Segundo o IBGE, o município de Goioerê possui hoje cerca de trinta mil habitantes. A cidade cresceu muito desde que estive lá. Eu tinha acabado de passar para o quinto ano de engenharia e era estagiário da Telepar.
Estava passando férias de janeiro na casa de meus pais em Botucatu, interior de São Paulo e resolvi comemorar o aniversário de minha então namorada Maria do Rocio, hoje minha esposa, em Curitiba.
Ela faz aniversário no dia 19 de janeiro. Naquele ano, caiu numa quinta-feira. Prevenido, cheguei em Curitiba na segunda-feira, dia 16 de janeiro, bem cedo. Mesmo de férias, resolvi dar uma passada na Telepar para rever os colegas. Mal sabia o que me esperava.
Os estagiários circulavam pelos departamentos e eu havia sido transferido recentemente para o EDI, Departamento de Infraestrutura, que funcionava numa sala que tinha uns 100 m² no “predinho”, apelido da edificação de dois pavimentos que ficava no fundo do terreno da Avenida Manoel Ribas 115, a poucos metros de onde estava sendo erguido o edifício sede da Telepar, carinhosamente chamado de “predião”.
O chefe do departamento era o engenheiro Manoel Rodrigues, proficional experiente, conhecido como Maneco Facão, apelido que ganhou nos tempos de faculdade.
Quando entrei, Maneco estava conversando com Mauro José Corbellini, engenheiro eletricista recém formado. Ele me deu boas vindas e, quando me dei conta, estava participando de uma reunião de trabalho, em pé mesmo. Fiquei sabendo que a Telepar ia inaugurar um Posto de Serviço em Goioerê e que a Copel estava se recusando a ligar a energia do predio, por conta de um problema técnico.
A inauguração estava marcada para acontecer justamente no dia 19 de janeiro, e seria seria oficializada através de um telefonema que o prefeito da cidade para o governador Paulo Pimentel. Também fiquei sabendo de um segundo problema: a torre de micro-ondas de Paranavaí estava pronta e seu aterramento precisava ser concluído com urgência.
Maneco falou: “quero que vocês resolvam os dois problemas, começando por Goioerê”.
Perguntei onde ficava ficava Goioerê e me contaram que seria um viagem de 490 Km: 240 Km em asfalto (entre Curitiba e Guarapuava) e 250 Km de estradas de terra, até Goioerê. Argumentei que estava de férias e que tinha vindo a Curitiba por conta do aniversário da minha namorada, mas não adiantou: Maneco decidiu, estava decidido!
Como a pintura do prédio precisava ser retocada e o quadro de distribuição elétrica do PS precisava ser concluído, viajariam conosco dois pintores e um eletricista. A partida aconteceu no dia seguinte. No horário combinado, fui até o ponto de ponto de encontro, onde estavam os pintores e o eletricista, mas, nada do Corbelini.
O transporte chegou. Era uma caminhonete Chevrolet C-1416 cabine dupla com a logomarca do governo Paulo Pimentel na porta: um Retângulo branco com cantos arredondados com um círculo verde no centro, onde se lia “Paraná, aqui se trabalha”, que havia sido apelidado de “pepinão”, com justa razão.
O motorista contou que, por conta de um imprevisto, Corbelline não viajaria conosco e que eu teria que me virar sozinho.
O primeiro trecho da viagem foi tranquilo. Chegamos em Guarapuava por volta do meio-dia, onde almoçamos. Depois do almoço, pegamos o trecho de terra, empedrado e cheio de buracos. A caminhonete não conseguia passar de 40 quilômetros por hora.
Faltando umas 3 horas para chegar em Goioerê, começou a chover forte e, quando isso acontecia, a ordem da polícia rodoviária era parar, para não “estragar” a estrada. Em consequência disso, dormimos na caminhonete e só chegamos no destino às onze da manhã de quarta-feira, faltando 48 horas para a inauguração. Pintores e técnico ficaram no prédio do PS e o motorista me levou até o escritório da Copel. O técnico que rejeitara o ramal de entrada estava em horário de almoço. Voltei no início do expediente da tarde.
Nesse interim, conversei com o eletricista que tinha instalado o ramal e ele me contou que a norma da Copel estabelecia que ramais de entrada precisavam usar cabos bitola #8 AWG* e que, mesmo sabendo disso, o engenheiro da Telepar tinha mandado ele instalar cabos bitola #6 AWG**.
Eu nunca havia ouvido falar dessa exigência. Nos meses anteriores, havia trabalhado na elaboração de projetos de barramentos DC e conferido o projeto das instalações elétricas do edifício sede que estava em obras naquele momento.
No início da tarde, argumentei com o técnico da Copel que cabos #6 AWG tinham capacidade de corrente maior e isto aumentava a segurança da instalação, mas, o técnico foi irredutível: “para mim, vale o que está escrito na norma”.
A quinhentos quilômetros de Curitiba, arrisquei meu pescoço e garanti a ele que trocaria os cabos. O técnico confirmou que aquele era o único empecilho e que ele energizaria o prédio a tempo da inauguração.
Corri até a oficina do eletricista e propuz a ele a troca dos fios #6 AWG por fios #8 AWG. E que ele ficaria com os fios mais grossos como pagamento do serviço. Para minha surpresa, ele aceitou minha proposta.
Na tarde daquele dia, e no dia seguinte, ajudei o técnico eletricista, meu companeiro de viagem, a instalar o quadro de distribuição e a testar o grupo motor-gerador do PS.
Na manhã do dia 19 de janeiro de 1968, o prefeito de Goioerê telefonou para o governador. O evento foi um sucesso. Umas cem pessoas que participaram da inauguração formaram uma fila enorme, pois todos queriam telefonar. Com isso, acabei não dando os parabéns para a minha namorada no dia do aniversário dela.
No dia 21, já em Paranavaí, escrevi uma carta me desculpando, que hoje leio e acho muito engraçada. Se alguém se der ao trabalho de verificar o dia da semana, vai descobrir que o dia 21 de janeiro de 1968 caiu num domingo (no começo da Telepar, quem viajava, trabalhava direto, pois o objetivo era fazer o que tinha que ser feito, o mais rápido possível.
No final da semana seguinte, após concluir o aterramento da torre de Paranavaí, de volta a Curitiba, escrevi um relatório de viagem, detalhando o que havia acontecido e ninguém me censurou por ter decidido trocar cabos já instalados por cabos mais finos.
Naquela viagem, aprendi que um bom profissional precisa estar sempre disponível, tomar decisões rápidas e ser flexível.
Aprendi também que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Isto valeu tanto para o Maneco Facão que decidiu que eu ia viajar, quanto para o técnico da Copel que exigiu a modificação.
A empresa era pequena, a história se alastrou e ganhei fama de “resolvedor” de problemas. Tinha apenas 22 anos e ainda faltava um ano para me formar.
Moral da história: a somatória de contribuições, mesmo pequenas, produz grandes resultados.
PARA MIM, O MAIOR PROBLEMA FOI CHEGAR EM GOIOERÊ!
(*) #8 AWG = 8,3 mm2 (**) # 6 AWG = 13,3 mm2
Carta histórica para minha namorada:












