PEQUENA CONTRIBUIÇÃO, GRANDE RESULTADO

Carta 30 07 2016Segundo o IBGE, o município de Goioerê possui hoje cerca de trinta mil habitantes. A cidade cresceu muito desde que estive lá. Eu tinha acabado de passar para o quinto ano de engenharia e era estagiário da Telepar.

Estava passando férias de final de ano com meus pais no interior de São Paulo e resolvi comemorar o aniversário de minha namorada, hoje minha esposa, em Curitiba.

O aniversário dela seria numa sexta-feira. Prevenido, cheguei em Curitiba na segunda-feira. Na terça cedo resolvi dar uma passada na Telepar para rever os colegas e saber das novidades. Mal sabia o que me esperava.

O departamento onde eu fazia estágio ficava no “predinho”, apelido que haviam dado para uma edificação de dois pavimentos que ficava no fundo do terreno da Avenida Manoel Ribas 115, onde estava sendo construído o edifício sede da Telepar, o “predião”.

A sala ficava no térreo. Tinha uns 100 m2 e abrigava o departamento de engenharia civil da empresa. O chefe se chamava Manoel Rodrigues, um engenheiro civil muito experiente. Era conhecido na empresa como Maneco Facão, apelido vinha desde os tempos de faculdade.

Assim que cheguei, ele festejou. Acenou para um veterano meu que acabara de se formar em engenharia elétrica e fez ali mesmo uma reunião. Contou que o PS de Goioerê tinha data de inauguração marcada e que a Copel não estava querendo ligar a energia do prédio. O ponto alto da cerimônia de inauguração seria um telefonema que o prefeito da cidade daria para o governador Paulo Pimentel. Além do problema de Goioerê, a torre de micro-ondas de Paranavaí ainda não tinha sido aterrada e isto precisava ser feito com a maior urgência. “Tem muita coisa para ser feita e quero que os dois vão juntos nessa viagem para resolver os dois problemas. Comecem por Goioerê que é mais urgente, depois resolvam Paranavaí”.

Eu não fazia a mínima ideia de onde ficava Goioerê. Fiquei sabendo que teríamos que ir por Guarapuava. 240 quilômetros de estrada asfaltada de Curitiba até aquela cidade e outros 250 quilômetros de terra até Goioerê, passando por Pitanga e Campo Mourão. Tentei explicar que estava de férias e que só voltara a Curitiba para passar o aniversário de minha namorada com ela. Mas, não adiantou. Maneco havia decidido e não tinha conversa!

Descobri que iriam conosco dois pintores e um eletrotécnico. Faltavam acabamentos de pintura e o quadro de distribuição precisava ser terminado.  Teríamos que partir na manhã seguinte bem cedo.

Sem ter como escapar, fui até o apartamento da namorada tratar de me justificar. Quem conhece a minha esposa sabe que não foi uma conversa fácil.

Na manhã seguinte, no horário combinado, me dirigi até o ponto de encontro combinado. Estavam lá o eletrotécnico e os dois pintores com escada e latas de tinta.

Nosso transporte chegou. Uma caminhonete Chevrolet C-1416 cabine dupla novinha. Tinha a logomarca do governo Paulo Pimentel na porta: Retângulo branco de cantos arredondados com um círculo verde no centro. O dístico era: “Paraná, aqui se trabalha”. O logo tinha sido apelidado, com justa razão, de “pepinão”. O motorista desceu e contou que meu veterano não estava mais indo, que tinha surgido um imprevisto e que era para eu me virar sozinho. Na hora me senti um verdadeiro trouxa.

Mas, não havia outra coisa a fazer senão seguir viagem. Almoçamos em Guarapuava e logo depois entramos no trecho de terra. Estrada ruim e cheia de buracos. A caminhonete não conseguia passar de 60 quilômetros por hora. Tudo correu bem até Pitanga. Faltavam umas três horas para chegar ao destino quando começou a chover forte. Quando isto acontecia, a ordem da polícia rodoviária, abrangendo caminhões e caminhonetes, era parar onde estivessem, para não “estragar” a estrada.

Para resumir a história, chegamos em Goioerê às onze da manhã do dia seguinte, faltando menos de 48 horas para a inauguração. Pintores, técnico, escadas e latas de tinta ficaram no prédio do PS e o motorista me levou até o escritório da Copel.  Perguntei pelo técnico que rejeitara nosso ramal de entrada e ele estava em horário de almoço. Voltei no começo da tarde.

Fiquei sabendo da existência de uma norma da Copel estabelecendo limites para diâmetros de condutores de ramais em entradas em prédios: Nenhum cabo poderia ter condutor com bitola superior a #8 AWG* e ramal instalado pela Telepar usava cabos # 6 AWG**.

Eu não conhecia a norma. Nos meses anteriores, meu trabalho se resumira à elaboração de dois projetos de barramentos DC e ao acompanhamento das instalações elétricas do edifício sede, que estava em construção.

Tentei argumentar que os cabos tinham capacidade de corrente superior e que isto contribuía a favor da segurança elétrica. Mas, para o técnico valia o que estava escrito na norma. A quinhentos quilômetros de distância de Curitiba e sem ter a quem recorrer, mesmo sem saber como isto poderia ser feito, garanti que a instalação seria ajustada à norma.

Perguntei se o empecilho era só aquele, ou se tinha mais alguma pendência: “É só isto”, respondeu o homem. Perguntei quanto tempo ia levar para providenciarem a ligação: “Assim que você confirmar a correção, a energia será ligada”.

Na mesma hora, fui atrás do eletricista que tinha instalado o ramal de entrada. “Eu bem que avisei, mas, o engenheiro de vocês não quis me ouvir”, disse o homem. Como eu só tinha dinheiro para hotel e alimentação, propus que a ele que fizesse a instalação usando condutores bitola #8 AWG e ficasse com os cabos mais grossos como pagamento.

Para minha surpresa, talvez até porque precisasse muito do PS, o eletricista aceitou minha proposta. A negociação toda durou talvez cinco minutos. Assim, sobrou tempo para ajudar o eletrotécnico que veio comigo de Curitiba a instalar o quadro de distribuição e a realizar testes de partida do grupo motor gerador do prédio.

A energia foi ligada a tempo da cerimônia, que aconteceu em 19 de janeiro de 1968, sexta-feira, bem no dia do aniversário da minha namorada.

Veio gente de todo canto para assistir à inauguração. Mas, muitos queriam mesmo era telefonar. Acabei não conseguindo dar os parabéns para a namorada, pois o PS possuía só uma cabine e a fila ficou comprida demais.

No dia 21, já em Paranavaí, escrevi uma carta para me desculpar da grave falha, que hoje leio e acho muito engraçada. A carta original, que minha mulher guarda até hoje, era manuscrita. Note-se que o dia 21 de janeiro de 1968 caiu num domingo. Que ninguém pense que errei a data. Quando a gente viajava a serviço, não tinha feriado nem dia Santo. Todo dia era dia de semana.

O PS significava uma grande conquista para Goioerê. O prefeito chegou na hora combinada, a telefonista providenciou a chamada e o Governador atendeu. Tudo correu conforme o planejado.

No final da semana seguinte, depois de providenciar o aterramento da torre de Paranavaí, voltei a Curitiba. Escrevi tudo o que aconteceu no meu relatório de viagem. Ninguém nunca me questionou por ter trocado cabo grosso por cabo fino. Naquela viagem, aprendi que um bom profissional precisa estar sempre disponível, tomar decisões rápidas e acertadas e saber ser flexível.

Em Goioerê, aprendi que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Isto valeu tanto para o supervisor de estágio que decidiu que eu iria viajar, quanto para o técnico da Copel que exigiu a modificação.

 A empresa era pequena e a história se alastrou. Ganhei fama de “resolvedor” de problemas. Tinha apenas 22 anos e ainda faltava um ano para me formar.

Esta história ensina que uma pequena contribuição pode produzir um grande resultado.

Mas, preciso admitir, problema mesmo foi chegar em Goioerê!

(*) #8 AWG = 8,3 mm2     

(**) # 6 AWG = 13,3 mm2

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