Logo descobrimos que não poderíamos ter tomado melhor decisão.

Tivemos o privilégio de cursar três anos de eletricidade em condições excepcionais. Uma mistura de graduação e mestrado. Os professores eram dedicados e alguns deles realmente excepcionais. Não dava para deixar de acompanhar as aulas. Faltar, só se houvesse realmente um bom motivo. É claro que houve reprovações. Apenas nove receberam seus diplomas no dia 16 de dezembro de 1968.

A Copel cumpriu o prometido e manteve os estágios. Também manteve a proposta de emprego. Só não foi trabalhar lá quem optou por emprego em outro lugar. Meu caso e do Newton, que decidimos pela Telepar. A vida é realmente cheia de surpresas:

Posso dizer que sou engenheiro eletricista porque peguei segunda época em eletricidade! Pode isso?

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