Manual de Redes Ópticas Internas já!

Redes InternasEm 1973, estagiei em várias empresas telefônicas nos EUA. Entre as novidade que trouxe de lá, estava um exemplar de um Manual de Redes Internas do Building Industry Consultive Service, BICS.Na época, todas as concessionárias do Brasil, elaboravam projetos de tubulações internas de casas e edifícios e projetavam e instalavam suas redes internas. Além de cara, tratava-se de uma atividade extremamente problemática.

A divisão que eu gerenciava na Telesp, que atuava somente na Cidade de São Paulo e em algumas localidades vizinhas, tinha uma equipe de redes internas de mais de  trinta pessoas. E é oportuno lembrar que as concessionárias forneciam também os telefones: Blocos terminais, cabos, fios e telefones eram de propriedade das concessionárias, bem como sua manutenção.

Os telefones comercializados no Brasil até meados da década de setenta eram de disco. Possuíam cápsulas de carvão, cordões lisos e espiralados e outros componentes que se desgastavam com o uso. Mais de 90% dos defeitos ocorriam nos assinantes.

Há décadas, a seção de redes internas da Telesp vinha funcionando da forma como passo a descrever: O interessado fornecia dois conjuntos de cópias heliográficas das plantas da edificação. O setor de projetos desenhava (em nanquim) nos dois conjuntos de plantas, eletrodutos e caixas de passagem, incluindo dimensões, comprimentos, etc. Um conjunto era arquivado para uso futuro e outro era devolvido ao interessado, para ser executado. Com esta atividade nunca levava menos de um mês, era objeto de frequentes reclamações.

Quando o prédio ficava pronto, muitas vezes anos depois, o interessado solicitava vistoria. Um de nossos funcionários ia até o local inspecionar a instalação. Verificava se tinham passado arame guia, se tinham usado os diâmetros corretos de tubos, se as dimensões das caixas estavam de acordo com o projeto e outros detalhes. Havia sempre fila de espera. Salvo prioridades passadas pela diretoria, a inspeção também demorava no mínimo um mês. Obras de grande porte demandavam vários inspetores. Havendo pendências, tinha que começar tudo de novo.

Para complicar, nem todos os inspetores agiam de forma ética e profissional. Entre os bons, tinha sempre aqueles que criavam dificuldades para vender facilidades. Um processo viciado não serve senão para atrapalhar e causar confusões. Aos problemas técnicos, somavam-se reclamações, denúncias e até processos de demissão por justa causa.

Em 1973, durante uma viagem que fiz aos EUA, descobri que as construtoras americanas projetavam e construíam não apenas as tubulações. Descobri que projetavam e construíam suas próprias redes internas e que as concessionárias limitavam-se a terminar um cabo de rede externa no Quadro de Distribuição Geral do prédio. Tubulações, cabos, fios e aparelhos telefônicos, tudo era de responsabilidade das construtoras. Nos EUA, Indústria de construção civil e concessionárias de telecomunicações tinham chegado a um acordo e seguiam as normas estabelecidas num Manual de Redes Internas, emitido por uma entidade que representava os interesses dos dois lados.

De tudo o que eu trouxe dos EUA naquele ano, este foi o item mais comemorado pela alta gerência da empresa. Me passaram a incumbência de traduzir e adaptar o conteúdo do manual às necessidades da Telesp. O documento levou o nome de Manual de Tubulações Internas, já que, em sua primeira emissão, cobria apenas tubulações.

Mas, já foi um salto espetacular. A primeira emissão do manual foi distribuída para empresas de engenharia, construtoras de pequeno e médio porte e arquitetos. Houve um evento de lançamento, onde compareceu a imprensa. No dia seguinte, a notícia estava nos principais jornais. A iniciativa foi muito bem recebida.

A Telesp aproveitou a oportunidade e redirecionou para outras ocupações os empregados que trabalhavam com desenho e projeto de tubulações.

Com o tempo, o Manual passou a fazer parte da Lista Telefônica. Todo mudo do ramo sabia que podia tirar dúvidas nas últimas páginas da Lista de Assinantes. O conteúdo do manual foi sendo revisto e publicado na Lista de Assinantes por décadas. Em 1977, a Telebrás lançou o telefone brasileiro a teclas desenvolvido e fabricado pela Gradiente. Por ser verde, quadrado e cheio de botões, recebeu o apelido de “general”.

O general possuía plugue de quatro pinos na extremidade do cordão liso, ao invés de “roseta” de terminação. A novidade foi introduzida para possibilitar ao assinante mudar o telefone de lugar, sem ter que recorrer a um técnico. A instalação do ponto principal continuou a ser feita por instaladores das concessionárias. As extensões passaram a ser compradas e instaladas pelos assinantes. A Telebrás criou o conceito de ponto de transição. Passou a existir um bloco de terminação na entrada das casas. O instalador parava aquele ponto. De lá para dentro, passou a ser de responsabilidade do assinante. Quando o período de exclusividade da Gradiente cessou, os aparelhos passaram a ser vendidos em lojas e rapidamente surgiram outros modelos.

O Manual de tubulações foi ampliado e passou a englobar a parte de fios e cabos. O nome mudou para Manual de Redes Internas e está em vigor até hoje. A tecnologia avançou e há um detalhe muito importante que ficou esquecido.

O Manual de Redes Internas estabelece normas de projeto de tubulações a serem ocupadas por cabos de pares simétricos de cobre. Consequentemente, todas as edificações construídos no Brasil continuam recebendo redes metálicas!

Como se sabe, a tecnologia HDSL está chegando ao fim, pois as velocidades de transmissão requeridas pelo mercado exigem o uso de fibras ópticas. Nem concessionárias, nem provedoras de serviços querem gastar dinheiro para levar cabos de  pares simétricos até para novas edificações. Sabem que os clientes desejam mesmo é serviço de banda larga. Até aceitam telefonia, mas, como subproduto.

Por estas razões, já faz alguns anos que incumbents e provedoras de banda larga começaram a instalar cabos ópticos dentro de prédios (novos ou existentes).

Na contramão da história, estão fazendo exatamente que as empresas de telefonia faziam no início da década setenta, só que num ambiente de competição, o que é muito pior.

As empresas estão disputando espaço dentro de tubulações ocupadas por cabos metálicos e muitas vezes por cabos ópticos dos concorrentes.

O congestionamento está igual ou pior ao que vemos nos postes de nossas cidades. É o caos se instalando por falha de regulamentação e desatualização normativa.

Manual de Redes Ópticas Internas já!

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