CARTA DE RECOMENDAÇÃO EDUARDO GRIZENDI RNP

Campinas, 21 de outubro de 2019

A quem interessar possa, declaro que conheço o engenheiro Joaquim Carlos Fanton desde os anos 80, quando fomos colegas no CPqD, ocasião em que ele chefiava o Departamento de Desenvolvimento Redes daquela instituição.

No ano de 1999, nossos caminhos se cruzaram novamente, quando trabalhei na Vésper e ele teve a oportunidade de trabalhar diretamwente comigo em atividades Desenvolvimento Corporativo. Como a diretoria da empresa entendeu ser mais produtivo ele atuar em sua área de especialidade, foi promovido a Senior Manager Fiber, Copper and Radio Design, sob o comando do Mr. Jean Provencher, Network Design Director da Vésper.

Em 2010, fui contratado com consultor pela RNP e, logo depois, assumi o cargo de Diretor de Engenharia e Operação da empresa.

Quando cheguei, o Fanton, nome pelo qual é aqui conhecido por todos, já fazia parte do quadro de consultores da empresa.

Nos mais de quatorze anos em que vem atuando como consultor, Fanton criou um sistema de trabalho, ao qual toda a equipe de engenharia se adaptou, baseado em regras claras, diretas e simples.

Estabelece contato fácil com os profissionais que a Vésper tem espalhados por todo o Brasil, está sempre disponivel e procura cumprir sempre dentro do prazo todas as demandas que lhe são passadas.

Iniciou elaborando as Normas Técnicas utilizadas pela RNP no projeto, contrato, construção e auditar de redes ópticas e, com o tempo, assumiu atividades ligadas a treinamento em sua área de especialidade.

Realiza uma média de seis auditorias em redes ópticas por ano, e sempre ministra um Workshop sobre boas práticas em redes ópticas. Também conta histórias e piadas ligadas ao assunto, que já se tornaram famosas na empresa.

 A partir de 2016, passou a realizar inspeções em redes ópticas municipais construídas sob responsabilidade do MCTIC, em adição às atividades que realiza normalmente no âmbito do projeto RedeComep.

Por tudo isto, posso afirmar que Fanto, com seu grande conhecimento no campo da telecomunicações e com seu vasto conhecimento técnico tem exercido um papel muito importante dentro meu time de colaboradores a para a RNO como um todo.

Ele conta com minha forte recomendação para qualquer cargo a que se candidate, dentro do mercado de telecomunicações.

Eduardo Cesar Grizendi

Diretor de Engenharia e Operação da RNP

TEORIA DAS  JANELAS QUEBRADAS

A teoria das janelas quebradas ou “broken windows theory” é um modelo que os norte-americanos criaram para enfrentar e combater o crime, classificando a desordem como fator que eleva os índices da criminalidade.

A teoria defendia que a falta de repressão de pequenos delitos produzia, inevitavelmente, condutas criminosas de maior gravidade.

Há cerca de 50 anos, pesquisadores da Universidade de Stanford realizaram uma interessante experiência no campo da psicologia social: abandonaram dois carros idênticos, da mesma marca, modelo e cor. Um foi deixado numa rua do Bronx, bairro pobre e conflituoso de Nova York e o outro numa rua da cidade de Palo Alto Califórnia, no Silicon Valey. E uma equipe formada por especialistas em psicologia social analisou e estudou a conduta das pessoas em cada local.

Poucas horas após ser abandonado, o carro do Bronx começou a ser vandalizado: rodas, espelhos e rádio  foram roubadas e depois o motor. Levaram embora tudo o que foi possível carregar e o que restou foi destruído. Enquanto isso, o carro abandonado em Palo Alto permaneceu intacto.

Essa foi apenas a primeira fase da pesquisa: os pesquisadores quebraram um dos vidros do automóvel de Palo Alto e isso desencadeou o mesmo processo que havia ocorrido no Bronx: roubo, violência e vandalismo reduziram o veículo a uma situação idêntica à que havia ocorrido no bairro pobre e violento de Nova York.

Por que um vidro quebrado numa viatura abandonada em um bairro de uma cidade rica e considerado seguro foi capaz de desencadear todo um processo delituoso? Evidentemente, teve a ver com psicologia humana e com relações sociais.

Um vidro quebrado num veículo ou numa casa, transmite uma ideia de deterioração, desinteresse e despreocupação, quebra códigos de convivência, faz as pessoas suporem que a lei se encontra  ausente e que não existem normas ou regras naquele lugar.

Um simples vidro quebrado provocou o “vale-tudo”: cada novo ataque depredador reafirmou essa ideia. A escalada de atos cada vez piores se tornou incontrolável e desembocou uma violência irracional.

Com base nessa, e em outras experiências análogas, foi desenvolvida a “Teoria das Janelas Quebradas“. A conclusão é que os delitos são maiores em zonas onde descuido, sujeira e desordem são maiores.

Quando, por alguma razão, o vidro da janela de um edifício desocupado quebra e não é reparado, logo todos os demais estarão quebrados. Da mesma forma, quando uma comunidade exibe sinais de deterioração e parece que ninguém se importa, esse fato gera delitos.

Origem da teoria das Vidraças Quebradas:

Essa teoria começou a ser desenvolvida em 1982, quando o cientista político James Q. Wilson e pelo psicólogo criminologista George Kelling publicaram um estudo na revista Atlantic Monthly, estabelecendo uma relação de causalidade entre desordem e criminalidade.

No estudo, os autores utilizaram a imagem das janelas quebradas para explicar como desordem e criminalidade se infiltram aos poucos numa comunidade, causando sua decadência e a consequente queda da qualidade de vida. O estudo realizado levou em consideração a experiência dos carros abandonados no Bronx e em Palo Alto.

Em suas conclusões, esses especialistas acreditam que, ampliando a análise situacional, se por exemplo uma janela de um imóvel fosse quebrada e não fosse consertada, quem por ali passasse iria concluir que ninguém se importava com a situação e que, naquele local não havia ninguém responsável por manter a ordem, começando naquele momento a deterioração do bairro todo.

Em decorrência do mau aspecto, pessoas de bem deixariam a comunidade, que ficaria à mercê de gatunos e desordeiros, pois apenas pessoas desocupadas ou imprudentes se sentiriam à vontade para residir em uma rua cuja decadência se torna evidente. Pequenas desordens, portanto, levam sempre a desordens maiores e ao crime.

Da mesma forma, os defensores da teoria concluíram que, quando são cometidas “pequenas faltas”, como estacionar em local proibido, exceder o limite de velocidade, “furar” sinal vermelho e não sofrer nenhuma consequência induzem o ofensor a cometar delitos mais graves.

Quando pais e responsáveis admitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, estas se ficam  mais violentas quando adultas.

A teoria das Janelas Quebradas definiu um novo marco no estudo da criminalidade ao apontar que a relação de causalidade entre a criminalidade e outros fatores sociais, tais como a pobreza ou a “segregação racial” é menos importante do que a relação entre a desordem e a criminalidade. Não seriam somente fatores ambientais (mesológicos) ou pessoais (biológicos) que teriam influência na formação da personalidade criminosa, contrariando os estudos da criminologia clássica.

Experiência no metrô de Nova York

Há 50 anos, a criminalidade em Nova York havia atingido níveis que preocupavam a população e as autoridades responsáveis pela segurança pública.

Por esse motivo, foi implementada uma política chamada Tolerância Zero, baseada na teoria das “Janelas Quebradas“.

As autoridades entenderam que parques e outros espaços públicos haviam se deteriorado por terem sido progressivamente abandonados pela administração pública e pela maioria dos moradores de bem e, em consequência, tinham sido ocupados por delinquentes.

Em meados da década de 80, a teoria das Janelas Quebradas começou a ser aplicada no metrô de Nova York, que se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade.

Começaram combatendo pequenas transgressões: lixo jogado no chão das estações, alcoolismo entre os passageiros, não pagamento de passagem, pequenos furtos e desordens. Os resultados foram rápidos e evidentes. Começando pelo pequeno, conseguiram fazer com que o metrô se tornasse um lugar seguro.

Em 1994, o  prefeito Rudolph Giuliani adotou a política de “tolerância zero” nas ruas da cidade, com o objetivo de criar comunidades limpas e ordenadas. O resultado foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.

A política de “tolerância zero” corre o risco de se tornar uma medida autoritária, repressiva e opressora, caso seja aplicada de modo unilateral por alguma autoridade de plantão, mas, seus defensores afirmam que o conceito principal é a prevenção e a promoção de condições sociais de segurança.

Não se trata de linchar o delinquente, mas de impedir que este se envolva em processos criminais mais graves. O método preconiza que abusos de autoridade da polícia e de governantes também devem ser objeto de Tolerância Zero ela não pode, em absoluto, restringir-se à massa popular.

Não se trata de tolerância zero com relação aos que cometem pequenos delitos, mas tolerância zero em relação a delitos. O objetivo é criar comunidades ordenadas, que respeitem as leis e os códigos básicos de convivência social humana.

Tolerância Zero e Teoria das Janelas Quebradas colocaram Nova York na lista das metrópoles mundiais mais seguras do mundo.

Caso fosse adotada no Brasil, hoje assolado por casos de vandalismo, criminalidade, impunidade, amoralidade e corrupção e usada com equidade e equilíbrio, ajudaria a criar uma sociedade melhor e mais segura para todos, com certeza!

COMO FUNCIONAVA A DIVISÃO DE ENGENHARIA DE REDES DA TELESP NOS ANOS 70

Quem me mandou esta foto foi meu colega e amigo dos tempos de Telesp, Antônio José Alves Macedo, também conhecido como Ajam. Ela me fez lembrar de detalhes e fatos que havia esquecido e que pouca gente conhece nos dias de hoje.

Antes do AutoCad e de outros recursos de desenho digitais, os projetos eram desenhados à mão, de forma que todos os escritórios de projeto precisavam dispor de bons desenhistas, que usavam pranchetas.

Minha divisão na Telesp possuia quatro seções de projeto: Dutos, Redes externas, Redes Internas e Cabos Tronco. Os desenhos eram feitos em papel vegetal tamanhos A1 e A0 da ABNT.

Na etapa de projeto, os desenhistas usavam lapiseiras de grafite macio, pois os desenhos sofriam atualizações após a execução.

Numa segunda fase, usando cópias heliográficas atualizadas em campo, eram elaboradas as plantas de cadastro. Nesse trabalho, os desenhistas aplicavam tinta nanquim sobre os traços à lápis.

Finalmente, os traços de lápis eram eliminados com um solvente especial que não afetava o papel vegetal.

Na época, a Telesp estava implantando o maior projeto de expansão do planeta na cidade de São Paulo: 500 cabos de assinantes (1.800 pares de cobre bitola 0,40 mm cada um), 200 cabos troncos (600 e 900 pares bitola 0,64 mm) e cerca de mil quilômetros de canalizações subterrâneas.

A Divisão de Projetos possuia 250 empregados, entre engenheiros, projetistas e desenhistas. Tinha gente que usava escrivaninha, mas a maioria precisava de prancheta de grande porte para trabalhar.

O escritório ocupava duas sobrelojas no edifício Copan, num total de 4 mil m2. Além das pranchetas, havia dezenas de arquivos de gavetas onde eram guardados os desenhos originais em papel vegetal, que não podiam ser dobrados.

Durante muito tempo, as cópias heliográficas eram impressas numa gráfica. O transporte envolvia o risco de molhar com chuva, as cópias demoravam para ser impressas e eram entreguem enroladas (em várias vias): os desenhistas gastavam um tempo enorme dobrando cópias.

Após muito esforço, consegui que a Telesp comprasse uma impressora de última geração que usava processo de revelação à seco: o vegetal entrava de um lado e as cópias saiam do outro, já dobradas.

Outro detalhe interessante: quando assumi o cargo, descobri que era tradição na empresa 4 pessoas assinarem as plantas: desenhista, chefe do setor, chefe da seção e o chefe da divisão (eu).

Como havia 700 projetos em andamento, cada um com 40 pranchas em média, isso representava 28 mil pranchas de desenho que precisaria ser assinadas em 480 dias úteis (2 anos), e eu iria gastar cerca de 3 horas por dia assinando plantas!

Assim, no mês seguinte que assumi a gerência da Divisão de Projetos, rompi uma tradição de 50 anos, que causou polêmica entre os subordinados mais antigos: tirei meu nome das plantas e passei a dedicar as 3 horas que perderia em atividades de gerenciamento.          

TORRES DE RÁDIO NOS MORROS DO RIO DE JANEIRO

Até o final dos anos 90, existiam antenas com 100 KW de potência: a energia elétrica induzida nas proximidade delas era tão forte, que os moradores usavam lâmpadas fluorescentes queimadas nas casas. Isso ocorria em decorrência de um fenômeno físico e, memo queimadas, acendiam por efeito de indução e permaneciam acessas o tempo todo.

O campo magnético gerado pelos transmissores ionizava os gases existentes nos tubos e as lâmpadas nem precisavam ser compradas, pois eram descartadas quando os filamentos de acendimento queimavam. O gás ionizado emitia luz ultravioleta, que se transformava em luz visível ao passar por uma camada de fósforo branco que existia na parede interna do tubo.

Apesar de ondas de rádio não afetarem o DNA como ocorre com o raio X, exposição prolongada a potências altas causa problemas de saúde: uma febrícula que acaba danificando tecidos de órgãos internos que, entre outras coisas, acelera o desenvolvimento de catarata. Pessoas que moravam perto de antenas de alta potência apresentavam dor de cabeça crônica, distúrbio de sono, fadiga extrema, alterações no sistema nervoso, tonturas e irritabilidade.

A OMS coloca ondas de rádio de alta potência no campo 2B de risco (carcinogênicos para humanos) e o risco aumenta com a proximidade da fonte e com o tempo de exposição.

Ainda existem muitas antenas instaladas nos morros do Rio de Janeiro, mas o cenário mudou bastante: são em menor número e as potências são menores.

As antenas atuais, usadas para transmissão de rádio FM e TV, estão instaladas em morros como Sumaré, Mendanha e Cantagalo. As potências diminuíram em decorrência do avanço da tecnologia, do surgimento de novos padrões de cobertura e de restrições ambientais.

Mendanha na Zona Oeste é hoje um importante ponto para TV digital e meteorologia, pois abriga um super radar da prefeitura.

Morros do Cantagalo, Viúva e Outeiro são usados por antenas que pertencem a emissoras FM. Níveis de potência são baixos, nada na faixa de 30 a 100 KW e as notícias de acidentes limitam-se a danos causados por ventanias nos morros.

Quando trabalhei para a Vésper na virada do milênio, visitei ´muitos morros no Rio de Janeiro e vi a pessoalmente o fatos aqui narrados.

COMO FIBRAS ÓPTICAS CHEGARAM ATÉ O PoP DA RNP EM MACAPÁ

Antes atendido apenas via rádio, em março de 2015 a operadora CompuService ativou um circuito de 100 Mbps entre Belém e Macapá.

Com essa obra, todos os pontos de presença da RNP passaram a ser atendidos através de fibras ópticas, garantindo internet de qualidade para as instituições de ensino e pesquisa localizadas na região Norte do Brasil.

A nova conexão beneficiou a Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), a Universidade do Estado do Amapá (UEAP), o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

O Ponto de Presença da RNP no Amapá (PoP-AP) passou a contar 100 Mbps por fibra e 150 Mbps por rádio.

A obra foi um passo importante em direção à “gigatização” da rede Ipê, que passou a atender todos os estados da União com múltiplos gigabits.

As fibras estão dentro de um cabo OPGW do Linhão de Tucuruí, que tem 1.800 km de extensão e é responsável por levar energia elétrica da hidrelétrica desde Tucuruí até Macapá, via Manaus.

O cabo cruza o rio Amazonas em Jurapari (PA), sustentado por torres de 300 metros de altura.

PROJETANDO E CONSTRUINDO REDE TELEFÔNICA  EM ANTONINA

Cidade de Antonina PR

A foto acima é recente, mas, a cidade mudou muito pouco nos últimos 60 anos!

Em 1969, o município de Antonina tinha 17.000 habitantes e 12.000 moravam na sede.

A história que decidi contar aconteceu em 1969, quando a Telepar lançou planos de expansão de redes telefônicas em todo o Estado do Paraná. Na época, pessoas interessadas em ter telefone adquiriam carnês, que eram  pago em até 48 prestações. Em todo o Brasil o telefone era artigo de luxo, pois o preço  equivalia ao valor de um carro zero.

Vendedores iam até as cidades levando carnês que continham, além das parcelas a serem pagas nas agências bancárias, 4 vias descartáveis: essas vias eram entregues na sede da empresa e tinham destinos pré estabelecidos: Financeiro, Lista Telefônica, coisas assim. A 4ª via era do Departamento de Projeto de Redes: era utilizada nos projetos pois coninha o nome e o endereço do novo assinante.

No início de 1969, fui escolhido para coordenar o projeto e a implantação de redes telefônicas no interior do Paraná e Antonina foi a primeira. Nos anos seguintes, repeti a operação cerca de 80 vezes, mas, nunca esqueci a experiência de Antonina.

Ao chegar na cidade, reparamos que na 4ª via dos carnês não havia os números das casas. Constava rua tal, s/n. Ou seja, nenhuma casa de Antonina tinha número!

Incluindo o motorista éramos em quatro: fizemos 4 maços, cada um pegou o seu e foi à luta. Bati palmas na porta da primeira casa da rua e uma senhora atendeu. Perguntei onde morava e senhor Antônio da Silva e, para minha surpresa, ela respondeu que não conhecia ninguém com aquele nome.

Contei do que se tratava e ela logo se interessou: “acho que deve ser o Tonico do Bar”,  Ele mora no próximo quarteirão, numa casa azul do lado esquerdo. Fui até a casa indicada e era o Antônio correto. Tinha outro cidadão, chamado Francisco, conhecido por “Chico Batatinha”.

Foi assim que descobri que em Antonina, além das casas não terem número, ninguém era conhecido pelo nome: Todos tinham um apelido!

Foi muito divertido!

PROJETO REDE GIGA

Durante cinco anos, trabalhando como consultor pra o CPqD, coordenei a implantação física do projeto GIGA, sistema de altíssima velocidade, composto por diversos anéis ópticos que somavam 200 quilômetros, interligados por um backbone óptico com 960 Km de extensão.

O projeto GIGA era uma parceria CPqD/RNP e atendia a cerca de 50 instituições de ensino e pesquisa sediadas em Campinas, São Paulo, São José dos Campos, Cachoeira Paulista, Rio de Janeiro, Niterói e Petrópolis.

ESTAGIANDO NA TELEPAR EM 1967

PROJETO E INSTALAÇÃO DO BARRAMENTO CC DO EDIFÍCIO SEDE DA TELEPAR

A foto acima mostra como o edifício é esbelto, muito diferente dos edifícios que abrigavam centrais telefônicas na época.

O edifício foi construído num dos pontos mais altos da cidade porque a tecnologia de transmissão de longa distância utilizava rádioenlaces de micro-ondas e de UHF, cujas antenas precisavam ficar em pontos dominantes. Por norma, antenas são identificadas por sua localização geográfica e cota.

As antenas do Palácio das Telecomunicações receberam a denominação cota mil, número correspondente aos 900 metros de altitude do terreno somados aos 100 metros de altura do prédio.

Do 1º ao 7º andar, os pavimentos possuem pé direito de 5 metros e foram projetados para abrigar equipamentos de comutação e de informática.

Do 8º ao 17º andar, os pavimentos possuem pé direito de 3 metros e foram equipados com caixas no piso, para tomadas e fios de telefonia. Essa infraestrutura permitia alterações de leiaute nas paredes divisórias, conforme as necessidades de seus ocupantes, normalmente diretores, chefes de departamento e membros de suas equipes. Do 18º e acima, o uso era compartilhado com a Embratel.   

Os equipamentos de comutação exigiam salas de 1.000 m² (20 m x 50 m) e usavam alimentação elétrica em corrente contínua, 48 V. Os equipamentos de transmissão utilizavam o mesmo tipo de energia e ocupavam espaços menores,

A energia CC era acumulada em 24 células de 2V ligadas em série, que forneciam corrente de 1.000 Amperes. Fisicamente, cada célula de 2V era um reservatório de ácido sulfúrico diluído em água destilada com dimensões aproximadas de 50 x 50 x 120 cm. Por segurança, precisava haver um afastamento mínimo entre células e entre elas e outros objetos, ou paredes. As baterias exigiam também a existência de sistema de exaustão eficiente. Sob o ponto de vista arquitetônico, a existência de uma sala ao lado de uma sala de equipamentos representava um aumento de 5 metros na largura do prédio.

Para viabilizar a esbeltez do projeto arquitetônico concebido pelo arquiteto Lubomir Antônio Ficinski, engenheiros da Telepar e Embratel concordaram com a construção de uma sala de baterias comunitária no subsolo do edifício e essa decisão resultou na necessidade de uso de condutores de grande calibre para alimentar os andares onde seriam instalados os equipamentos.

Como entrei nessa história:

Quando comecei a estagiar na Telepar, a primeira demanda que recebi do engenheiro Galvão foi estudar e apontar eventuais falhas no projeto elétrico convencional do prédio sede. Realizei o trabalho em apenas dois dias.

Galvão convocou uma reunião com a empresa que havia elaborado o projeto, apresentei  a relação de erros encontrados, que foram reconhecidos e corrigidos e a fatura relativa ao projeto elétrico foi liberada para pagamento.

Até aquele dia eu não sabia nada sobre o assunto da energia CC acima detalhado, muito menos que eu acabaria sendo envolvido no projeto e instalação do barramento que operou por muitos anos no Palácio das Telecomunicações.

Galvão usou seu estilo direto de comunicação: “Calcule para mim a área que um condutor precisa ter para alimentar o equipamento de rádio que ficará no topo do prédio, Considere 200 metros de distância, corrente de 1.000 Amperes, tensão 48 V e queda de 0,5 V na extremidade”.   

A pergunta era simples. Bastava aplicar a lei de Ohm: V=R.I, ou seja, R = V/I. Em poucos minutos dei a resposta: o condutor precisa ter uma área de 6.880 mm².

Galvão replicou: “e se for de alumínio”? A pergunta também foi fácil de responder, pois a resistividade do alumínio é 60% do cobre: 11.280 mm²

Galvão disse: “providencie o projeto usando alumínio, mas, não quero cabo elétrico, quero que seja projetado um barramento”.

A coisa apertou do meu lado: expliquei que sabia projetar cabo e que barramento exigia conhecimentos mecânicos que eu não dominava, pois estava cursando mecânica básica naquele ano. Mal sabia diferenciar porca de parafuso.

Galvão passou a mão no telefone e ligou para um ex colega do ITA que trabalhava para a ALCAN em São Paulo. Conversaram e combinarm que eu iria a São Paulo, para ter uma aula especial sobre barramentos de alumínio.

Após desligar o telefone, fiquei sabendo que o projeto era muito urgente e que eu tinha um mês para entregar os desenhos detalhados.

Às 11 da noite, peguei um ônibus para São Paulo e às 7 da manhã já estava na rodoviária velha da cidade, localizadas na Avenida Duque de Caxias. A sede da ALCAN ficava esquina das Avenidas Duque de caxias e São João. Decidi caminhar, para evitar encrenca com taxista por conta de um trajeto de 900 metros.

Às 8 horas, cheguei na portaria da ALCAN, onde o amigo do Galvão me esperava. Subimos, ele me entregou um livro técnico todo em Inglês, foi folheando as páginas e comentando detalhes: Acabou gastando a manhã comigo. No início da tarde, embarquei de volta para Curitiba.

Com o auxílio do livro, tomei conhecimento de exigências técnicas e de peças importantes que nem imaginava que existissem: curvas, juntas de dilatação, isoladores de passagem, peças de apoio que precisavam ser usadas em prumadas a cada 3 andares, necessidades de ventilação e outros detalhes.

Obtive cópias das plantas de projeto de todos os andares do prédio, incluindo cortes e elevações, dobrei e levei para minha república, onde havia uma prancheta no quarto.

Eu passava horas olhando as plantas, lendo o livro e imaginando trajetos, onde colocar as juntas de dilatação, pontos de apoio, como fazer as terminações nos andares de equipamento. O tempo voava e avanços eram lentos, até que comecei a sonhar com o barramento: flutuando em torno dele, dentro de um túnel iluminado, eu via o barramento pronto.

Na primeira vez que o fenômeno aconteceu, tentei desenhar quando acordei na manhã seguinte, mas, não consegui lembrar de todos os detalhes. Assim, na noite seguinte, deixei papel, lápis e borracha na prancheta. Sonhei de novo e, dessa vez, tão logo o sonho terminou, acendi a luz da prancheta e desenhei em detalhes o trecho do barramento que enxerguei no sonho.

É claro que levei bronca do colega de quarto, recém formado em engenharia mecânica, que trabalhava para a Rede Ferroviária Federal: “Apaga a luz seu v.., eu preciso levantar cedo amanhã para ir trabalhar”.

Em 1967, eu morava no edifício Ambassador, rua Presidente Faria 121, apartamento 1302, a duas quadras do Edifício Barão do Rio Branco, onde funcionava a sede da Telepar. Na manhã seguinte, corri até a Telepar e entreguei o rascunho para o Chico, desenhista do EDC. Pedi para ele passar a limpo em papel vegetal e informei que voltaria à tarde para pegar.

Ele olhou o rascunho e perguntou de onde eu havia copiado. Respondi que tinha sonhado e ele riu, penasndo que era brincadeira minha. À tarde Galvão analisou o desenho, aprovou e mandou seguir adiante. Durante duas semanas, sonhei todas as noites. Os sonhos só cessaram quando o projeto ficou pronto.

Muitos anos depois, descobri que nosso cérebro reduz a frequência quando dormimos profundamente, chamam de frequência Alfa. Graças a esse fenômeno, elaborei desenhos em planta e cortes e detalhes do barramento e de suas peças e acessórios dentro do prazo estabelecido pelo meu coordenador de estágio.

Daí, nova surpresa: Galvão me pediu para administrar a montagem do barramento. Consegui a indicação de um excelente mecânico que trabalhava com montagens mecânicas de precisão, escolhi uma metalúrgica que fabricou as peças de aço de fixação e as ferragens para prender as peças de isolamento e as barras de alumínio. Curvas e juntas de dilatação foram fornecidas pela ALCAN.

O prédio já estava em construção e a construtora que havia vencido a concorrência se chamava Soteco, Sociedade Técnica de Engenharia e Comércio, do Rio de Janeiro. Quando a estrutura estava na sexta laje (quarto andar), as formas de madeira começaram a ser retiradase e os fiscais da obra descobriram que as colunas estavam com as armações de ferro à mostra, até a sétima laje. Os operários tinham usado elevador de carga e carrinhos de mão para levar o concreto até as formas, técnica compatível com pequenas obras, que usam betoneira. Os caminhões chegavam sete horas da manhã e o concreto era depositado em piscinas de madeira expostas ao sol. No início da tarde, começava a curar: para usar a massa, os operários tinham usado água, que não se misturava mais direito ao cimento.

Contrato foi rompido, a obra paralisada e engenheiros calculistas apresentaram duas alternativas: recomeçar a estrutura do zero ou aumentar as dimensões das colunas, simulando que elas não existiam: havia urgência e a segunda alternativa foi adotada.

Com exceção das paredes laterais externas, cujo concreto estava perfeito, todas as colunas, do subsolo até a sexta laje dobraram de tamanho: de 25 x 25 cm para 50 x 50 cm.

A vencedora da concorrência realizada para concluir a obra foi a Farid Surugi, de Curitiba, que usou concreto injetado sob alta pressão em um tubo de aço provido de mangueira flexível de 100 mm de diâmetro na extremidade, manobrada por guindaste. Utilizando aditivo de cura rápida, concretou uma laje por semana.

Assim, uma vez por semana, eu subia até o andar que estava emadeirado, para marcar os lugares exatos onde seriam cravados os parafusos de sustentação do barramento.

Uma vez concluída a obra do prédio, acompanhei a montagem do barramento até o final (em tempo parcial), pois me mandaram projetar outro barramento na estação de 20 mil linhas que a SESA estava instalando no segundo andar da Central Telefônica da Telepar, localizada na Travessa Jesuíno Marcondes. Desta vez usando cobre e sem sonhar.

No final de 68, comecei a estagiar em redes telefônicas, nos fundos da Central Jesuino, sob a orientação do engenheiro Luiz Henrique Silva Pinto.

O Palácio da Telecomunicações foi inaugurado no final de 1970. Na ocasião eu já era chefe de Setor de Projetos da Telepar, tinha feito curso de especialização em redes telefônicas na Suécia. Regressei a Curitiba a tempo de projetar a acompanhar a instalação do cabo telefônico tronco que interligou o Palácio das Telecominicações à Central Jesuíno Marcondes!

Já se passaram 58 anos e para mim é como se tivesse sido ontem!