PORQUE ESTUDEI EM CURITIBA

Kombi luxo 1964Não consegui achar na Internet uma Kombi luxo saia e blusa ano 1963, da mesma cor da que me levou para Curitiba, que era branca e cinza.

Meu futuro foi selado no dia primeiro de janeiro de 1964. Decidi sair de casa para arejar um pouco a cabeça. A namorada da época estava passando o final de ano com os pais na colônia de férias do SESC em Bertioga e eu não tinha nenhum programa melhor para fazer naquela noite.

Como morava com meus pais num sobrado bem no centro de Botucatu, decidi ir andando até o cine Casino (só um s mesmo) para ver se encontrava algum amigo na saída da primeira seção.

Eram nove horas da noite quando atravessei a rua Amando de Barros, na esquina do Bosque. Nesse exato momento vinha passando a Kombi. Se eu tivesse atravessado um minuto antes, ou um minuto depois, teria seguido meu caminho sem cruzar com dois irmãos, meus colegas de classe, Antônio Carlos Menegon “Caicai” e seu irmão José Roberto Menegon “Beto”. Não teria estudado em Curitiba.

A Kombi vinha devagar, Caicai na direção. Quando me viu, brecou.

Eu havia acabado de concluir científico. No ano anterior havia sido eleito presidente do Grêmio Estudantil 16 de Maio do Instituto de Educação Cardoso de Almeida. Aulas de segunda a sábado, das 7:20 às 12:30. De tarde, ajudava meu pai em seu modesto armazém de secos e molhados. No ano que acabara de acabar, tinha andado tão ocupado que não achava tempo nem para comer. Com 18 anos e 1,80 m, pesava apenas 67 quilos. Era um varapau. Por conta do Grêmio faltei muito às aulas: Congressos, encontros, palestras, a reforma dos instrumentos da fanfarra do IECA e outras atividades tinham consumido meu tempo.  Não me sentia preparado para o vestibular e, para complicar, tinha ainda o Tiro de Guerra. Precisaria me apresentar em março.

Começamos a conversar. Trocamos desejos de Feliz Ano Novo, conversamos sobre o filme que estava passando no Cine Casino, sobre quem-estava-paquerando-quem e coisas assim. A conversa rumou para o vestibular. Comentei ter tirado da cabeça a ideia de prestar vestibular naquele ano. Além de não estar bem preparado, teria que servir a Pátria. Vestibular, só em 1965.

Caicai comentou que se eu fizesse o vestibular (e passasse), o problema do Tiro de Guerra estaria resolvido. Me contou que uma lei recente, de autoria do Senador Auro Moura Andrade, estabelecia que estudantes cursando nível superior poderiam ser incluídos no excesso de contingente das forças armadas.

Fiquei sabendo que os dois estavam indo com a Kombi até o posto de gasolina da Avenida Marechal Floriano para completar o tanque, conferir o nível do óleo e calibrar os pneus, pois partiriam para Curitiba naquela madrugada. Caicai ia se inscrever nos vestibulares de medicina da Federal e da Católica e Beto no vestibular de engenharia.

Fiquei curioso, quis saber mais detalhes. Perguntei se a escola de engenharia era do governo e ele disse que sim. Além deles, estavam indo três amigos que não eram do IECA. Perguntei quem ia dirigir. Seria um tio que trabalhava na polícia e que estaria de folga no começo da semana.

Senti uma vontade danada de ir com eles. Nem tanto pelo vestibular, queria mesmo passear. Perguntei se não caberia mais um na Kombi. “Cabe sim, desde que você ajude no racha da gasolina”, disse ele.

Pedi um tempo para ir até em casa. Fui num pé e voltei no outro. Sim, meu pai havia concordado que eu fosse com eles para Curitiba. Às quatro horas da madrugada já estávamos na estrada, 450 quilômetros pela frente, 300 de asfalto, 150 de terra. Entramos em Curitiba às três da tarde, cansados e animados.

Nosso motorista parou a Kombi na Rua Amintas de Barros, bem na frente da faculdade de Filosofia. Naquele tempo, a mão de trânsito era no sentido da descida. Hoje sobe. A tarde estava ensolarada e quente. Fato que depois descobri ser raro na cidade. Garotas loiras, que achei lindas, por todo lado! Comecei a querer estudar em Curitiba.

Conseguimos um lugar barato para dormir. Pensão Amália na Rua José Loureiro. Um sobrado antigo, demolido há décadas, onde hoje funciona um templo da Igreja Internacional do Reino de Deus. Ocupamos dois quartos. Um grande com cinco camas, outro menor com duas.

Na manhã seguinte, bem cedo, o porteiro da pensão nos ensinou como fazer para chegar na escola de engenharia. Era só pegar o ônibus da linha Jardim das Américas, onde se localizava o recém-inaugurado Centro Politécnico da Universidade. O ponto inicial era na Praça Carlos Gomes, em frente do Posto Garoto e ao lado do prédio da Gazeta do Povo, a três quadras da pensão.

Ao descer do ônibus, ficamos deslumbrados. O conjunto de prédios era impressionante, Estava tudo tinindo de novo. No caminho até a secretaria, entramos numa sala de aula que estava com a porta aberta. Carteiras marca Cimo, novinhas. Lousas verdes sem nem um furinho! Iluminação perfeita. Janelas amplas com brises horizontais externos que impediam que o sol batesse direto nas carteiras. Decidi que ia estudar em Curitiba!

Fomos até a secretaria. Tinha uma pequena fila, mas, logo chegou a nossa vez. Fui atendido por uma senhora que depois fiquei sabendo ser a Secretária do Diretor da escola, Jorge Ralf Leitner. “RG, Certificado de Conclusão do Colegial e Histórico Escolar, por favor”, disse ela.

Levei um susto, tinha trazido comigo só o RG. Na pressa, nem me lembrei de detalhes e formalidades. Beto também só tinha a identidade. Ao saber de nossas dificuldades, a secretária disse gentilmente: “Não tem importância. As inscrições só se encerram na sexta-feira. Dá tempo de vocês providenciarem tudo”.

Não havia chance alguma disto acontecer. Um dia perdido para voltar até Botucatu, outros dois para conseguir os documentos, mais um para regressar a Curitiba. Adeus vestibular. Começamos a nos lamentar ali mesmo. Comentamos que estávamos perdendo a chance de estudar naquela maravilhosa escola e de morar numa cidade onde tinha tanta moça bonita! Foi o que bastou para amolecer o coração da mulher que, usando de sua autoridade, sentenciou: “Gostei de vocês. Quero que os dois venham estudar aqui. Vou aceitar as inscrições em caráter condicional”.

Como o vestibular começaria no dia 16, combinamos de trazer os documentos requeridos até o dia 12. Com isto, ganhamos uma semana.

Na tarde daquele mesmo dia iniciamos a viagem de volta. Decidimos retornar pela BR-2 (atual BR 116). Trajeto mais longo, porém, totalmente pavimentado. Quando a noite caiu, não estávamos nem no meio do percurso. Baixou uma névoa espessa e a gente não enxergava mais nada na estrada. Não tivemos alternativa senão parar e dormir. A grana tinha acabado e dormimos na Kombi. Dois em cada banco e eu em cima do motor. O lugar estava infestado de pernilongos. Quando começou a clarear, acordamos doloridos e cheios de picadas. Tomamos café com leite e comemos um pão com manteiga num posto de beira de estrada e tocamos até Juquiá, onde deixamos a BR-2. Seguimos por uma estrada que ia na direção de Sorocaba. Cem quilômetros em trecho de serra. Curvas intermináveis. Não dava para ir a mais de 30 por hora. A Rodovia Castelo Branco ainda não existia. Depois de Sorocaba, passamos por Tietê, Laranjal Paulista e Conchas. Por volta de duas da tarde estava em casa e pude matar a fome de quase dois dias. Como estava boa a comida requentada da minha mãe!

No dia 12 de janeiro meus documentos estavam nas mãos da secretária da escola. A segunda viagem foi de ônibus. Havia ônibus de São Paulo para Curitiba a partir de 22 horas. Na primeira viagem peguei esse. Descobri que não era nada bom chegar muito cedo em Curitiba. Ao longo das incontáveis viagens que acabei fazendo, aperfeiçoei o processo. Saia de Botucatu às duas da tarde e às sete da noite estava na rodoviária velha de São Paulo. Dava tempo de jantar, andar até a Avenida São João, assistir um filme num dos cinemas que havia por lá e retornar a tempo de pegar o ônibus da meia-noite. Às sete da manhã estava em Curitiba.

Prestei os exames. Cinco ônibus pintados de azul e branco pertencentes à Universidade partiam da frente do Teatro Guaíra as sete da manhã e nos traziam de volta ao meio-dia. Cinco manhãs de provas: Português, Física, Química, Matemática e Desenho. Não tinha teste de múltipla escolha. Era tudo na base da escrita e da conta. Na volta das provas, ouvia os comentários dos colegas e ia ficando cada vez mais apreensivo. Invariavelmente, tinham dado respostas diferentes das minhas.

Quando acabou a última prova, ficamos sabendo que os resultados sairiam no carnaval. E o carnaval chegou! Eu estava na idade de “pular” de noite e de dia e fazia valer essa prerrogativa. Na terça-feira à tarde, no meio da folia, um dos colegas da Kombi entrou na quadra do Botucatu Tênis Clube. Trazia na mão um telegrama. Me viu, começou a acenar e veio na minha direção.

“Fanton, você foi aprovado no vestibular, está escrito aqui neste telegrama”. Curiosamente, dos seis que viajaram na Kombi, fui o único que passou.

E pensar que tudo isso aconteceu só porque decidi sair de casa para ver quem tinha ido à primeira seção do cinema!

PORQUE ME TORNEI ENGENHEIRO ELETRICISTA

Foto atual – Subestação da Copel, Campo Comprido Subestação Campo CompridoNo início da década de 60, o governo do estado de São Paulo criou algumas unidades de ensino superior no interior. Botucatu, onde fiz o científico, ganhou uma Faculdade de Ciências Médicas, Biológicas e Veterinárias, que hoje faz parte da UNESP. No distrito de Rubião Junior, havia sido construído um enorme edifício destinado a receber doentes de tuberculose. O local tinha sido escolhido devido ao clima de montanha da cidade, que tinha fama de curar a doença.

A ciência andou mais depressa do que a construção. Quando o prédio finalmente ficou  pronto, já existiam antibióticos e tratamentos especializados bem mais eficientes do que repouso em local montanhoso.

O prédio, que tinha se tornado um elefante branco, possibilitou que a Faculdade Botucatu funcionasse quase que imediatamente. O lema da cidade, que era Cidade dos Bons Ares, passou a ser Cidade dos Bons Ares e das Boas Escolas!

Sempre quis fazer engenharia, mas, sabia que meu pai teria dificuldade de me manter estudando fora em faculdade particular com a renda do armazém que possuía. A saída poderia ser estudar medicina.

No início de 1963, a convite da faculdade de medicina, as três séries do científico do IECA fizeram uma visita à instituição. A escola era nova e precisava atrair o maior número possível de candidatos. Os organizadores da visita não pouparam esforços para nos impressionar bem.

Nunca mais esqueci a visita à sala de anatomia: Alguns alunos do primeiro ano, nossos conhecidos, assistiam a uma aula prática. O professor estava dissecando (melhor dizendo, retalhando) um cadáver. Lembro até hoje do cheiro forte de formol, a cor amarela do pobre defunto e do enjoo de estômago que tive. Medicina, nem pensar!

Desde pequeno, gostava de construções. Desenhava prédios e adorava idealizar estradas, pontes e trevos. Um ano depois da famosa visita à Faculdade de Rubião Júnior, terminei o colegial. Como a vida nos reserva também boas surpresas, me surgiu a oportunidade de prestar vestibular de engenharia em Curitiba e passei na primeira tentativa.

Quando comecei a cursar o ciclo básico, a escola só tinha dois cursos: Mecânica ou Civil. Eu só pensava em ser engenharia civil. Mas, no início de 1965, foi criado o curso de engenheiros eletricistas. Qualquer que fosse a especialidade a ser escolhida, era necessário cursar os dois anos básicos.

Fui relativamente bem no primeiro ano e passei para o segundo sem nenhuma dependência. Já no final do segundo ano, como ocorria com quase todo mundo, peguei segunda época em Resistência dos Materiais. E também ocorreu um imprevisto. Passei por média em eletrotécnica, mas, fiquei de segunda época por falta (falta de vergonha na cara reconheço). A matéria era tão fácil que a gente gazeava as aulas. Eu tinha uma tabelinha de controle de presença, mas, me atrapalhei com a semana da Pátria. Contei como dias úteis os feriados e esses não contaram na percentagem calculada pela secretaria da escola. 

No começo de janeiro de 1966 fui até Centro Politécnico para fazer o exame de segunda época em eletrotécnica. Faltava apenas uma semana para o encerramento das matrículas. Depois do exame, fui almoçar no restaurante do Centro Politécnico. Um barracão de madeira que tinha servido de depósito durante a construção, bem próximo da Avenida das Américas. Sempre preferi almoçar lá, pois a comida era melhor do que a do restaurante do centro.

No momento que entrei, vi um cartaz: “A COPEL convida os terceiranistas para uma visita à Subestação de Campo Comprido. O ônibus sairá da Praça Santos Andrade às nove da manhã. Será oferecido um almoço aos visitantes”.

Tratei de voltar rápido para a minha república. Precisava passar a notícia adiante. Moravam comigo no apartamento 1302, meus colegas Roberto Rasi de Bauru e Olavo Gignon Guimarães de Jundiaí. No número 1310, moravam Newton Faoro e seu irmão Guilherme, vestibulando de medicina. Contei a novidade e eles adoraram, principalmente o almoço grátis. Decidimos convidar o Francisco Piccione, que morava perto. No dia seguinte, além de nossa panela de cinco, havia outros quatro ou cinco colegas no ônibus. Ninguém ali tinha considerado cursar eletricidade até aquele momento.

Chegamos a Campo Comprido e fomos nos empolgando! O engenheiro que nos recepcionou, um nissei, era excelente vendedor. Levou o grupo para uma sala com projetor de slides e mostrou fotos de usinas, linhas de transmissão, subestações e escritórios. Fotos de pessoal técnico impecavelmente uniformizado e de engenheiros sorridentes realizando seus trabalhos. Falou sobre planos da Empresa. Depois nos acompanhou na a visita. Fomos apresentados a barramentos, transformadores, disjuntores, chaves de aterramento e bobinas de acoplamento de sistemas carrier monocanais usados por canais de serviço.

A esta altura, já estávamos sabendo que, caso optássemos pelo curso, estagiaríamos na Copel já nas férias de julho daquele ano. Na hora do almoço, fomos levados até uma churrascaria em Campo Largo. Na ocasião, a subestação parecia longe da capital. Hoje, está no coração da Cidade Industrial de Curitiba.

Na volta, aquecidos pelos aperitivos e cervejas tomados durante o almoço, iniciamos uma convenção. Foram desfiados os prós e os contras de se optar pelo curso de engenheiros eletricistas. A viagem foi rápida demais e não chegamos a nenhuma conclusão. Quando descemos do ônibus, ao invés de ir para casa, fomos para o Pote Chope, uma choperia que ficava na Rua João Negrão, em frente da rodoviária velha.

Estávamos de ferias e tínhamos um assunto sério a tratar. Ficamos lá até quase dez da noite. Depois de dúzias de camarões abraçadinhos e de um incontável número de canecos de chope, foi feita a votação. Por unanimidade, ficou decidido que nossa panela faria o curso.

O tempo voou e chegou o primeiro dia de aula. Quando entramos na sala, tivemos uma grande surpresa: Além de nós cinco, apenas outros dois colegas de ciclo básico haviam se matriculado. Sete ao todo. Havia também quatro repetentes. Logo descobrimos que não poderíamos ter tomado melhor decisão.

Tivemos o privilégio de cursar três anos de eletricidade em condições excepcionais. Uma mistura de graduação e mestrado. Os professores eram dedicados e alguns deles realmente excepcionais. Não dava para deixar de acompanhar as aulas. Faltar, só se houvesse realmente um bom motivo. É claro que houve reprovações. Apenas nove receberam seus diplomas no dia 16 de dezembro de 1968.

A Copel cumpriu o prometido e manteve os estágios. Também manteve a proposta de emprego. Só não foi trabalhar lá quem optou por emprego em outro lugar. Meu caso e do Newton, que decidimos pela Telepar. A vida é realmente cheia de surpresas:

Posso dizer que sou engenheiro eletricista porque peguei segunda época em eletricidade! Pode isso?