Meu relacionamento com os responsáveis pela criação do CPqD começou em 1974, quando a instituição era ainda um sonho.
Na época, a Telebrás, recém fundada e ainda em formação, arregimentou e trouxe para Brasília engenheiros experientes, recrutados no Brasil e no exterior, constituindo um quadro técnico que viabilizou a implantação Sistema Telebrás que, em duas décadas, revolucionou as telecomunicações e colocou o Brasil no topo da tecnologia mundial.
Em 1974, o edifício sede da Telebrás (hoje ANATEL) não existia e a sede da empresa era em um edifício localizado no Setor Comercial Sul de Brasília.
Na época, a divisão de Engenharia de Redes Externas ocupava a sala vizinha da divisão de Tecnologia, voltada a atividades de ciência, desenvolvimento tecnológico e inovação, onde trabalhavam Hélio Graciosa, Cláudio Violato, Gil Popoire de Azevedo e outros. Foi ali que começou um relacionamento profissional e de amizade que dura até os dias de hoje.
Após a criação do CPqD, que ocorreu em 1976, o pessoal da divisão de tecnologia foi transferido para Campinas e ganhou uma sede provisória no edifício da Central de Trânsito da Embratel, no centro da cidade e o projeto de desenvolvimento de fibras ópticas, com o qual me envolvi desde o começo, foi quase que inteiramente desenvolvido em um barracão localizado no Bairro dos Amarais.
Minhas visitas ao barracão se deveram ao fato de minha divisão ser responsável pela emissão de normas e especificações relacionadas com projeto e instalação de cabos de rede, e estas incluíam cabos ópticos.
Neste ponto da história, é oportuno mencionar que quando me mudei para Brasília em 1974, eu já tinha dois filhos (Joaquim e Rodrigo) e minha esposa (Maria do Rocio) estava grávida do terceiro (Maurício) e que, em 1977, nasceu minha filha (Letícia).
Quase no final da década de 70, o governo brasileiro estreitou relações com países africanos, entre eles a Nigéria e, para contribuir na implementação dessa política, o Governo Federal passou a facilitar a participação de técnicos e engenheiros brasileiros. Assim, muitos empregados de estatais tiravam licenças de suas atividades e iam trabalhar temporariamente nesses países. No início de 1979, surgiu uma oportunidade na minha área de especialidade, que decidi aproveitar. Solicitei uma licença não remunerada de três meses. O objetivo era coordenar a elaboração do projeto de uma rede telefônica na cidade de Lagos, na Nigéria.
Mas, isso me obrigou a mudar para Curitiba, com esposa e quatro filhos.
As dificuldades em Lagos eram muito maiores das inicialmente prevista, de forma que precisei negociar uma extensão de mais três meses na minha licença
O projeto foi concluído em outubro, mas, de volta ao Brasil, me dei conta de outro problema: Meu filho mais velho perderia o ano escolar caso voltássemos para Brasília naquele momento. Assim, conversei com meu amigo Garbi, que conversou com o General Alencastro, que concordou em me emprestar para a Telepar. Mas, Garbi trouxe com ele um recado: “O General concordou com o empréstimo, mas, disse que se aparecer uma “missão” importante, ele chama você de volta”.
Durante dois anos, trabalhei para o Departamento de Planejamento da Telepar, onde desenvolvi métodos e procedimentos voltados à viabilização implantação de serviço telefônico em pequenas comunidades rurais e fazendas.
No decorrer do meu trabalho, fiquei sabendo, através de um colega alemão chamado Manfred Arno Böer, que o Deutch Bundespost estava usando cabos aéreos dotados de elementos de tração de enorme resistência, kevlar (também conhecido como aramida), que dispensavam o uso de cordoalhas de sustentação.
Entrei em contacto com Furukawa e Pirelli. Tradicionalmente cautelosa, a Furukawa pediu um ano para iniciar a produção. Mas, a Pirelli confirmou a possibilidade de entregar, em dois meses, um lote inicial, para um teste de campo.
A Telebrás, Telepar e Pirelli se uniram e foi emitida uma especificação do novo cabo, equipado com seis pares simétricos de cobre bitola 0,65 mm (22 AWG).
O teste de campo foi realizado no atendimento de uma escola rural às margens da BR 277, nas proximidades de São Miguel do Iguaçu, num bairro rural conhecido como Vila Bendo, onde também existiam uma igreja e um restaurante de beira de estrada.
Foi um grande sucesso: os instaladores lançaram 8 Km de cabo em um único dia de serviço e o pequeno comércio recebeu a missão de tomar conta de um telefone público e também a autorização para vender fichas.
O objetivo inicial era exatamente esse, mas, o novo cabo minimizou o custo de atendimento a fazendas de tal forma que, no primeiro ano, a Telepar instalou mais de 2 mil quilômetros do novo cabo, que passou a ser usado em todo o Brasil.
A essas alturas, eu pensava que continuaria trabalhando para a Telepar por muitos anos, mas, em meados de 1981, chegou ao conhecimento da diretoria da Telebrás que a NTT possuía um Centro dedicado a Estudos e Desenvolvimento de Redes.
Na época, as operadoras do mundo todo investiam praticamente 50% de seus recursos na expansão e manutenção de redes telefônicas e a diretoria da Telebrás decidiu copiar a iniciativa da NTT.
Em setembro daquele ano, recebi um telefonema do Raul Del Fiol, então Diretor de Operações da Telebrás, informando que eu havia sido designado para essa missão e me convocou para uma reunião urgente em Brasília.
Juntei vários argumentos para demonstrar o quanto eu estava sendo útil para a Telepar e indiquei nomes de engenheiros do sistema Telebrás capazes de liderar a implantação do novo centro, mas, a decisão do era irrevogável.
No mesmo dia, fui apresentado ao meu novo chefe: Jorge Marsiaj, Diretor de Tecnologia e Desenvolvimento da Telebrás, sediado em Campinas.
Em outubro de 1981, acompanhado por Marison Simões Cardoso, representando a Diretoria de Operações, visitei o Centro de Estudos e Desenvolvimento de Redes da NTT localizado em Tsukuba no Japão, com o qual a Telebrás havia estabelecido um acordo de cooperação.
Nos primeiros seis meses, compartilhei uma sala com advogado Francisco Elair de Morais e com o engenheiro Lenine Rocha, que atuavam como assessores do Diretor de Tecnologia. A sala ficava no primeiro andar do prédio 2.
Marsiaj me deu seis meses para elaborar o plano de trabalho que seria submetido à aprovação da Diretoria da Telebrás.
A tarefa mais fácil foi decidir onde seria instalado o Centro de Estudos de Redes, pois a Telebrás possuía um terreno de 200 mil metros quadrados ao lado do CPqD.
Para formular um plano bem objetivo, realizei reuniões com diretores e chefes de departamento das principais operadoras do Sistema Telebrás. Com base nas realimentações, elaborei a lista de projetos a serem desenvolvidos nos primeiros anos de atividades do novo Centro.
Para ganhar tempo, Jorge Marsiaj determinou que o terreno ao lado do CPqD fosse urbanizado: as atividades incluíram limpeza, abertura e pavimentação de ruas, instalação de postes de energia e iluminação, infraestrutura de água e esgoto e arborização. Neste último assunto, o arquiteto do CPqD, Rafael Girsas, optou pelo plantio de árvores frutíferas típicas da região.
O Departamento de obras do CPqD recebeu também a incumbência de elaborar o projeto do edifício sede do novo Centro.
Acompanhei com entusiasmo as atividades de urbanização do terreno, que incluíam instalações e edificações que seriam utilizadas em teste com cabos e equipamentos de redes de telecomunicações.
Mas, não via sentido nem bom-senso em duplicar serviços básicos disponíveis no CPqD, bem ao lado, como controle de acesso, segurança, transporte de empregados, telefonistas, correio, restaurante, banco, atendimento médico, assessoria jurídica, finanças e recursos humanos.
Assim, no final da apresentação que fiz à Diretoria, apresentei uma proposta alternativa: ao invés de um novo Centro, propus a criação de mais um departamento no CPqD, com metas e objetivos baseados no modelo japonês, que foi aprovado por unanimidade. Consequentemente, a construção do edifício sede foi cancelada.
Dentro do elenco do CPqD, a decisão causou um certo mal-estar, pois havia gente que achava que a existência de um departamento dedicado a estudos e soluções de problemas de redes colocaria em risco o prestígio que a instituição havia conquistado nos seus primeiros anos de existência.
Mas, como diziam os antigos romanos, alia jacta est.
Em julho de 1982, o CPqD passou a contar com um novo departamento: DER (Departamento de Estudo e Desenvolvimento de Redes).
Simbolicamente, a integração se deu com a retirada de um portão que, até aquele momento, separava os dois terrenos.
Enquanto o prédio que abrigaria a equipe do novo departamento era construído, trabalhei no prédio 11, onde funcionava o Departamento de Transmissão, chefiado pelo Hélio Graciosa.
Um grande problema que atingia o CPqD na ocasião, era a dificuldade na abertura de novas vagas de trabalho. Num primeiro momento, com apoio do Marsiaj, consegui seis vagas, que usei para pessoal novo, entre eles, Marco Paulo Gianetti e Juliano Castilho Dall Antonia, formados em engenharia pela Unicamp, que haviam estagiado no barracão de fibras ópticas. Fernando Miquelino e José Eduardo Azarite, engenheiros químicos também graduados pela Unicamp. Como secretária, Nádia Aparecida Nardesi, que trabalhava no escritório que o PNUD mantinha no CPqD e dominava perfeitamente a língua inglesa.
Em seguida, usei o recurso de transferências. Talvez poucos se lembrem, mas, o Ministério das Comunicações controlava quantidade de vagas da Telebrás. Para isso, se valia de um indicador: número de empregados / mil telefones em operação, critério que prejudicava o CPqD, mas, a Telebrás permitia transferências dentro do grupo. Me valendo desse recurso, consegui “importar” vários colaboradores, entre eles, José Henrique de Oliveira, Wagner, Moacir Rubin, Paulo Cesar (saudoso Chocô), Miele, Américo Simões e outros.
Em 1973 consegui algumas vagas e contratei Carlos Demantova e Hélio Sarmento, que tinham trabalhado comigo no EDR e haviam se transferido para a iniciativa privada.
Como havia pressa na construção da sede, Jorge Marsiaj aprovou a compra de uma edificação de madeira pré-fabricada, que foi entregue no prazo recorde de 3 meses. O prédio ficou muito bonito: com sua paredes externas envernizadas e suas portas e janelas brancas, ganhou o apelido de Casa de Chocolate.
A solução usando construção pré-fabricada deu tão certo que foi repetida nos blocos 2 e 3 do novo departamento, utilizados na condução dos projetos que foram sendo postos em andamento. A diferença, desta vez, é que foi utilizando concreto pré-moldado.
O bloco 2 (que foi sede da Padtec por décadas) era uma obra majestosa: mais de mil metros quadrados, pé direito de 10 metros, ponte rolante de vinte toneladas, dotado de duas dezenas de salas que passaram a ser usadas como laboratórios e salas de trabalho, distribuídas pelo térreo e mezanino
O bloco 3, equivalente a um container, era usado na realização de testes elétricos realizados em cabos e na certificação de dispositivos de proteção elétrica entregues ao CPqD ara testes de certificação.
Durante o ano de 1974, com os serviços crescendo rapidamente, a limitação de vagas de trabalho assumiu um nível insustentável.
Como dificuldade de contratação afetava o CPqD como um todo, a situação havia sido contornada através de um contrato assinado com a FUNCAMP, que atuava como locadora de mão-de-obra especializada.
Cheguei a fazer uso desse recurso: José Oswaldo Guimarães, por exemplo, prestou serviços para o Departamento de Redes através da FUNCAMP.
Mas, uma fonte de engenheiros com perfil profissional mais adequado às atividades do DER era o INATEL. Assim, marquei uma reunião com professor Navantino, diretor do INATEL. Conversamos, Navantino gostou da ideia e deixei com ele cópias do estatuto da FUNCAMP e do convênio com o CPqD. Em decorrência daquela reunião, nasceu a FINATEL.
Dezenas de engenheiros formados pelo INATEL passaram a prestar serviços para o CPqD e, com o tempo, foram sendo internados.
A história do convênio assinado com o BRITSH POST OFFICE
Não sei dizer com precisão, mas, em 1973 ou 1974, participei de um famoso evento de telecomunicações em Genebra. A missão era atender visitantes no stand do CPqD, mas, decidi assistir algumas palestras: selecionei uma, apresentada um pesquisador do Centro de Pesquisas de Telecomunicações do BPO de Ipswitch, Inglaterra. O título era: Pulling cables using the viscous drag of air.
O palestrante fez uma demonstração ao vivo, que muito me impressionou. Tratava-se de um método de instalação revolucionário na época, hoje largamente adotado no mundo, na instalação de redes internas de edifícios. Ao invés de eletroduto, um tubo transparente de pequeno diâmetro (8 mm). Ao invés de cabo, um tubete de 12 fibras ópticas. Ao invés de arame de puxamento, um compressor de ar.
O palestrante ligou a máquina e eu vi o tubete avançando suavemente por dentro do tubo, até sair na outra extremidade, dois ou três minutos depois.
Terminada a palestra, me apresentei ao palestrante que, por sua vez, me apresentou ao seu superior. Em menos de meia-hora, negociamos uma parceria: um estágio com duração de um ano para um engenheiro do meu departamento.
Dois meses depois, viajei para Ipswitch com o Juliano, que se especializou no assunto. Infelizmente, passados seis meses, Juliano precisou interromper o estágio devido a um acidente rodoviário que resultou no falecimento de um irmão. O CPqD se dispôs a enviar outro estagiário, mas, nesse interim aconteceu u´m imprevisto: O British Post Office foi privatizado e o convênio foi cancelado.
Mesmo encurtado, o estágio do Juliano deu fruto. Não aquele que eu esperava, que era a introdução da técnica de sopramento em redes ópticas dentro de edicícios, mas, no desenvolvimento de equipamento de sopramento de cabos ópticos em redes subterrâneas interurbanas.
Em 1985, em decorrência de alterações políticas ocorridas na esfera nacional, a Diretoria da Telebrás foi renovada e isto afetou também a organização do CPqD.
O novo diretor decidiu trocar a chefia do Departamento de Apoio Técnico (DAT), que passou a se chamar Departamento de Suporte Técnico (DST). E fui escolhido para ser o novo chefe, também sem a possibilidade de dizer não!
Mas, consegui indicar o meu sucessor na chefia do DER, engenheiro José Henrique de Oliveira.
Chefiei o DST até o final de 1988, ocasião em decidi me transferir para a iniciativa privada. Sai com a sensação de ter dado muito de mim e usufruído muito pouco do potencial de aprendizado e de conhecimento que esteve ao meu alcance.
Mas, tive uma segunda passagem pelo CPqD, desta vez muito produtiva e gratificante. Ao invés de comandar, participei de um desenvolvimento: Rede GIGA
Trabalhei no projeto durante quatro anos (dois em tempo integral e dois em tempo parcial). O coordenador do projeto era o Rege Romeu Scarabucci.
Além de participar da implantação, li, estudei, produzi relatórios, participei de encontros, convivi com pesquisadores e aprendi muito com eles! Foi um verdadeiro renascimento!
Os conhecimentos adquiridos durante minha vida profissional, somados ao que aprendi durante minha segunda passagem pelo CPqD tem sido muito úteis desde então: em 2008, comecei a prestar serviços de consultoria para a RNP, Rede Nacional de Ensino e Pesquisa e para outras instituições, não parei mais.
Caso pudesse, não pararia, jamais!










