TEORIA DAS  JANELAS QUEBRADAS

A teoria das janelas quebradas ou “broken windows theory” é um modelo que os norte-americanos criaram para enfrentar e combater o crime, classificando a desordem como fator que eleva os índices da criminalidade.

A teoria defendia que a falta de repressão de pequenos delitos produzia, inevitavelmente, condutas criminosas de maior gravidade.

Há cerca de 50 anos, pesquisadores da Universidade de Stanford realizaram uma interessante experiência no campo da psicologia social: abandonaram dois carros idênticos, da mesma marca, modelo e cor. Um foi deixado numa rua do Bronx, bairro pobre e conflituoso de Nova York e o outro numa rua da cidade de Palo Alto Califórnia, no Silicon Valey. E uma equipe formada por especialistas em psicologia social analisou e estudou a conduta das pessoas em cada local.

Poucas horas após ser abandonado, o carro do Bronx começou a ser vandalizado: rodas, espelhos e rádio  foram roubadas e depois o motor. Levaram embora tudo o que foi possível carregar e o que restou foi destruído. Enquanto isso, o carro abandonado em Palo Alto permaneceu intacto.

Essa foi apenas a primeira fase da pesquisa: os pesquisadores quebraram um dos vidros do automóvel de Palo Alto e isso desencadeou o mesmo processo que havia ocorrido no Bronx: roubo, violência e vandalismo reduziram o veículo a uma situação idêntica à que havia ocorrido no bairro pobre e violento de Nova York.

Por que um vidro quebrado numa viatura abandonada em um bairro de uma cidade rica e considerado seguro foi capaz de desencadear todo um processo delituoso? Evidentemente, teve a ver com psicologia humana e com relações sociais.

Um vidro quebrado num veículo ou numa casa, transmite uma ideia de deterioração, desinteresse e despreocupação, quebra códigos de convivência, faz as pessoas suporem que a lei se encontra  ausente e que não existem normas ou regras naquele lugar.

Um simples vidro quebrado provocou o “vale-tudo”: cada novo ataque depredador reafirmou essa ideia. A escalada de atos cada vez piores se tornou incontrolável e desembocou uma violência irracional.

Com base nessa, e em outras experiências análogas, foi desenvolvida a “Teoria das Janelas Quebradas“. A conclusão é que os delitos são maiores em zonas onde descuido, sujeira e desordem são maiores.

Quando, por alguma razão, o vidro da janela de um edifício desocupado quebra e não é reparado, logo todos os demais estarão quebrados. Da mesma forma, quando uma comunidade exibe sinais de deterioração e parece que ninguém se importa, esse fato gera delitos.

Origem da teoria das Vidraças Quebradas:

Essa teoria começou a ser desenvolvida em 1982, quando o cientista político James Q. Wilson e pelo psicólogo criminologista George Kelling publicaram um estudo na revista Atlantic Monthly, estabelecendo uma relação de causalidade entre desordem e criminalidade.

No estudo, os autores utilizaram a imagem das janelas quebradas para explicar como desordem e criminalidade se infiltram aos poucos numa comunidade, causando sua decadência e a consequente queda da qualidade de vida. O estudo realizado levou em consideração a experiência dos carros abandonados no Bronx e em Palo Alto.

Em suas conclusões, esses especialistas acreditam que, ampliando a análise situacional, se por exemplo uma janela de um imóvel fosse quebrada e não fosse consertada, quem por ali passasse iria concluir que ninguém se importava com a situação e que, naquele local não havia ninguém responsável por manter a ordem, começando naquele momento a deterioração do bairro todo.

Em decorrência do mau aspecto, pessoas de bem deixariam a comunidade, que ficaria à mercê de gatunos e desordeiros, pois apenas pessoas desocupadas ou imprudentes se sentiriam à vontade para residir em uma rua cuja decadência se torna evidente. Pequenas desordens, portanto, levam sempre a desordens maiores e ao crime.

Da mesma forma, os defensores da teoria concluíram que, quando são cometidas “pequenas faltas”, como estacionar em local proibido, exceder o limite de velocidade, “furar” sinal vermelho e não sofrer nenhuma consequência induzem o ofensor a cometar delitos mais graves.

Quando pais e responsáveis admitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, estas se ficam  mais violentas quando adultas.

A teoria das Janelas Quebradas definiu um novo marco no estudo da criminalidade ao apontar que a relação de causalidade entre a criminalidade e outros fatores sociais, tais como a pobreza ou a “segregação racial” é menos importante do que a relação entre a desordem e a criminalidade. Não seriam somente fatores ambientais (mesológicos) ou pessoais (biológicos) que teriam influência na formação da personalidade criminosa, contrariando os estudos da criminologia clássica.

Experiência no metrô de Nova York

Há 50 anos, a criminalidade em Nova York havia atingido níveis que preocupavam a população e as autoridades responsáveis pela segurança pública.

Por esse motivo, foi implementada uma política chamada Tolerância Zero, baseada na teoria das “Janelas Quebradas“.

As autoridades entenderam que parques e outros espaços públicos haviam se deteriorado por terem sido progressivamente abandonados pela administração pública e pela maioria dos moradores de bem e, em consequência, tinham sido ocupados por delinquentes.

Em meados da década de 80, a teoria das Janelas Quebradas começou a ser aplicada no metrô de Nova York, que se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade.

Começaram combatendo pequenas transgressões: lixo jogado no chão das estações, alcoolismo entre os passageiros, não pagamento de passagem, pequenos furtos e desordens. Os resultados foram rápidos e evidentes. Começando pelo pequeno, conseguiram fazer com que o metrô se tornasse um lugar seguro.

Em 1994, o  prefeito Rudolph Giuliani adotou a política de “tolerância zero” nas rua da cidade, com o objetivo de criar comunidades limpas e ordenadas. O resultado foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.

A política de “tolerância zero” corre o risco de se tornar uma medida autoritária, repressiva e opressora, caso seja aplicada de modo unilateral por alguma autoridade de plantão, mas, seus defensores afirmam que o conceito principal é a prevenção e a promoção de condições sociais de segurança.

Não se trata de linchar o delinquente, mas de impedir que este se envolva em processos criminais mais graves. O método preconiza que abusos de autoridade da polícia e de governantes também devem ser objeto de Tolerância Zero ela não pode, em absoluto, restringir-se à massa popular.

Não se trata de tolerância zero com relação aos que cometem pequenos delitos, mas tolerância zero em relação delitos. O objetivo é criar comunidades ordenadas, que respeitem as leis e os códigos básicos de convivência social humana.

A  Tolerância Zero e a  teoria das Janelas Quebradas, colocaram Nova York na lista das metrópoles mundiais mais seguras do mundo.

Caso essa teoria fosse adotada no Brasil (hoje assolado por casos de vandalismo, criminalidade, impunidade, amoralidade e corrupção), e desde que usada com equidade e equilíbrio, com certeza ajudaria a criar uma sociedade melhor e mais segura para todos.

COMO FUNCIONAVA A DIVISÃO DE ENGENHARIA DE REDES DA TELESP NOS ANOS 70

Esta foto, que meu colega e amigo dos tempos de Telesp Antônio José Alves Macedo, também conhecido como Ajam, me fez lembrar de detalhes que pouca gente conhece nos dias de hoje.

Antes do AutoCad e de outros recursos de desenho digitais, os projetos eram desenhados à mão, de forma que todos os escritórios de projeto precisavam dispor de  desenhistas bons, muito bem treinados, que usavam pranchetas.

Minha divisão na Telesp possuia três seções de projeto: Dutos, Redes externas e Redes Internas e os desenhos eram feitos em papel vegetal tamanhos A1 e A0 da ABNT e, na fase de projeto, os desenhistas usavam lapiseiras de grafite macio, pois os desenhos sofriam atualizações após a execução.

Com o auxílio de cópias heliográficas, atualizadas em campo, numa segunda fase, eram elaboradas as plantas de cadastro. Nesse trabalho, com ajuda de canetas, os desenhistas aplicavam tinta nanquim sobre os traços à lápis. Finalmente, os traços de lápis eram eliminados com um solvente especial que não afetava o papel vegetal.

Na época, a Telesp estava implantando o maior projeto de expansão do planeta: só na cidade de São Paulo: 500 cabos subterrâneos de assinantes (1.800 pares de cobre bitola 0,40 mm cada um), 200 cabos troncos (600 e 900 pares bitola 0,64 mm) e cerca de mil quilômetros de canalizações subterrâneas.

A Divisão de Projetos (contando engenheiros, projetistas e desenhistas) contava com 250 profissionais. Tinha gente que sentava em escrivaninha, mas a maioria usava pranchetas de grande porte.

Por esse motivo, o escritório era enorme: ocupava duas sobrelojas no edifício Copan, num total de 4 mil m2. Além das pranchetas, havia dezenas de arquivos de gavetas onde eram guardados os desenhos originais em papel vegetal (que não podiam ser dobrados).

Durante muito tempo, as cópias heliográficas eram feitas numa gráfica e o transporte envolvia o risco de molhar com chuva, as cópias demoravam para ser impressas e,  para complicar, voltavam enroladas (em várias vias) e os desenhistas gastavam um tempo enorme para dobrá-las.

Após muito esforço, consegui que a Telesp comprasse uma impressora de última geração que usava processo de revelação à seco: o vegetal entrava de um lado e as cópias saiam do outro, já dobradas.

Acabo de lembrar de outro detalhe: quando assumi o cargo, descobri que era costume antigo 4 pessoas assinarem as plantas: desenhista, chefe do setor, chefe da seção e o chefe da divisão (eu).

Havia 700 projetos em andamento, cada um com 40 pranchas em média, num total de 28 mil pranchas sendo desenhadas em 2 anos (480 dias úteis), ou seja, eu gastava 3 horas por dia só ara conferir e assinar plantas.

Assim, pouco tempo após assumir a gerência da Divisão de Projetos, rompi uma tradição de 50 anos, que causou polêmica entre os subordinados mais antigos: mandei tirar meu nome das plantas e, após essa decisão, passei a usar aquelas 3 horas em atividades de gerenciamento.          

TORRES DE RÁDIO NOS MORROS DO RIO DE JANEIRO

Anos 80 – existiam antenas que irradiavam 100 KW de potência.
A energia nas proximidade das antenas era tão forte, que os moradores usavam lâmpadas fluorescentes nas casas. Em decorrência de um fenômeno físico, memo queimadas, permaneciam acessas o tempo todo.
O campo magnético gerado pelos transmissores ionizava os gases existentes nos tubos e as lâmpadas nem precisavam ser compradas, pois eram descartadas quando os filamentos de acendimento queimavam.
O gás ionizado emitia luz ultravioleta, que produzia luz normal ao energizar um camada de fósforo branco depositada na parede interna do tubo.
Apesar de ondas de rádio não afetarem o DNA como ocorre com o raio X, exposição prolongada a potências altas causa problemas de saúde: uma febrícula que acaba danificando tecidos de órgãos internos. Por exemplo, acelera o desenvolvimento de catarata.
Pessoas que moravam perto de antenas de alta potência apresentavam dor de cabeça crônica, distúrbio de sono, fadiga extrema, alterações no sistema nervoso, tonturas e irritabilidade.
A OMS coloca ondas de rádio de alta potência no campo 2B de risco (carcinogênicos para humanos) e o risco aumenta com a proximidade da fonte e com o tempo de exposição.
Ainda existem muitas antenas instaladas nos morros do Rio de Janeiro, mas o cenário mudou bastante desde após a virada do milênio: são em menor número e suas potências são menores.
As antenas atuais costumam transmitir rádio FM e TV e estão instaladas em morros como Sumaré, Mendanha e Cantagalo. As potências diminuíram em decorrência do avanço da tecnologia, do surgimento de novos padrões de cobertura e de restrições ambientais.
Mendanha na Zona Oeste é hoje um importante ponto para TV digital e meteorologia, pois abriga um super radar da prefeitura.
Morros do Cantagalo, Viúva e Outeiro são usados por antenas que pertencem a emissoras FM. Níveis de potência são baixos, nada na faixa de 30 a 100 KW.
As notícias de acidentes limitam-se a danos causados por ventanias nos morros.

COMO FIBRAS ÓPTICAS CHEGARAM ATÉ O PoP DA RNP EM MACAPÁ

Antes atendido apenas via rádio, em março de 2015 a operadora CompuService ativou um circuito de 100 Mbps entre Belém e Macapá.

Com essa obra, todos os pontos de presença da RNP passaram a ser atendidos através de fibras ópticas, garantindo internet de qualidade para as instituições de ensino e pesquisa localizadas na região Norte do Brasil.

A nova conexão beneficiou a Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), a Universidade do Estado do Amapá (UEAP), o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

O Ponto de Presença da RNP no Amapá (PoP-AP) passou a contar 100 Mbps por fibra e 150 Mbps por rádio.

A obra foi um passo importante em direção à “gigatização” da rede Ipê, que passou a atender todos os estados da União com múltiplos gigabits.

As fibras estão dentro de um cabo OPGW do Linhão de Tucuruí, que tem 1.800 km de extensão e é responsável por levar energia elétrica da hidrelétrica desde Tucuruí até Macapá, via Manaus.

O cabo cruza o rio Amazonas em Jurapari (PA), sustentado por torres de 300 metros de altura.

PROJETANDO E CONSTRUINDO REDE TELEFÔNICA  EM ANTONINA

Cidade de Antonina PR

A foto acima é recente, mas, a cidade mudou muito pouco nos últimos 60 anos!

Em 1969, o município de Antonina tinha 17.000 habitantes e 12.000 moravam na sede.

A história que vou contar hoje, aconteceu em 1969, época em que a Telepar lançou planos de expansão de redes telefônicas em todo o Estado do Paraná. Na época, as pessoas interessadas em ter telefone precisavam adquirir um carnê, que era  pago em até 48 prestações. Em todo o Brasil o telefone era artigo de luxo. Seu preço  equivalia ao valor de um carro.

Vendedores viajavam para as cidades levando carnês, que continham, além das parcelas a serem pagas nas agências bancárias, 4 vias descartáveis, que eram entregues, já preenchidas, na sede da empresa. Cada via tinha um destino pré estabelecido: Financeiro, Lista Telefônica, coisas assim…

A 4ª. Via era encaminhada ao Departamento de Redes, e era utilizada nos levantamentos de projeto, por conter o nome e o endereço do novo assinante.

Fui designado para coordenar o projeto e a implantação da rede de Antonina, uma das primeiras que foram implantadas no estado. Nos anos seguintes, repeti a operação cerca de 80 vezes, mas, jamais vou esquecer a experiência de Antonina.

Quando chegamos na cidade, reparamos que as vias dos carnês informavam o nome dos assinantes, mas, nos endereços constavam apenas os nomes das ruas. Não havia números:  constava rua tal, s/n. Ou seja, descobrimos nenhuma casa de Antonina tinha número!

Contando com o motorista éramos quatro. Dividimos as vias em quatro maços, cada um pegou o seu e foi à luta. Bati palmas na porta da primeira casa da rua e uma senhora atendeu. Perguntei onde morava e senhor Antônio da Silva e, para minha surpresa, ela respondeu que não conhecia ninguém com aquele nome.

Contei do que se tratava e ela se interessou: acho que só pode ser o Tonico do Bar!  Ele mora numa casa azul do lado esquerdo da rua, no próximo quarteirão. Fui até a casa indicada e não deu outra, era o Antônio correto. Lembro de outro que se chamava Francisco, que era conhecido por Chico Batatinha.

Foi assim que descobri que em Antonina todo mundo tinha apelido! Foi muito divertido!

PROJETO REDE GIGA

Durante cinco anos, coordenei a implantação física do projeto GIGA, sistema de altíssima velocidade, composto por diversos anéis ópticos que somavam 200 quilômetros, interligados por um backbone óptico com 960 Km de extensão.

O projeto GIGA era uma parceria CPqD/RNP.

Atendia cerca de 50 instituições de ensino e pesquisa sediadas em Campinas, São Paulo, São José dos Campos, Cachoeira Paulista, Rio de Janeiro, Niterói e Petrópolis

ESTAGIANDO NA TELEPAR EM 1967

PROJETO E INSTALAÇÃO DO BARRAMENTO CC DO EDIFÍCIO SEDE DA TELEPAR

O edifício sede da Telepar foi construído num dos pontos mais altos da cidade porque, na época, a tecnologia de transmissão de longa distância utilizava rádioenlaces de micro-ondas e de UHF, cujas antenas precisavam ficar em pontos dominantes.

Por norma, as antenas são identificadas por sua localização geográfica e cota.

As antenas do Palácio das Telecomunicações receberam a denominação cota mil, número correspondente aos 900 metros de altitude do terreno somados aos 100 metros de altura do prédio.

Do 1º ao 7º andar, os pavimentos possuem pé direito de 5 metros e foram projetados para abrigar equipamentos de comutação e de informática.

Do 8º ao 17º andar, os pavimentos possuem pé direito de 3 metros e foram equipados com caixas no piso, para tomadas e fios de telefonia. Essa infraestrutura permitia alterações de leiaute nas paredes divisórias, conforme as necessidades de seus ocupantes, normalmente diretores, chefes de departamento e membros de suas equipes.

Do 18º e acima, o uso era compartilhado com a Embratel.   

Na época, equipamentos de comutação exigiam salas de 1.000 m² (20 m x 50 m) e necessitavam de alimentação elétrica em corrente contínua, 48 V. Os equipamentos de transmissão utilizavam o mesmo tipo de energia e ocupavam espaços menores,

A energia CC era acumulada em 24 células de 2V ligadas em série, que forneciam corrente de 1.000 Amperes. Fisicamente, cada célula de 2V era um reservatório de ácido sulfúrico diluído em água destilada com dimensões aproximadas de 50 x 50 x 120 cm. Por segurança, precisava haver um afastamento mínimo entre células e entre elas e outros objetos, ou paredes. As baterias exigiam também a existência de sistema de exaustão eficiente. Sob o ponto de vista arquitetônico, a existência de uma sala ao lado de uma sala de equipamentos representava um aumento de 5 metros na largura do prédio.

A foto acima mostra como o edifício é esbelto, muito diferente dos edifícios da época, que abrigavam centrasi telefônicas.

Para viabilizar a esbeltez do projeto arquitetônico concebido pelo arquiteto Lubomir Antônio Ficinski, engenheiros da Telepar e da Embratel concordaram com a construção de uma sala de baterias única no subsolo do edifício e essa decisão resultou na necessidade de uso de condutores de grande calibre para alimentar os andares onde seriam instalados os equipamentos.

Como entrei nessa história:

Quando comecei a estagiar na Telepar, a primeira demanda que recebi do engenheiro Galvão foi estudar e apontar eventuais falhas no projeto elétrico convencional do prédio sede.

Realizei o trabalho em dois dias. Galvão convocou uma reunião com a empresa que havia elaborado o projeto, apresentei  a relação de erros encontrados, os erros foram reconhecidos e corrigidos e a fatura relativa ao projeto elétrico foi liberada para pagamento.

Até aquele dia eu não sabia nada sobre o assunto da energia CC acima detalhado, muito menos que eu acabaria sendo envolvido no projeto e instalação do barramento que operou por muitos anos no Palácio das Telecomunicações.

O engenheiro Galvão, usou seu estilo direto de comunicação: “Calcule para mim a área em mm² que um condutor precisa ter para alimentar um local a 200 metros de distância com corrente de 1.000 Amperes e tensão 48 V CC, com queda de 0,5 V na extremidade”.   

A pergunta era simples. Bastava aplicar a lei de Ohm: V=R.I, ou seja, R = V/I

Em dez minutos, dei a resposta: o condutor precisará ter uma área de 6.880 mm².

Mas, Galvão replicou: “e se for de alumínio”?

A pergunta também foi fácil de responder, pois a resistividade do alumínio é 60% do cobre. Respondi: 11.280 mm²

Galvão disse: “providencie o projeto usando alumínio, mas, não quero cabo elétrico, quero que seja usado um barramento”.

Daí a coisa apertou do meu lado. Expliquei que saberia projetar só se fosse cabo e que barramento exigia conhecimentos mecânicos que eu não dominava. Que estava cursando mecânica básica naquele ano e que eu mal sabia diferenciar uma porca de um parafuso.

Ele passou a mão no telefone e ligou para um ex colega do ITA, que trabalhava na ALCAN, em São Paulo. Conversaram rapidamente e acabaram combinando que eu iria até São Paulo, para ter uma aula especial sobre barramentos de alumínio.

Depois de desligar o telefone, ele me falou: “o projeto é urgente. Você tem 30 dias para entregar os desenhos prontos”.

Às 11 da noite, eu estava num ônibus, viajando para São Paulo, onde cheguei às 7 da manhã.

A sede da ALCAN ficava na Avenida São João, esquina com Duque de Caxias. Havia um certo risco, mas, decidi caminhar. Da rodoviária velha até a ALCAN dava no máximo 1 Km e não compensava tentar pegar taxi e acabar arranjando encrenca com taxista, por ser trajeto muito curto.

Deu tudo certo. Às 8 da manhã, cheguei na portaria da ALCAN, onde o amigo do Galvão estava me esperando.

Subimos, ele me entregou um livro técnico todo em Inglês. Sentamos e ele foi percorrendo o livro. Acabou gastando o resto da manhã comigo.

No início da tarde, embarquei de volta para Curitiba.

Com o auxílio do livro, tomei conhecimento de exigências técnicas e de peças importantes que nem imaginava que existissem: curvas, juntas de dilatação, isoladores de passagem, peças de apoio que precisavam ser usadas em prumadas a cada 3 andares, necessidades de ventilação e outros detalhes.

Consegui cópias heliográficas de plantas de todos os andares do prédio e de desenhos contendo cortes e elevações. Dobrei e levei para minha república, onde havia uma prancheta no quarto.

Eu passava horas olhando as plantas, lendo o livro e imaginando como fazer, onde colocar as juntas de dilatação, os pontos de apoio, como fazer as terminações nos andares, mas, o tempo voava e avanços eram lentos.

Então, ocorreu um fenômeno: comecei a sonhar com o barramento. Nos sonhos, eu via o barramento pronto. Flutuava em torno dele, dentro de um túnel iluminado.

Na primeira vez que isso aconteceu, tentei desenhar assim que despertei,  mas, não consegui lembrar de detalhes importantes.

Na noite seguinte, deixei papel, lápis e borracha na prancheta. Dormi e sonhei de novo. Desta vez, assim que o sonho terminou, acendi a luz da prancheta e desenhei um trecho completo do barramento que vi no sonho.

É claro que levei bronca do colega de quarto, recém formado em engenharia mecânica, que trabalhava para a Rede Ferroviária Federal: “Apaga a luz seu v.., eu preciso levantar cedo amanhã para ir trabalhar”!

Em 1967, eu morava no edifício Ambassador, rua Presidente Faria 121, apartamento 1302, a duas quadras do Edifício Barão do Rio Branco, onde funcionava a sede da Telepar. Na manhã seguinte, bem cedo, corri até a Telepar e entreguei o rascunho para o Chico, desenhista do EDC. Pedi para ele passar a limpo em papel vegetal e informei que voltaria à tarde para pegar.

Ele olhou o rascunho e perguntou de onde eu havia copiado. Respondi que havia sonhado e ele achou que era brincadeira minha.

À tarde Galvão analisou o desenho, aprovou e mandou seguir adiante.

Durante duas semanas, sonhei todas as noites. Os sonhos só cessaram quando o projeto ficou pronto.

Muitos anos depois, descobri que nosso cérebro reduz a frequência quando dormimos profundamente, chamam de frequência Alfa. Graças a esse fenômeno, consegui elaborar plantas, cortes e detalhes das peças que foram usadas no barramento, dentro do prazo estabelecido pelo Galvão.

Daí, veio uma nova surpresa: Galvão me chamou e disse ter decidido que eu administraria a montagem do barramento.

Consegui a indicação de um excelente mecânico que trabalhava com montagens mecânicas de precisão, escolhi uma metalúrgica que fabricou as peças de aço de fixação e as ferragens para prender as peças de isolamento e as barras de alumínio. Curvas e juntas de dilatação foram fornecidas pela ALCAN.

O prédio já estava em construção e a construtora que havia vencido a concorrência se chamava Soteco, Sociedade Técnica de Engenharia e Comércio, do Rio de Janeiro.

Quando a estrutura já estava na sexta laje (quarto andar) e as formas de madeira começaram a ser retiradas, os fiscais da obra descobriram que as colunas estavam cheias de furos, com as armações de ferro à mostra, até a sétima laje.

Os operários tinham usado elevador de carga e carrinhos de mão para levar o concreto até as formas, técnica compatível com pequenas obras, que usam betoneira.

A Soteco estava comprando concreto pronto, que chegava em caminhões às sete horas da manhã e era depositado em piscinas de madeira expostas ao sol. No início da tarde, começava a curar e, para poder usar a massa, os operários tinham usado água.

O contrato foi rompido, a obra paralisada e os engenheiros calculistas apresentaram duas alternativas: recomeçar tudo do zero ou aumentar as dimensões das colunas, simulando que elas não existiam. Como o prédio seria usado por antenas da rota sul de micro-ondas da Embratel, e havia urgência, foi adotada a segunda alternativa.

Com exceção das paredes laterais externas, cujo concreto estava perfeito, todas as colunas, do subsolo até a sexta laje dobraram de tamanho: de 25 x 25 cm para 50 x 50 cm.

A vencedora da concorrência realizada para concluir a obra foi a Farid Surugi, de Curitiba, que usou concreto injetado sob alta pressão em um tubo de aço provido de mangueira flexível de 100 mm de diâmetro na extremidade, manobrada por guindaste.

Utilizando aditivo de cura rápida, terminou a obra no prazo que Telepar e Embratel precisavam: concretou uma laje por semana. Poço de elevação para cabos e outras infraestruturas ficavam do lado oeste do prédio.

Uma vez por semana, eu pegava o elevador de carga e ia até o andar que seria erguido e marcava, do lado externo da forma, os lugares exatos onde deveriam ser cravados os parafusos de sustentação do barramento.

Uma vez concluída a obra, acompanhei a montagem do barramento até o final, em tempo parcial, pois me mandaram projetar outro barramento (desta vez usando cobre e sem sonhar) na estação de 20 mil linhas que a SESA estava instalando no segundo andar da Central Telefônica da Telepar, localizada na Travessa Jesuíno Marcondes.

No final de 68, passei a estagiar em redes telefônicas, naquele endereço, sob a orientação do engenheiro Luiz Henrique Silva Pinto.

O Palácio da Telecomunicações foi inaugurado no final de 1970. Na ocasião eu já era chefe de Setor de Projetos da Telepar, tinha feito curso de especialização de três meses na Suécia e regressado a Curitiba a tempo de, entre outras coisas, projetar a acompanhar a instalação do cabo telefônico que ligou o prédio à rede!

Já se passaram 58 anos e para mim é como se tivesse sido ontem!

TRABALHANDO PARA A VÉSPER

Reference letter concerning Joaquim Fanton

Rio de Janeiro, May 9, 2001.


Mister Fanton worked for Vesper, under my responsability, from June 1999 to May 2001. As senior manager, he supervised a team of about twenty managers and non-managers responsible to design the transmission network and the outside plant local fiber network.

During this assignment, Mr. Fanton was responsible to interview and select the brazilian engineers, supervise their work, develop their training program and provide the required coaching. He was also responsible to deal with the brazilian authorities to get the rights to build the network and to coordinate the activities of the different suppliers.

At his arrival, Mr. Fanton was part of the team who built Vesper, before the Company started his operation. He was very dedicated and professional; he strongly contributed in the achievement of meeting Anatel committment to have Vesper in operation for January 2000.

All along his assignment, he acted as an excellent counsellor for me and the whole engineering team. He helped me to better understand the brazilian mentality and the way to gain efficiency in negociation with the authorities.

He is also a very fine negociator. He was regularly required by the sales people to help solving major issues in the process of acquiring right of ways to install the telecommunication equipment on private property.

In summary, Mr. Fanton, with his huge knowledge of telecommunication business and his numerous personal skills was an important asset for my team and for the whole Vesper Company.

I strongly recommend him as an excellent candidate to achieve a Senior Manager or even a Director position in a telecommunication enterprise.




Jean Provencher,
Director Network Design,
Vesper.
Tel: 1-418-622-6677
E-mail: jean.provencher2@sympatico.ca

MEU RELACIONAMENTO COM O CPqD

Meu relacionamento com os responsáveis pela criação do CPqD começou em 1974, quando a instituição era ainda um sonho.

Na época, a Telebrás, recém fundada e ainda em formação, arregimentou e trouxe para Brasília engenheiros experientes, recrutados no Brasil e no exterior, constituindo um quadro técnico que viabilizou a implantação Sistema Telebrás que, em duas décadas, revolucionou as telecomunicações e colocou o Brasil no topo da tecnologia mundial.

Em 1974, o edifício sede da Telebrás (hoje ANATEL) não existia e a sede da empresa era em um edifício localizado no Setor Comercial Sul de Brasília.

Na época, a divisão de Engenharia de Redes Externas ocupava a sala vizinha da divisão de Tecnologia, voltada a atividades de ciência, desenvolvimento tecnológico e inovação, onde trabalhavam Hélio Graciosa, Cláudio Violato, Gil Popoire de Azevedo  e outros. Foi ali que começou um relacionamento profissional e de amizade que dura até os dias de hoje.

Após a criação do CPqD, que ocorreu em 1976, o pessoal da divisão de tecnologia foi transferido para Campinas e ganhou uma sede provisória no edifício da Central de Trânsito da Embratel, no centro da cidade e o projeto de desenvolvimento de fibras ópticas, com o qual me envolvi desde o começo, foi quase que inteiramente desenvolvido em um barracão localizado no Bairro dos Amarais.

Minhas visitas ao barracão se deveram ao fato de minha divisão ser responsável pela emissão de normas e especificações relacionadas com projeto e instalação de cabos de rede, e estas incluíam cabos ópticos.

Neste ponto da história, é oportuno mencionar que quando me mudei para Brasília em 1974, eu já tinha dois filhos (Joaquim e Rodrigo) e minha esposa (Maria do Rocio) estava grávida do terceiro (Maurício) e que, em 1977, nasceu minha filha (Letícia).

Quase no final da década de 70, o governo brasileiro estreitou relações com países africanos, entre eles a Nigéria e, para contribuir na implementação dessa política, o Governo Federal passou a facilitar a participação de técnicos e engenheiros brasileiros. Assim, muitos empregados de estatais tiravam licenças de suas atividades e iam trabalhar temporariamente nesses países. No início de 1979, surgiu uma oportunidade na minha área de especialidade, que decidi aproveitar. Solicitei uma licença não remunerada de três meses. O objetivo era coordenar a elaboração do projeto de uma rede telefônica na cidade de Lagos, na Nigéria.

Mas, isso me obrigou a mudar para Curitiba, com esposa e quatro filhos.

As dificuldades em Lagos eram muito maiores das inicialmente previstas, de forma que precisei negociar uma extensão de mais três meses na minha licença

O projeto foi concluído em outubro, mas, de volta ao Brasil, me dei conta de outro problema: Meu filho mais velho perderia o ano escolar caso voltássemos para Brasília naquele momento. Assim, conversei com meu amigo Garbi, que conversou com o General Alencastro, que concordou em me emprestar para a Telepar. Mas, Garbi trouxe com ele um recado: “O General concordou com o empréstimo, mas, disse que se aparecer uma “missão” importante, você não pode dizer não”.

Durante dois anos, trabalhei para o Departamento de Planejamento da Telepar, onde desenvolvi métodos e procedimentos voltados à viabilização implantação de serviço telefônico em pequenas comunidades rurais e fazendas.

No decorrer do meu trabalho, fiquei sabendo, através de um colega alemão chamado Manfred Arno Böer, que o Deutch Bundespost estava usando cabos aéreos dotados de elementos de tração de enorme resistência, kevlar (também conhecido como aramida), que dispensavam o uso de cordoalhas de sustentação.

Entrei em contacto com Furukawa e Pirelli. Tradicionalmente cautelosa, a Furukawa pediu um ano para iniciar a produção. Mas, a Pirelli confirmou a possibilidade de entregar, em dois meses, um lote inicial, para um teste de campo.

A Telebrás, Telepar e Pirelli se uniram e foi emitida uma especificação do novo cabo, equipado com seis pares simétricos de cobre bitola 0,65 mm (22 AWG).

O teste de campo foi realizado no atendimento de uma escola rural às margens da BR 277, nas proximidades de São Miguel do Iguaçu, num bairro rural conhecido como Vila Bendo, onde também existiam uma igreja e um restaurante de beira de estrada.

Foi um grande sucesso: os instaladores lançaram 8 Km de cabo em um único dia de serviço e o pequeno comércio recebeu a missão de tomar conta de um telefone público e também a autorização para vender fichas.

O objetivo inicial era exatamente esse, mas, o novo cabo minimizou o custo de atendimento a fazendas de tal forma que, no primeiro ano, a Telepar instalou mais de 2 mil quilômetros do novo cabo, que passou a ser usado em todo o Brasil.

A essas alturas, eu pensava que continuaria trabalhando para a Telepar por muitos anos, mas, em meados de 1981, chegou ao conhecimento da diretoria da Telebrás que a NTT possuía um Centro dedicado a Estudos e Desenvolvimento de Redes.

Na época, as operadoras do mundo todo investiam praticamente 50% de seus recursos na expansão e manutenção de redes telefônicas e a diretoria da Telebrás decidiu copiar a iniciativa da NTT.

Em setembro daquele ano, recebi um telefonema do Raul Del Fiol, então Diretor de Operações da Telebrás, informando que eu havia sido designado para essa missão e me convocou para uma reunião urgente em Brasília.

Juntei vários argumentos para demonstrar o quanto eu estava sendo útil para a Telepar e indiquei nomes de engenheiros do sistema Telebrás capazes de liderar a implantação do novo centro, mas, a decisão do era irrevogável.

No mesmo dia, fui apresentado ao meu novo chefe: Jorge Marsiaj, Diretor de Tecnologia e Desenvolvimento da Telebrás, sediado em Campinas.

Em outubro de 1981, acompanhado por Marison Simões Cardoso, representando a Diretoria de Operações, visitei o Centro de Estudos e Desenvolvimento de Redes da NTT localizado em Tsukuba no Japão, com o qual a Telebrás havia estabelecido um acordo de cooperação.

Nos primeiros seis meses, compartilhei uma sala com advogado Francisco Elair de Morais e com o engenheiro Lenine Rocha, que atuavam como assessores do Diretor de Tecnologia. A sala ficava no primeiro andar do prédio 2.

Marsiaj me deu seis meses para elaborar o plano de trabalho que seria submetido à aprovação da Diretoria da Telebrás.

A tarefa mais fácil foi decidir onde seria instalado o Centro de Estudos de Redes, pois a Telebrás possuía um terreno de 200 mil metros quadrados ao lado do CPqD.

Para formular um plano bem objetivo, realizei reuniões com diretores e chefes de departamento das principais operadoras do Sistema Telebrás. Com base nas realimentações, elaborei a lista de projetos a serem desenvolvidos nos primeiros anos de atividades do novo Centro.

Para ganhar tempo, Jorge Marsiaj determinou que o terreno ao lado do CPqD fosse urbanizado: as atividades incluíram limpeza, abertura e pavimentação de ruas, instalação de postes de energia e iluminação, infraestrutura de água e esgoto e arborização. Neste último assunto, o arquiteto do CPqD, Rafael Girsas, optou pelo plantio de árvores frutíferas típicas da região.

O Departamento de obras do CPqD recebeu também a incumbência de elaborar o projeto do edifício sede do novo Centro.

Acompanhei com entusiasmo as atividades de urbanização do terreno, que incluíam instalações e edificações que seriam utilizadas em teste com cabos e equipamentos de redes de telecomunicações.

Mas, não via sentido nem bom-senso em duplicar serviços básicos disponíveis no CPqD, bem ao lado, como controle de acesso, segurança, transporte de empregados, telefonistas, correio, restaurante, banco, atendimento médico, assessoria jurídica, finanças e recursos humanos.

Assim, no final da apresentação que fiz à Diretoria, apresentei uma proposta alternativa: ao invés de um novo Centro, propus a criação de mais um departamento no CPqD, com metas e objetivos baseados no modelo japonês, que foi aprovado por unanimidade. Consequentemente, a construção do edifício sede foi cancelada.

Dentro do elenco do CPqD, a decisão causou um certo mal-estar, pois havia gente que achava que a existência de um departamento dedicado a estudos e soluções de problemas de redes colocaria em risco o prestígio que a instituição havia conquistado nos seus primeiros anos de existência.

Mas, como diziam os antigos romanos, alia jacta est.

Em julho de 1982, o CPqD passou a contar com um novo departamento: DER (Departamento de Estudo e Desenvolvimento de Redes).

Simbolicamente, a integração se deu com a retirada de um portão que, até aquele momento, separava os dois terrenos.

Enquanto o prédio que abrigaria a equipe do novo departamento era construído, trabalhei no prédio 11, onde funcionava o Departamento de Transmissão, chefiado pelo Hélio Graciosa.

Um grande problema que atingia o CPqD na ocasião, era a dificuldade na abertura de novas vagas de trabalho. Num primeiro momento, com apoio do Marsiaj, consegui seis vagas, que usei para pessoal novo,  entre eles, Marco Paulo Gianetti e Juliano Castilho Dall Antonia, formados em engenharia pela Unicamp, que haviam estagiado no barracão de fibras ópticas. Fernando Miquelino e José Eduardo Azarite, engenheiros químicos também graduados pela Unicamp. Como secretária, Nádia Aparecida Nardesi, que trabalhava no escritório que o PNUD mantinha no CPqD e dominava perfeitamente a língua inglesa.

Em seguida, usei o recurso de transferências. Talvez poucos se lembrem, mas, o Ministério das Comunicações controlava quantidade de vagas da Telebrás. Para isso, se valia de um indicador: número de empregados / mil telefones em operação, critério que prejudicava o CPqD, mas, a Telebrás permitia transferências dentro do grupo. Me valendo desse recurso, consegui “importar” vários colaboradores, entre eles, José Henrique de Oliveira, Elmiton José Alecar, Wagner, Moacir Rubin, Paulo Cesar (saudoso Chocô), Miele,  Américo Simões e outros.

Em 1983 consegui algumas vagas e contratei Carlos Demantova e Hélio Sarmento, que tinham trabalhado comigo no EDR e haviam se transferido para a iniciativa privada. E outros, como Fernando Fernandes, Max Ramos Lucas e Roberto Nascimento.

Como havia pressa na construção da sede, Jorge Marsiaj aprovou a compra de uma edificação de madeira pré-fabricada, que foi entregue no prazo recorde de 3 meses. O prédio ficou muito bonito: com sua paredes externas envernizadas e suas portas e janelas brancas, ganhou o apelido de Casa de Chocolate.

A solução usando construção pré-fabricada deu tão certo que foi repetida nos blocos 2 e 3 do novo departamento, utilizados na condução dos projetos que foram sendo postos em andamento. A diferença, desta vez, é que foi utilizando concreto pré-moldado.

O bloco 2 (que foi sede da Padtec por décadas) era uma obra majestosa: mais de mil metros quadrados, pé direito de 10 metros, ponte rolante de vinte toneladas, dotado de duas dezenas de salas que passaram a ser usadas como laboratórios e salas de trabalho, distribuídas pelo térreo e mezanino

O bloco 3, equivalente a um container, era usado na realização de testes elétricos realizados em cabos e na certificação de dispositivos de proteção elétrica entregues ao CPqD ara testes de certificação.

Durante o ano de 1984, com os serviços crescendo rapidamente, a limitação de vagas de trabalho assumiu um nível insustentável.

Como dificuldade de contratação afetava o CPqD como um todo, a situação havia sido contornada através de um contrato assinado com a FUNCAMP, que atuava como locadora de mão-de-obra especializada.

Cheguei a fazer uso desse recurso: José Oswaldo Guimarães, por exemplo, prestou serviços para o Departamento de Redes através da FUNCAMP.

Mas, uma fonte de engenheiros com perfil profissional mais adequado às atividades do DER era o INATEL. Assim, marquei uma reunião com professor Navantino, diretor do INATEL. Conversamos, Navantino gostou da ideia e deixei com ele cópias do estatuto da FUNCAMP e do convênio com o CPqD. Em decorrência daquela reunião, nasceu a FINATEL.

Dezenas de engenheiros formados pelo INATEL passaram a prestar serviços para o CPqD e, com o tempo, foram sendo internados.

A história do convênio assinado com o BRITSH POST OFFICE

Não sei dizer com precisão, mas, em 1983 ou 1984, participei de um famoso evento de telecomunicações em Genebra. A missão era atender visitantes no stand do CPqD, mas, decidi assistir algumas palestras: selecionei uma, apresentada um pesquisador do Centro de Pesquisas de Telecomunicações do BPO de Ipswitch, Inglaterra. O título era: Pulling cables using the viscous drag of air.

O palestrante fez uma demonstração ao vivo, que muito me impressionou. Tratava-se de um método de instalação revolucionário na época, hoje largamente adotado no mundo, na instalação de redes internas de edifícios. Ao invés de eletroduto, um tubo transparente de pequeno diâmetro (8 mm). Ao invés de cabo, um tubete de 12 fibras ópticas. Ao invés de arame de puxamento, um compressor de ar.

O palestrante ligou a máquina e eu vi o tubete avançando suavemente por dentro do tubo, até sair na outra extremidade, dois ou três minutos depois.

Terminada a palestra, me apresentei ao palestrante que, por sua vez, me apresentou ao seu superior. Em menos de meia-hora, negociamos uma parceria: um estágio com duração de um ano para um engenheiro do meu departamento.

Dois meses depois, viajei para Ipswitch com o Juliano, que se especializou no assunto. Infelizmente, passados seis meses, Juliano precisou interromper o estágio devido a um acidente rodoviário que resultou no falecimento de um irmão. O CPqD se dispôs a enviar outro estagiário, mas, nesse interim aconteceu um imprevisto: O British Post Office foi privatizado e o convênio foi cancelado.

Mesmo encurtado, o estágio do Juliano deu fruto. Não aquele que eu esperava, que era a introdução da técnica de sopramento em redes ópticas dentro de edicícios, mas, no desenvolvimento de equipamento de sopramento de cabos ópticos em redes subterrâneas interurbanas.  

Em 1985, em decorrência de alterações políticas ocorridas na esfera nacional, a Diretoria da Telebrás foi renovada e isto afetou também a organização do CPqD.

O novo diretor decidiu trocar a chefia do Departamento de Apoio Técnico (DAT), que passou a se chamar Departamento de Suporte Técnico (DST). E fui  escolhido para ser o novo chefe, também sem a possibilidade de dizer não!

Mas, consegui indicar o meu sucessor na chefia do DER, engenheiro José Henrique de Oliveira.

Chefiei o DST até o final de 1988, ocasião em decidi me transferir para a iniciativa privada. Sai com a sensação de ter dado muito de mim e usufruído muito pouco do potencial de aprendizado e de conhecimento que esteve ao meu alcance.

Mas, tive uma segunda passagem pelo CPqD, desta vez muito produtiva e gratificante. Em 2003, Ao invés de comandar, participei de um desenvolvimento: Rede GIGA

Trabalhei no projeto durante quatro anos (dois em tempo integral e dois em tempo parcial). O coordenador do projeto era o Rege Romeu Scarabucci.

Além de participar da implantação, li, estudei, produzi relatórios, participei de encontros, convivi com pesquisadores e aprendi muito com eles! Foi um verdadeiro renascimento!

Os conhecimentos adquiridos durante minha vida profissional, somados ao que aprendi durante minha segunda passagem pelo CPqD tem sido muito úteis desde então: em 2008, comecei a prestar serviços de consultoria para a RNP, Rede Nacional de Ensino e Pesquisa e para outras instituições, não parei mais.

Caso pudesse, não pararia, jamais!