Longá, uma solução criativa

Em março de 2017, foi realizada a inspeção final da rede óptica municipal de Nossa Senhora dos Remédios PI. Cidade pequena, rede pequena, as inspeções foram realizadas em um dia. Bem trabalhado, por sinal…

Os profissionais da XN  empresa que cuidou da implantação da rede daquela localidade, haviam encontrado pulgas e percevejos nas camas da Pensão Mãe Rola. Por este motivo, decidimos nos hospedar numa cidade vizinha, Esperantina. Chegamos no  hotel de Esperantina por volta de 0:10 da manhã de segunda-feira e descobrimos que estávamos a mais de 100 Km da cidade de Nossa Senhora dos Remédios.

 

Às seis da manhã pegamos a estrada. O GPS nos indicou um caminho que encurtava o trajeto em 30 Km. Seguimos o roteiro e logo descobrimos porque o pessoal do hotel não havia indicado aquele caminho: A estrada não era pavimentada e levamos mais de duas horas rodar apenas 70 Km. Paisagens bucólicas e muito bonitas, estrada péssima e cheia de buracos. Chegamos ao nosso destino por volta de oito e trinta da manhã.

Trabalhamos a manhã toda e almoçamos no único lugar razoavelmente  decente para se comer na cidade.

Para evitar outras 4 horas de viagem de ida e volta no dia seguinte, trabalhamos até terminar todas as inspeções. Regressamos a Esperantina à noite, desta vez, usando caminhos pavimentados. Foram 120 Km de estradas mais confortáveis,   mas, o tempo de viagem foi o mesmo da ida: Duas horas.  Na manhã seguinte, trabalhamos no hotel, revisando os detalhes da inspeção realizada e almoçamos numa churrascaria, às margens do rio Longá.

Na hora de pagar a conta, veio a surpresa: Descobrimos que o município de Esperantina possui Banco e moeda social própria. O LONGÁ

O projeto do Longá foi lançado em 2015, por iniciativa da vereadora Domingas Santana, que observou que a economia local seria incentivada com a criação de um banco comunitário, destinado a promover a inclusão financeira de famílias carentes, estimular o desenvolvimento local e promover a concessão de crédito para pequenos empreendedores.

Mas, tem outro motivo, que julgo pertinente relatar. De uns anos para cá, não há uma única cidade de pequeno porte na região nordeste que não tenha sido alvo de roubo com dinamite. A consequência inicial é que as agências e caixas explodidas nunca voltaram a funcionar. Assim, nessas cidades, quase não circulam Reais. Ou é cartão, ou quem compra tem que ir até uma cidade maior e sacar dinheiro.

A nova moeda social, Longá, tem notas de 0,50, 1,00, 2,00, 5,00 e 10,00.

As imagens que compõem a moeda social vão desde o Peixe Surubim, ao Colégio David Caldas, Cachoeira do Urubu, Pedra do Tapuio, Ponte sobre o Rio Longá e um Vaqueiro.

O primeiro município do Piauí a criar um banco comunitário e adotar moeda própria, OPALA, foi Pedro II. Em em seguida, São João do Arraial lançou o COCAIS.  O caso mais recente, é do Município de Porto, que lançou a moeda  MARRUÁS.

Pelo jeito, esta história vai longe…     

 

 

 

UM BOM EXEMPLO A SER SEGUIDO

santana-do-acarauNo início de outubro de 2016, estive em Santana do Acaraú CE, onde fui aceitar mais uma rede do projeto Cidades Digitais. Trata-se de um município do Ceará, com cerca de 30 mil habitantes, que fica a 267 Km de distância de Fortaleza e a 28 Km de Sobral.

A expectativa da população de Santana do Acaraú com relação à rede de cabos ópticos lá implantada era grande. Maior do que em muitas das cidades anteriormente inspecionadas. E tem um bom motivo: Lá, a rede é totalmente subterrânea. Sua implantação foi precedida de obras de infraestrutura que exigiram o emprego de tratores e de máquinas perfuratrizes de grande porte. Teve barulho e fumaça por lá, por bastante tempo. E é claro que a população da cidade, que acompanhou e sofreu com as obras, tenha ficado muito curiosa a respeito da rede.

Depois de construída, ao contrário das redes ópticas hoje existentes nas capitais e grandes cidades brasileiras, a rede óptica de Santana do Acarai ficou totalmente invisível.

A rede óptica implantada pelo MCTIC em Santana do Acaraú acessa 24 locais e dispõe de 03 pontos de atendimento público.

As atividades de inspeção incluíram a visitação de todos os pontos de terminação, que abrangem secretarias municipais, hospital, postos de saúde e escolas. Uma delas é a escola João Cordeiro, incluída neste relato.

O estabelecimento corresponde ao PAG-02, ponto muito importante da rede. Chegamos cedo e nos dirigimos diretamente à sala de equipamentos. Qual não foi nossa surpresa quando descobrimos que estes tinham sido instalados numa sala de aulas e que esta estava em pleno funcionamento naquele momento. Pela janelinha de vidro da porta, avistamos o rack do equipamento, a sala cheia de crianças e decidimos deixar a inspeção para outra hora.

Mas, através do mesmo postigo, a professora também nos avistou. Abriu a porta e convidou-nos para entrar. Pedimos desculpas. Dissemos que voltaríamos mais tarde. Mas dona Sônia Carneiro não nos deixou ir embora. Acabamos entrando. Ela disse que nossa visita era muito oportuna. Que estava ensinando Educação Social Moral e Cívica e que as crianças vinham perguntando para que servia aquela caixa na parede. Era uma classe da terceira série. Cerca de 20 crianças, na faixa dos nove anos de idade. Na foto aparece só a metade delas. Não coube a classe toda.

Em poucos minutos, contei para eles que as comunicações sempre foram muito importantes para a vida em sociedade e que, milênios atrás, os homens já se comunicavam com seus vizinhos. Usaram sinais de fumaça, tambores, bandeiras, e os meios foram se aperfeiçoando, até chegar ao telefone. E este está dando lugar à caixa na parede. Que ela era muito importante e que eles precisariam ajudar a tomar conta dela.

Não sei se entenderam muita coisa, mas, pelos sorrisos, dá para ver que ficaram muito felizes de serem chamados para ajudar.

Está de parabéns a professora Sônia. Ela está ensinando crianças a conviverem em sociedade quando crescerem. Está plantando em solo fértil sementes de solidariedade e de justiça. Daqui a dez ou quinze anos, Santana do Acaraú colherá os frutos desta plantação.

Naquele momento, me vieram à mente ensinamentos que recebi de Dona Linda, minha professora do terceiro ano primário no Grupo Escolar Paulo Thomaz da Silva, lá em Itatinga, interior de São Paulo.

Escolas primárias modestas localizadas em cidades pequenas e pobres precisam ensinar não apenas o ABC, história, geografia e aritmética. Precisam investir também na formação moral dos alunos. Agindo desta forma, estão construindo um futuro melhor para todos os brasileiros.

Um bom exemplo a ser seguido! 

O ORATÓRIO DO RESTAURANTE

OratórioComeço por recordar um episódio ocorrido na minha infância. Quando eu tinha oito anos, fui a uma festa junina que acontece até hoje em Itatinga, a  pequena cidade do interior de São Paulo onde morei na infância. Meu pai comprou várias cartelas de bingo e me deu uma para marcar. Tive muita sorte e completei minha cartela antes dos outros concorrentes.

Em exposição, no fundo da barraca, havia dez prendas, numeradas de um a dez. Tinha sabonete, bibelô,  brinquedos e outras coisas.

A prenda de número 8 era um lindo caminhão de bombeiros vermelho. Quem completava a cartela tinha o direito de enfiar a mão num saquinho e de lá puxar uma pedra numerada.

Com muita fé, enfiei a mão e puxei o número…3, que correspondia a um crucifixo. Muito decepcionado, comecei a chorar. E dona Ester, responsável pela barraca e mãe adotiva de meu melhor amigo, Chico Craco Prado, trocou o número do caminhão de 8 para 3. Com esta manobra ganhei o caminhão e, no final da festa, fui com ele para casa, feliz a vida.

Em fevereiro de 1954, teve a festa de meus nove anos. Ao abrir o pacote do  Chico tive uma grande surpresa. Ele me trouxe de presente o crucifixo desprezado por mim no bingo da quermesse. Até hoje me lembro do remorso que senti naquela hora.

Até certo ponto, foi uma malvadeza o que dona Ester fez comigo, mas, foi também uma grande lição de vida. Tinha passado pouco mais de meio ano e eu já nem lembrava direito do caminhão de bombeiros, que havia quebrado a roda na manhã seguinte em que o ganhei.

Já o crucifixo que ganhei de presente no meu aniversário de nove anos tem me acompanhado por toda a vida. Sempre encontro um lugar para ele nas casas onde moro. Afinal, eu sou dele. Foi ele que me escolheu!

Passo agora à história do oratório do Mangueirão, melhor e único restaurante de São José do Divino, pequena cidade do norte do Piauí com cerca de 5.000 habitantes, importante produtora de leite. Arrisco dizer que o nome se deve ao fato do lugar ter sido usado para ordenha de vacas no passado. Pelo menos na minha cidade do interior de São Paulo, a gente chamava o local de ordenha de “mangueira”.

Trata-se de um empreendimento familiar, como quase todo o comércio e serviço da cidade. Nenhum dos membros da família soube me dizer de onde vieram os ancestrais, mas, era como se eu estivesse almoçando numa cidade do oeste catarinense. Todos da família eram muito claros, galegos como se diz no sul. O patriarca, na faixa dos 80 anos, olhos azuis muito claros, sentado numa cadeira no fundo do estabelecimento, supervisionando calado as atividades.

A esposa, também entrada nos anos, e duas filhas na faixa dos quarenta, trabalhavam na cozinha. Um filho mais ou menos na mesma faixa etária das irmãs era o garçom. Não vi nenhum agregado nas três vezes em que lá almocei, embora imagine que tenha havido pelo menos um, pois circulava pelo local um rapazote na faixa dos quinze anos, cara escarrada do avô.

O serviço era self service. A tabela dizia: Almoço R$ 10,00, com direito a salada, arroz, feijão e macarrão à vontade. As “misturas” possuíam limite. Cada cliente tinha direito a um pedaço de galinha, carne de vaca ou de porco. Cada pedaço extra representava um real de acréscimo no preço da refeição.

Tinha uma TV que estava sempre ligada na hora do almoço. Ficava dentro da cozinha, mas, virada para fora, numa espécie de janela. Estabelecimento aberto, janela aberta. Estabelecimento fechado, janela fechada. Simples assim.

Fiquei fascinado por um oratório lotado de santos, que ficava na sombra das árvores do jardim. Para proteger as imagens, tinha um vidro. Era uma espécie de vitrine, semelhante às que se vê em túmulos, só que maior. Não comentei nada no primeiro dia, mas, no segundo não me aguentei e fui atrás de uma das mulheres, certo que uma delas era quem cuidava dos santos. Mas ela me contou que o oratório era do irmão, que me explicou que, no começo, o oratório só tinha uma imagem da Sagrada Família. Aconteceu que um freguês trouxe uma imagem de casa e pediu para colocar lá. Depois veio outro, mais outro, e a coleção não parou mais de aumentar.

Olhando de perto dá para ver que tem três imagens de Santo Antonio, três de Nossa Senhora Aparecida, duas de Nossa Senhora de Fátima e assim por diante. Vários tamanhos e várias procedências. Tem uma imagem que um freguês de fora mandou pelo correio. De forma espontânea, nasceu um santuário.

O local tem programação de reza semanal e celebrações especiais em datas específicas do ano. Tudo com muita fé e respeito. Depois da igreja matriz de São José, este deve ser o lugar mais visitado da cidade.

De um modo geral, a gente tem dificuldade de se desfazer de coisas velhas. Mais ainda quando se trata de uma imagem que pertenceu à mãe, ao pai ou ao avô. Todas tem história. Ninguém joga fora coisas assim.

Agora, sei de um bom lugar para onde posso mandar meu velho crucifixo, caso um dia mude de ideia sobre ele…

ÚLTIMO VOO COARI – MANAUS

Decolando de CoariEm meados de julho, o Ministério das Comunicações determinou que fosse realizada a inspeção final da rede da Cidade Digital de Coari Amazonas e a viagem foi combinada com a empresa integradora para acontecer na semana de 15 a 19 de agosto.

Descobri que viajar para cidades do interior da amazônia exige um certo grau de logística. Não se trata de algo trivial. O estado é imenso, coberto de florestas e recortado de rios. E as distâncias entre as cidades são sempre grandes. O município de Coari, por exemplo, é maior do que o estado da Paraíba.

Como todos sabem, o meio de transporte mais usado na região amazônica é o fluvial. Existem diversos tipos de barcos fazendo a rota Manaus-Coari. A duração da viagem, dependendo da embarcação escolhida, varia de oito horas até vários dias. Os barcos mais lentos podem viajar à noite e, por isto, partem em horários que permitem aos passageiros chegarem ao destino de manhã cedo. A viagem nesses barcos é mais barata, mas, para sentar, deitar e dormir, cada passageiro leva e instala sua própria rede. Esses barcos dispõem de cabines, mas, ocupar uma delas faz com que o preço da passagem iguale o das lanchas mais rápidas 

Por motivo de segurança, os barcos que fazem o percurso em oito horas não viajam à noite. Partem de Manaus bem cedo e chegam a Coari na metade da tarde. Isto significa perder um dia de trabalho na ida e outro na volta.

Contrariando minha vontade inicial de fazer uso de transporte fluvial para conhecer de perto o rio Solimões, o bom senso determinou que eu optasse por avião. Antes do final de julho, pesquisando voos entre Manaus e Coari na Internet, encontrei voos bate-e-volta nas segundas e sextas-feiras, oferecidos por uma empresa sediada em Manaus chamada MAP.

Decidi ir no dia 15 e voltar no dia 19. Porém, duas semanas depois, no momento em que as passagens iam ser adquiridas, os voos nas datas escolhidas tinham desaparecido. Como havia voos nos dias 08 e 12 de agosto, a viagem foi antecipada de uma semana.

O avião que operava na rota era um ATR-42. Aeronave bastante confortável. Depois de uma hora de voo muito tranquilo, cheguei ao destino.

Na sexta-feira, voltei ao Aeroporto Municipal Danilson Aires para pegar o voo de volta a Manaus. Momentos antes da partida, um funcionário da empresa pediu a atenção dos passageiros que aguardavam na sala de embarque. Agradeceu a todos por terem escolhido a MAP e comunicou que aquele seria o último voo da empresa entre Manaus e Coari. Diante da reação de protesto de alguns clientes, acrescentou que a empresa estava vendo com empresas parceiras o que poderia ser feito para voltar a oferecer viagens aéreas entre Manaus e Coari.

Ficou claro que o número de passageiros não está sendo suficiente para manter a linha em operação. Pude observar, na ida e na volta, que metade dos assentos estavam vazios. Nos quatro dias que passei em Coari, tive a oportunidade de conversar com o pessoal do hotel e de restaurantes onde fiz as refeições. Todos reclamaram de queda no movimento e disseram que o número de pessoas que visitam a cidade diminuiu muito nos dois últimos anos.

Para os que não sabem, a economia de Coari depende fortemente da Petrobrás. Desde os anos oitenta, a empresa explora petróleo e gás na região. Os cortes nos contratos da Petrobrás estão atingindo também as empresas prestadoras de serviços que atuam em Urucu e afetando a vida de todos na cidade.

No voo de volta a Manaus havia um comissário e uma comissária dando atendimento aos passageiros. O comissário de bordo era um cine-maníaco.  Durante os sessenta minutos que durou a viagem, comentou uns dez filmes com a colega. Como a cabine é pequena, os passageiros viajaram escutando as histórias. Título, resumo de cada filme, atores, atrizes, diretores, produtores e roteiristas.

Em momento algum, demonstrou qualquer sentimento por estar voando pela última vez entre Coari e Manaus, nem pareceu minimamente preocupado com o seu emprego que está certamente em risco.

As resenhas de filmes que ouvi me fizeram traçar um paralelo com a cena final do filme Casablanca, quando o velho bimotor DC-3 decolou pela última vez daquela cidade, levando Lisa Lund (Ingrid Bergman) e deixando para trás Rick Blaine (Humphrey Bogart).

Em Casablanca, e em todo o norte da África, a vida parou por cinco anos e só voltou ao normal quando a guerra terminou.

Como não estamos em guerra, espero que a crise em Coari dure muito menos!

UM CURSO NA “ONU”

Ericsson“Network Spring Course”, este era o nome do curso que fiz na Suécia. O nome deve ter sido adotado por ser “quase” primavera para eles. Às cinco da tarde do dia 25 de fevereiro DE 1970, o Boing 707 da Lufthansa que me trouxe de Frankfurt aterrissou no aeroporto de Arlanda. Noite feita,  13 graus negativos, um frio moderado para os padrões suecos. Uma noite limpa, com céu estrelado. Logo descobri que tive muita sorte! Poderia ter dado de cara com uma das muitas nevascas que caem por lá no início do ano.

Na manhã seguinte, a cidade estava tomada por densa neblina e caia um chuvisco fino misturado com grãos de gelo. Apesar de não ter nevado naquela noite, havia montes de neve antiga e suja derretendo nas calçadas e sujando a barra da calça, apesar dos sete graus negativos. Efeito do sal grosso jogado nas ruas para apressar o derretimento do gelo.

Após a apresentação no Centro de Treinamento de redes da Ericsson no bairro de Gröndal, o grupo foi levado até uma loja de departamentos. Ninguém tinha roupas adequadas para o clima do país. Todos compraram um traje completo. Ficou parecendo que estávamos de uniforme, pois as roupas eram quase iguais. Sapatos impermeáveis de calcanhar alto, meias de lã, cuecões, camisetas, sobretudo, cachecol e gorro de cossaco. Saímos da loja já vestidos, levando as roupas originais nas sacolas de compra.

A Ericsson dominava o mercado de telecomunicações na região do báltico e tinha forte presença na América Latina, Europa Oriental, Oriente Médio e Sudeste da Ásia. O departamento de treinamento era muito ativo e oferecia cursos de comutação, transmissão, rádio, tráfego, redes externas e outros, durante o ano todo.

Network Spring Course cobria planejamento, projeto, operação, manutenção e materiais de redes externas. Os solteiros foram alojados no “Guest House” da Ericsson, ao lado da fábrica da empresa, no bairro de Telefonplan. A estação de metrô mais próxima tinha o mesmo nome.

Alunos casados eram hospedados em casas de família. Permaneci dois meses no Guest House. Quando minha esposa chegou, em meados de maio, fomos morar na casa de uma senhora originária de Macau, que falava português com sotaque de Portugal, chamada Irene.

O curso era em tempo integral, com aulas teóricas pela manhã e aulas práticas à tarde. Através das aulas teóricas, fui introduzido ao conceito de redes flexíveis, mais tarde adotado pela Telepar e em seguida pelo sistema Telebrás.

Orientados por um instrutor de cabelos brancos que sabia tudo sobre construção de rede externa, trabalhamos durante três meses na implantação de uma rede telefônica dentro do laboratório do centro de treinamento. Instalamos cabos aéreos e cabos subterrâneos e confeccionamos emendas. Realizamos testes de transmissão. Instalamos linhas e aparelhos telefônicos. Simulamos faltas e localizamos defeitos. Após minha volta ao Brasil, a prática adquirida durante o curso me ajudou muito no desenvolvimento de novas práticas de construção para a Telepar.

Na foto, os alunos do curso. 1 Brasil, 2 Birmânia (hoje Myanmar), 3 Colômbia, 4 Filipinas, 5 Paquistão, 6 e 7 Bangladesh, 8, 9 e 10, Arábia Saudita. Três cristãos, quatro muçulmanos e três hinduístas. A Ericsson organizou as aulas respeitando os horários de oração dos quatro alunos muçulmanos. Havia os tradicionais tapetes para oração e até a direção para Meca foi estabelecida com a ajuda de uma bússola.

Quando o curso terminou, a Ericsson providenciou transporte marítimo para bens duráveis que os alunos haviam comprado. Eu havia comprado duas caixas de som de última geração e um toca-discos belt drive Bang & Olufsen, braço com ajuste de peso micrométrico e agulha de diamante semi elíptica, verdadeira joia “made in Finland”. Pensei que nunca chegaria, mas, estava enganado. O gerente da filial da Ericsson em Curitiba levou na minha casa.

Perdi contato com quase todos. Sei que Gonzalo Cuellar tornou-se gerente do centro de treinamento da Entel Colômbia e que Virgílio Guzman foi trabalhar na Bell Telephone of California. Nos encontramos nos EUA três anos depois do curso. Comi uma paella com ele e a esposa em San Diego. Conversamos sobre o frio que passamos, sobre o curso e sobre nossos colegas. Demos boas risadas.

Olhando a foto, alguém pode supor que se trata de alguma facção política. Na realidade, trata-se de um grupo de pessoas originárias de países distantes, pertencentes a culturas e religiões diversas, que conviveram e se tornaram bons amigos ao longo de três meses, vividos num país frio e distante, mas, onde todos receberam novos conhecimentos e encontraram respeito e calor humano.

Eu sempre digo que fiz um curso na “ONU”.

DESCASO COM O PATRIMÔNIO PÚBLICO

Fórum CoariEm Coari AM, me deparei com um cenário chocante. Talvez o mais chocante de toda a minha vida, que já não é tão curta. Um edifício moderno e recém construído, saqueado e depredado de todas as formas possíveis.

O prédio é térreo e possui planta retangular com cerca de 800 m² de área construída (40 m x 20 m). A edificação ocupa um belo terreno, quase plano, com 5 mil m² (70 m x 70 m).

Tinha sido construído para abrigar o Fórum da Comarca de Coari e já estava habitado. Mas, uma parte do terreno, que tinha sido aterrado, sofreu acomodação e começaram a surgir trincas em várias paredes. Os ocupantes acharam que a edificação estava ruindo e entraram em pânico.

O edifício abrigava também equipamentos do Projeto Cidades Digitais. Seria o PAG-19 da rede. Tinha um cabo de fibras ópticas que terminava numa área de equipamentos do prédio. Lá havia um rack e, dentro dele, DGO, no-break e roteador de alta velocidade.

Como o endereço fazia parte das inspeções, vi de perto o que está acontecendo. Escrevo acontecendo, porque a ação de destruição continua em andamento.

No momento em que o engenheiro da Secretaria de Justiça do Amazonas assinou um Laudo Técnico condenando a estrutura, o edifício teve sua sorte selada. É oportuno esclarecer que não estou escrevendo por mero e irrefletido palpite. Também não estou questionando os motivos e justificativas que deram suporte ao laudo.  Apenas vejo o problema com outros olhos, baseado no que qualquer um pode ver hoje, dois anos após o prédio ter sido condenado.

Como o forro foi roubado, a estrutura de concreto armado está visível. E nela não se observa uma única trinca. Vigas e lajes estão íntegras. Olhando da rua, o local afetado fica no canto direito, no fundo do prédio. Diria que a área afetada tem cerca de 100 m². A edificação possui 800 m², de modo que a parte onde estão as paredes trincadas corresponde a 12% de sua área. Tratam-se de trincas em paredes em alvenaria de tijolos e é importante observar que elas não fazem parte da estrutura do prédio. São simples fechamentos. Pelo que se pode ver, o prédio não corre o perigo de ruir. Nem hoje, nem daqui a cem anos. Se dependesse de mim, contrataria uma empresa de construção civil reforçar as fundações e trataria de mandar reocupar o prédio o quanto antes!

É claro que o que escrevo precisa ser confirmado, para ver se é economicamente viável reforçar as fundação.

Este caso me fez lembrar de outro parecido, que ocorreu quando eu era gerente do Departamento de Redes do CPqD. O edifício (recém-inaugurado) do Laboratório de Ensaios Pesados começou a ceder. A estrutura era de concreto pré-moldado, possuía 1.200 m² de área e uma altura livre de 10 metros. Cabia um avião dentro dele. O terreno original tinha sido aterrado e o aterro sofreu acomodação. Um dos cantos do prédio cedeu cerca de 10 centímetros. Ao invés de mandar abandonar o prédio às pressas, o CPqD contratou uma empresa especializada neste tipo de problema (que é bastante comum). Com o uso de macacos hidráulicos a estrutura foi recolocada na horizontal e depois as fundações foram reforçadas. Isto aconteceu há 32 anos. Além do custo dos serviços de reforço, nada mais foi gasto. Durante as obras de recuperação, salvo na parte afetada, o edifício continuou funcionando normalmente. Nada foi extraviado, nem se perdeu.

O Laudo que condenou o prédio do Fórum de Coari teve consequências muito piores do que as que poderiam ter sido causadas pelas trincas que o justificaram: Remanejamento, às pressas, de pessoal e de instalações para um prédio alugado, muito menos adequado, depredação e saque do prédio condenado.

E, ao que tudo indica, o assunto já foi esquecido. Fiquei sabendo que durante algum tempo foi mantido serviço de segurança patrimonial. Mas, que este serviço foi descontinuado. Até hoje não foi erguido no local nenhum tapume para evitar, ou dificultar, a entrada de curiosos (possíveis vítimas inocentes) e de pessoas mal intencionadas.

Inexplicavelmente, nenhum equipamento sensível (e caro) foi retirado. Permaneceram por lá até serem roubados ou vandalizados.

O que aconteceu confirma a teoria das vidraças partidas da Universidade de Stanford (Google, “vidraças partidas”): Nenhuma reação por conta de pequenos furtos iniciais. Furtos subsequentes e novamente nenhuma reação. Criou-se uma onda que foi aumentando até não haver mais nada para se roubar. Numa segunda fase, surgiu uma atividade de demolição: portas, janelas, forros, instalações elétricas, instalações hidráulicas, metais e louças sanitárias. Alguém tentou retirar as placas de granito da fachada do prédio e desistiu porque este está muito bem colado. Mas, ficaram as marcas. Falta a última fase, o fogo. Estou certo de que virá, já que existe material combustível no local.

Alguns gatunos de profissão e um incontável número de ladrões oportunistas levaram tudo o que quiseram, sem ser incomodados e o que não puderam levar, destruíram e vandalizaram. É só olhar a foto acima.

De longe, continua sendo um imponente edifício. De perto, uma ruína. Uma edificação que seria um ponto turístico, um orgulho da cidade, foi arrasada.

A quem cabe a culpa? Aos sociopatas e maus cidadãos que roubaram, delapidaram e vandalizaram impiedosamente o patrimônio público?

Ou aos que não tomaram providências? Na minha opinião, de ambos!

Descaso de alguns, benefício para poucos, prejuízo para muitos.

Um acontecimento lamentável que jamais deveria ter ocorrido e que espero nunca mais voltar a testemunhar!

UMA HISTÓRIA PARA PESCADOR NENHUM BOTAR DEFEITO!

RelógioEm agosto de 1975 viajei para Japão e Austrália. Os dois países possuíam programas de substituição do cobre pelo alumínio em cabos telefônicos. O governo brasileiro tinha estabelecido uma Política de substituição de insumos. O Brasil possuía imensas reservas de bauxita, nenhuma reserva significativa de cobre.

Na época, os cartões de crédito emitidos no Brasil vinham com uma tarja que dizia “valid only in Brasil”. Para pagar despesas com hotéis, refeições e outras coisas, a gente se valia de dólares americanos e de “travelers checks”.

Novidades tecnológicas no Brasil eram raras e caras. Pelas ruas de Tóquio, havia uma tentação atrás de outra. Uma profusão de produtos despertava o meu interesse. Preços inacreditáveis. Tudo exposto em vitrines de lojas e em bancas nas calçadas. Mas, era preciso ser cauteloso. A viagem tinha apenas começado. O dinheiro na carteira e os travelers precisavam durar até o fim. Tinha pela frente a missão na Austrália e o retorno para casa, que incluía duas paradas obrigatórias.

Acabei comprando uma máquina fotográfica Olympus XA2 com flash lateral acoplável que conservo até hoje e um relógio Seiko quase igual ao da foto que baixei da Internet. A única diferença é que o mostrador do meu era azul. Mas, a sensação estava no fato do relógio dar corda com o movimento do braço.

No final do ano, viajei de férias. Saí de Brasília com a família com destino ao litoral de Santa Catarina, com escalas intermediárias. Natal em Botucatu, ano novo em Curitiba. Cheguei em Botucatu com o meu relógio novo no braço faltando poucos dias para o Natal de 1975.

Combinamos uma pescaria em família. Era tradição. Participaram, além de mim, meu pai, meu cunhado Zé Amat e dois primos. A pescaria valia pela companhia e pela farra. A gente foi pescar lambari com vara de bambu e anzol miúdo. A isca era massa de pão. Embora Tietê e Paranapanema passem perto de Botucatu, fomos pescar no Rio das Pedras, no município de Itatinga. Rio bem pequeno, águas limpíssimas, leito encascalhado, era possível ver os peixes!

Logo na chegada, na pressa de jogar o anzol e fisgar um lambari de rabo vermelho antes dos outros, escorreguei e só não caí porque me agarrei a um galho de árvore. Mas, um ramo da bendita árvore enroscou na pulseira do relógio, que se partiu. Lá se foi o meu relógio novo para o fundo do rio.

Sem perda de tempo, tirei sapato, meia, calça e camisa e entrei no rio. Quanto mais me mexia, mais a água sujava. Procurei por um bom tempo e nada de encontrar! Para não acabar com a alegria da pescaria, desisti da busca e dei o relógio por perdido. Só que a história não terminou aí…

Em 1982, me mudei para Campinas e as idas a Botucatu ficaram mais frequentes. Meu cunhado, comerciante, industrial e vereador da cidade, fazia parte de um seleto grupo de amigos, que se reunia religiosamente nas manhãs de sábado para “aperitivar”. O encontro era no bar do Chaillot Hotel e se repetiu por décadas. O aperitivo semanal era famoso pelas histórias e fofocas que por lá circulavam. As esposas odiavam os encontros, não só pelos atrasos para o almoço e pela fala mole dos maridos quando voltavam para casa, mas, porque sabiam que muitas vezes eram o objeto das conversas.

Os anos foram passando e num sábado de 1995 o doutor Lilo, médico pediatra da cidade (não sei o nome dele e pouca gente por lá sabe), chegou muito animado e foi logo contando:

“Pessoal, vocês não vão acreditar, ontem à tarde fui pescar no rio das Pedras. O anzol enroscou e, para não perder linha e chumbada, fui puxando bem devagar.
O enrosco veio vindo, veio vindo, e descobri que era um relógio! A pulseira estava enferrujada, mas, o relógio não. Tirei ele da água, dei uma limpada e umas batidas e não é que ele estava funcionando?”

“Mentiroso, mentiroso”, gritou a turma em coro. Mas, meu cunhado interviu, confirmando a história.

“É verdade, esse relógio era do meu cunhado Joaquim Carlos, estava junto quando ele perdeu”!

É inacreditável como são bons esses relógios japoneses. O meu ficou embaixo d’água por vinte anos e não estragou. Estava funcionando. Sensacional! Penso até que pode ter ficado balançando sob o efeito da corrente de água e ganhando sempre um pouco de corda.

Vocês podem pensar que se trata de mais uma história de pescador, mas, juro que é verdade!

Diariamente, somos bombardeados por imensas e desconhecidas energias. A maior parte vem do sol, outras procedem do mais longínquo cosmos.

Essa energia é distribuída de forma regular, para todos. No caso desta história, um galho submerso pode ter mantido em movimento um mecanismo feito pelo homem.

Quantas coisas mais pode ter feito aquele pequeno pedaço de galho? Só Deus sabe...

UM COFRE NO JARDIM

22/06/2016

CofreNo jardim da Prefeitura de Regeneração PI descansa um cofre. Está deitado de lado, fundo encostado na mureta que faz divisa com a rua e suas pesadas portas estão voltadas para o jardim, numa pose parecida com alguém que dorme. Se estivesse de costas, eu diria que estava morto!

Pela aparência, está ali há anos, debaixo de uma árvore que para mim é uma figueira, mas, não tenho certeza disso. Conhecimentos de botânica nunca foram o meu forte.

Sua impávida presença é tão antiga que pessoas da cidade e funcionários da prefeitura já não lhe prestam atenção. Apenas forasteiros como eu devem achar estranho ele estar ali esquecido, num lugar tão visível, a poucos metros da porta de entrada da prefeitura.

Cheguei pouco antes das 8 da manhã. Quando viajo, gosto de começar o dia de trabalho sempre bem cedo. O tempo precisa ser bem aproveitado e sempre surgem imprevistos e coisas novas a serem feitas, das quais não me lembrei no momento de planejar a viagem.

O expediente de trabalho oficial nas prefeituras das pequenas cidades do nordeste do Brasil é das sete e trinta às treze e trinta. Na prática, das oito ao meio-dia. Quando vai chegando a hora do almoço o pessoal começa a debandar. Cada um vai cuidar de sua vida e de seus interesses em outro lugar.

Num primeiro momento pode parecer um abuso, mas, considerando a paga modesta, o pouco que se tem para fazer e o calor escaldante das tardes, o expediente matutino bem que se justifica…

Não encontrei o funcionário que estava procurando e dele ninguém soube me dar notícias. Decidi esperar. Para matar o tempo, puxei papo com um funcionário que me olhava de longa, curioso. Naquelas plagas sempre pensam que sou estrangeiro e alguns ficam espantados quando descobrem que falo português. Perguntei se ele se sabia porque aquele cofre estava ali, há quanto tempo, e qual seria seu destino.

Meu novo amigo não sabia responder nada sobre isto, mas, em compensação, me contou a história do cofre, que era interessantíssima.

O cofre foi doado à prefeitura por um Banco a instituição fechou a agência local. Na época em que isto ocorreu, já devia ser mais barato comprar um cofre novo para outra agência do que transportar um cofre antigo e pesado como aquele para outra cidade.

Como prefeitura quase nunca tem dinheiro em caixa, passaram a guardar documentos importantes dentro dele. Certo dia, um funcionário descuidado alterou inadvertidamente o segredo da fechadura e não conseguiu mais abrir o cofre. Muitos funcionários tentaram abri-lo e ninguém conseguiu.

Decidiram chamar o faz tudo da cidade, homem rude, mas muito bom no que fazia. Quando ele chegou, ninguém se preocupou em perguntar o preço do serviço. Em parte, porque achavam que seria apenas mais uma tentativa frustrada. Mexe daqui, cutuca dali, dez minutos depois o cofre estava aberto!

Na hora que a secretária da prefeitura perguntou o preço, levou um susto!

“São cem reais”, disse o homem, tratando de garantir a féria do dia, pois já eram de vacas magras os dias daqueles tempos.

“Cem reais por dez minutos de serviço? Você pensa que eu sou boba? Dou vinte e cinco e estamos conversados”!

O homem voltou ligeiro até o cofre e tornou a fechá-lo. “Se você acha caro o meu serviço, procure outro que abra”. Disse isso e foi embora.

Passaram-se semanas. Dezenas de pessoas foram chamadas e nada do cofre abrir. Esgotadas todas as possibilidades, a secretária chamou de volta o faz tudo.

“Pode abrir o cofre, decidi pagar os cem reais que você me pediu”, disse ela.

“O preço agora aumentou” disse o homem. “Agora, eu quero duzentos”!

Dito e feito, foi o que aconteceu…

Nos dias de hoje, vazio e esquecido, o cofre não vale mais nada. Transformou-se num estorvo. Seu preço, se for vendido por quilo, não remunera sequer o custo do transporte até o sucateiro da cidade vizinha.

Fazendo uma analogia entre a história desse cofre e a das pessoas, podemos concluir que valemos pelo nosso conteúdo. Não adianta ser forte, pesado e robusto.

A secretária da prefeitura deve ter também ter aprendido que um bom profissional não ganha fama por acaso. Bom conceito se conquista. Bons profissionais são como os bons vinho: Não importa a aparência do rótulo, o conteúdo fica cada vez melhor com o passar do tempo.

Quando temos pressa e precisamos garantir resultados, devemos confiar a missão a um profissional idôneo e experiente.

“O barato sai caro”, diz o ditado popular. Recomeçamos do zero e pagamos dobrado.

EFEITO DUVIDOSO

Efeito duvidosoEsta história também se passa em São José do Divino, Piauí. Não exatamente no centro. Para ser preciso, eu diria que a uns mil metros da praça da igreja.

Quando a gente realiza a inspeção de aceitação de uma rede óptica, existe um roteiro a ser seguido. Grande parte das atividades relaciona-se com a visita aos prédios que estão interligados à rede. Em cada ponto de terminação de fibras tem um roteador energizado por um nobreack ligado a uma tomada e vários outros dispositivos e equipamentos acomodados dentro de um rack.

Mas, uma parte das atividades consiste em se correr a rede externa, observando altura e tensionamento do cabo, ancoragens, sustentações, reservas técnicas, emendas e coisas assim.

A rede óptica de São José do Divino é bem pequena. De ponta a ponta, a cidade tem 2 quilômetros de extensão e é este o comprimento de cabo que foi inspecionado. Não mais do que 50 postes

O grupo de aceitação era composto de sete pessoas. Eu e outro representante da RNP (estávamos assumindo a responsabilidade pelas inspeções naquela viagem), um representante do Ministério das Comunicações que estava entregando a responsabilidade, três representantes da empreiteira que implantou a rede e o Secretário de Planejamento da prefeitura que a estava recebendo, que se chamava Francisco.

Quase hora do almoço, sol a pino, temperatura na sombra ao redor de 38 graus centígrados. Caminhamos desde a sede da prefeitura até o último ponto atendido pela rede, que era a delegacia de polícia.

Acostumado a andar, fui caminhando depressa e ganhando espaço do resto do grupo. Apertando o passo, Francisco me fez companhia. Em dada altura, ele viu um conhecido dentro de uma pequena lanchonete que ficava ao lado de uma oficina de motocicletas e me contou que os dois estabelecimentos pertenciam ao cidadão, que era também um dos vereadores da cidade.

Fez questão de parar para me apresentar. Havia outras três pessoas no local. Pareciam ser mais amigos do que fregueses. Estavam sentados na varanda coberta de telhas de aço zincado. O calor ali era escaldante para meus padrões. Muito agradável para eles, que estão em pleno inverno por lá. Feitas as apresentações, o comerciante ofereceu caldo de cana recém espremido. Estava bem gelado e desceu muito bem. Pedi repetição, o que o deixou muito feliz.

A pausa para o caldo de cana deu tempo do resto do grupo nos alcançar. Começamos a conversar. Foi uma conversa curta de não mais do que dois minutos. Francisco explicou a todos o que estava sendo feito. Empolgado com a confirmação de que o WiFi público já estava funcionando na praça, um dos amigos do vereador exclamou: “Oba, é agora que vou poder ver mulher pelada na Internet sem ter que pagar nada”

A Internet é uma ferramenta incomparável. Através dela temos acesso a milhares de fontes de informação, lazer e conhecimento e cultura, localizadas em qualquer parte do planeta.

Tentei explicar que a Internet pode ser usada até para isto, sem dúvida, mas, que ele deveria começar a pensar em tirar proveito daquela ferramenta. Comecei a contar aos presentes que meu filho mais velho, engenheiro eletricista como eu, obteve um diploma de especialização no MIT usando a Internet. Mas, logo desisti. Desconfiei que ninguém alí fazia a mínima ideia do que era MIT ou qualquer outra instituição deste tipo.

Perguntei se ele já tinha estado em alguma cidade grande. Nunca, nem em Teresina!

Antes de entrar numa estrada, precisamos saber onde ela vai dar e o que queremos fazer no destino. Não podemos correr o risco de ser como Alice passeando no País das Maravilhas. Numa encruzilhada, perguntou ao gato que lá estava por qual caminho deveria prosseguir, que respondeu perguntando a ela para onde ela ir. Alice respondeu que estava perdida e que não sabia. E o gato, finalmente, deu sua resposta: “então não faz nenhuma diferença”.

Antes de pegar uma estrada, precisamos estudar o caminho a ser trilhado e saber o destino a ser atingido. Enquanto não fizermos isto, estaremos gastando tempo e dinheiro, sem conseguir sair do lugar!

EFEITO COLATERAL

Efeito colateralA pequena São José do Divino no Piauí está em festa este mês. E não é só pela chegada do mês de junho. No bojo de um ambicioso projeto do governo federal, concebido para levar serviços de banda larga para o interior, entrou em operação um ponto de acesso público na praça central da cidade.

O cartaz instalado no local informa:

“Agora tem Internet GRÁTIS na praça”.

Estive lá e vi: Quando o sol se esconde e a temperatura fica mais amena, muitas pessoas se dirigem até o local, celulares na mão, e se conectam na Internet.

Rede e equipamentos locais foram implantados com recursos do governo federal. Mas, a saída para o mundo exterior ficou a cargo da prefeitura. Por se tratar de cidade muito pequena, que representa pouco retorno para os grandes provedores de banda, o máximo que a prefeitura conseguiu foi alugar uma conexão via rádio, com 16 Mbps. Ou seja, inferior à banda que dispomos hoje em nossas casas e que achamos lenta demais.

Mas, parece que ninguém liga para este pequeno detalhe em São José do Divino. A gente vê no rosto das pessoas a felicidade. É uma alegria só! De graça, a gente toma até injeção na testa, diz o ditado popular!

A meu ver, a maior vantagem é que a cidade possui hoje uma rede óptica própria, interligando pontos de seu interesse. Secretarias municipais, escolas, creches, centros de assistência social, delegacia de polícia, o hospital, o escritório do programa Bolsa Família estão hoje todos interligados e podem trocar entre si grandes volumes de informação. Mas, ao sair para o mundo, terão que compartilhar uma fatia dos 16 Mbps disponibilizados para todos.

Mas, foi interessante constatar que toda inovação pode despertar também maus humores!

O WiFi da praça está equipado com antena de alto ganho. Embora o contrato estabeleça um alcance mínimo dentro da praça, o sinal chega com força em endereços que ficam a até 200 metros de distância. Com isto, comerciantes, moradores vizinhos, o dono da farmácia, o dono do supermercado e o gerente da agência dos Correios estão felicíssimos. Todos estão pensando seriamente em “descontratar” os serviços do provedor local e migrar para a rede da prefeitura. Num primeiro momento, pelo menos economicamente, o maior prejudicado seria o provedor.

Mas, entre os descontentes estava alguém que ninguém poderia imaginar: Padre Antônio Baselino, pároco da igreja de São José, padroeiro da cidade.

Ninguém se lembrou que seu local de trabalho ficava de frente para a antena. Sinal cheio dentro da igreja e bancos confortáveis para se sentar e sombra. Pode ter lugar melhor para ficar? O padre ficou danado da vida e estrilou feio!

Li com estes olhos que a terra há de comer o WhatsApp que ele mandou para o responsável pela rede: “Francisco, você precisa desligar a Internet nos horários de missa. Não quero ter que brigar com você”!

Na mesma hora, me ocorreram cenas que observo hoje em restaurantes e rodas de amigos. Dei razão à zanga do padre. Os paroquianos, entretidos com seus smartfones, não estavam acompanhando direito as missas, nem prestando atenção nos sermões!

A rigor, esta mensagem nada republicana deveria receber um sonoro NÃO. Afinal, apesar do nome da cidade estar associado a um santo, a prefeitura é laica e certamente deve haver evangélicos e ateus na praça durante os horários de missa. Mas, fiquei sabendo que a solicitação vem sendo devidamente atendida.

Maquiavel escreveu há quase sete séculos:

Não existe atividade mais perigosa e, ao mesmo tempo mais frustrante, do que trabalhar em inovação. O inovador precisa conviver com a indiferença dos futuros beneficiados e enfrentar o ódio daqueles que inevitavelmente se sentirão prejudicados!