DESCASO COM O PATRIMÔNIO PÚBLICO

Fórum CoariEm Coari AM, me deparei com um cenário chocante. Talvez o mais chocante de toda a minha vida, que já não é tão curta. Um edifício moderno e recém construído, saqueado e depredado de todas as formas possíveis.

O prédio é térreo e possui planta retangular com cerca de 800 m² de área construída (40 m x 20 m). A edificação ocupa um belo terreno, quase plano, com 5 mil m² (70 m x 70 m).

Tinha sido construído para abrigar o Fórum da Comarca de Coari e já estava habitado. Mas, uma parte do terreno, que tinha sido aterrado, sofreu acomodação e começaram a surgir trincas em várias paredes. Os ocupantes acharam que a edificação estava ruindo e entraram em pânico.

O edifício abrigava também equipamentos do Projeto Cidades Digitais. Seria o PAG-19 da rede. Tinha um cabo de fibras ópticas que terminava numa área de equipamentos do prédio. Lá havia um rack e, dentro dele, DGO, no-break e roteador de alta velocidade.

Como o endereço fazia parte das inspeções, vi de perto o que está acontecendo. Escrevo acontecendo, porque a ação de destruição continua em andamento.

No momento em que o engenheiro da Secretaria de Justiça do Amazonas assinou um Laudo Técnico condenando a estrutura, o edifício teve sua sorte selada. É oportuno esclarecer que não estou escrevendo por mero e irrefletido palpite. Também não estou questionando os motivos e justificativas que deram suporte ao laudo.  Apenas vejo o problema com outros olhos, baseado no que qualquer um pode ver hoje, dois anos após o prédio ter sido condenado.

Como o forro foi roubado, a estrutura de concreto armado está visível. E nela não se observa uma única trinca. Vigas e lajes estão íntegras. Olhando da rua, o local afetado fica no canto direito, no fundo do prédio. Diria que a área afetada tem cerca de 100 m². A edificação possui 800 m², de modo que a parte onde estão as paredes trincadas corresponde a 12% de sua área. Tratam-se de trincas em paredes em alvenaria de tijolos e é importante observar que elas não fazem parte da estrutura do prédio. São simples fechamentos. Pelo que se pode ver, o prédio não corre o perigo de ruir. Nem hoje, nem daqui a cem anos. Se dependesse de mim, contrataria uma empresa de construção civil reforçar as fundações e trataria de mandar reocupar o prédio o quanto antes!

É claro que o que escrevo precisa ser confirmado, para ver se é economicamente viável reforçar as fundação.

Este caso me fez lembrar de outro parecido, que ocorreu quando eu era gerente do Departamento de Redes do CPqD. O edifício (recém-inaugurado) do Laboratório de Ensaios Pesados começou a ceder. A estrutura era de concreto pré-moldado, possuía 1.200 m² de área e uma altura livre de 10 metros. Cabia um avião dentro dele. O terreno original tinha sido aterrado e o aterro sofreu acomodação. Um dos cantos do prédio cedeu cerca de 10 centímetros. Ao invés de mandar abandonar o prédio às pressas, o CPqD contratou uma empresa especializada neste tipo de problema (que é bastante comum). Com o uso de macacos hidráulicos a estrutura foi recolocada na horizontal e depois as fundações foram reforçadas. Isto aconteceu há 32 anos. Além do custo dos serviços de reforço, nada mais foi gasto. Durante as obras de recuperação, salvo na parte afetada, o edifício continuou funcionando normalmente. Nada foi extraviado, nem se perdeu.

O Laudo que condenou o prédio do Fórum de Coari teve consequências muito piores do que as que poderiam ter sido causadas pelas trincas que o justificaram: Remanejamento, às pressas, de pessoal e de instalações para um prédio alugado, muito menos adequado, depredação e saque do prédio condenado.

E, ao que tudo indica, o assunto já foi esquecido. Fiquei sabendo que durante algum tempo foi mantido serviço de segurança patrimonial. Mas, que este serviço foi descontinuado. Até hoje não foi erguido no local nenhum tapume para evitar, ou dificultar, a entrada de curiosos (possíveis vítimas inocentes) e de pessoas mal intencionadas.

Inexplicavelmente, nenhum equipamento sensível (e caro) foi retirado. Permaneceram por lá até serem roubados ou vandalizados.

O que aconteceu confirma a teoria das vidraças partidas da Universidade de Stanford (Google, “vidraças partidas”): Nenhuma reação por conta de pequenos furtos iniciais. Furtos subsequentes e novamente nenhuma reação. Criou-se uma onda que foi aumentando até não haver mais nada para se roubar. Numa segunda fase, surgiu uma atividade de demolição: portas, janelas, forros, instalações elétricas, instalações hidráulicas, metais e louças sanitárias. Alguém tentou retirar as placas de granito da fachada do prédio e desistiu porque este está muito bem colado. Mas, ficaram as marcas. Falta a última fase, o fogo. Estou certo de que virá, já que existe material combustível no local.

Alguns gatunos de profissão e um incontável número de ladrões oportunistas levaram tudo o que quiseram, sem ser incomodados e o que não puderam levar, destruíram e vandalizaram. É só olhar a foto acima.

De longe, continua sendo um imponente edifício. De perto, uma ruína. Uma edificação que seria um ponto turístico, um orgulho da cidade, foi arrasada.

A quem cabe a culpa? Aos sociopatas e maus cidadãos que roubaram, delapidaram e vandalizaram impiedosamente o patrimônio público?

Ou aos que não tomaram providências? Na minha opinião, de ambos!

Descaso de alguns, benefício para poucos, prejuízo para muitos.

Um acontecimento lamentável que jamais deveria ter ocorrido e que espero nunca mais voltar a testemunhar!

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