PROJETANDO E CONSTRUINDO REDE TELEFÔNICA  EM ANTONINA

Cidade de Antonina PR

A foto acima é recente, mas, a cidade mudou muito pouco nos últimos 60 anos!

Em 1969, o município de Antonina tinha 17.000 habitantes e 12.000 moravam na sede.

A história que decidi contar aconteceu em 1969, quando a Telepar lançou planos de expansão de redes telefônicas em todo o Estado do Paraná. Na época, pessoas interessadas em ter telefone adquiriam carnês, que eram  pago em até 48 prestações. Em todo o Brasil o telefone era artigo de luxo, pois o preço  equivalia ao valor de um carro zero.

Vendedores iam até as cidades levando carnês que continham, além das parcelas a serem pagas nas agências bancárias, 4 vias descartáveis: essas vias eram entregues na sede da empresa e tinham destinos pré estabelecidos: Financeiro, Lista Telefônica, coisas assim. A 4ª via era do Departamento de Projeto de Redes: era utilizada nos projetos pois coninha o nome e o endereço do novo assinante.

No início de 1969, fui escolhido para coordenar o projeto e a implantação de redes telefônicas no interior do Paraná e Antonina foi a primeira. Nos anos seguintes, repeti a operação cerca de 80 vezes, mas, nunca esqueci a experiência de Antonina.

Ao chegar na cidade, reparamos que na 4ª via dos carnês não havia os números das casas. Constava rua tal, s/n. Ou seja, nenhuma casa de Antonina tinha número!

Incluindo o motorista éramos em quatro: fizemos 4 maços, cada um pegou o seu e foi à luta. Bati palmas na porta da primeira casa da rua e uma senhora atendeu. Perguntei onde morava e senhor Antônio da Silva e, para minha surpresa, ela respondeu que não conhecia ninguém com aquele nome.

Contei do que se tratava e ela logo se interessou: “acho que deve ser o Tonico do Bar”,  Ele mora no próximo quarteirão, numa casa azul do lado esquerdo. Fui até a casa indicada e era o Antônio correto. Tinha outro cidadão, chamado Francisco, conhecido por “Chico Batatinha”.

Foi assim que descobri que em Antonina, além das casas não terem número, ninguém era conhecido pelo nome: Todos tinham um apelido!

Foi muito divertido!

ESTAGIANDO NA TELEPAR EM 1967

PROJETO E INSTALAÇÃO DO BARRAMENTO CC DO EDIFÍCIO SEDE DA TELEPAR

A foto acima mostra como o edifício é esbelto, muito diferente dos edifícios que abrigavam centrais telefônicas na época.

O edifício foi construído num dos pontos mais altos da cidade porque a tecnologia de transmissão de longa distância utilizava rádioenlaces de micro-ondas e de UHF, cujas antenas precisavam ficar em pontos dominantes. Por norma, antenas são identificadas por sua localização geográfica e cota.

As antenas do Palácio das Telecomunicações receberam a denominação cota mil, número correspondente aos 900 metros de altitude do terreno somados aos 100 metros de altura do prédio.

Do 1º ao 7º andar, os pavimentos possuem pé direito de 5 metros e foram projetados para abrigar equipamentos de comutação e de informática.

Do 8º ao 17º andar, os pavimentos possuem pé direito de 3 metros e foram equipados com caixas no piso, para tomadas e fios de telefonia. Essa infraestrutura permitia alterações de leiaute nas paredes divisórias, conforme as necessidades de seus ocupantes, normalmente diretores, chefes de departamento e membros de suas equipes. Do 18º e acima, o uso era compartilhado com a Embratel.   

Os equipamentos de comutação exigiam salas de 1.000 m² (20 m x 50 m) e usavam alimentação elétrica em corrente contínua, 48 V. Os equipamentos de transmissão utilizavam o mesmo tipo de energia e ocupavam espaços menores,

A energia CC era acumulada em 24 células de 2V ligadas em série, que forneciam corrente de 1.000 Amperes. Fisicamente, cada célula de 2V era um reservatório de ácido sulfúrico diluído em água destilada com dimensões aproximadas de 50 x 50 x 120 cm. Por segurança, precisava haver um afastamento mínimo entre células e entre elas e outros objetos, ou paredes. As baterias exigiam também a existência de sistema de exaustão eficiente. Sob o ponto de vista arquitetônico, a existência de uma sala ao lado de uma sala de equipamentos representava um aumento de 5 metros na largura do prédio.

Para viabilizar a esbeltez do projeto arquitetônico concebido pelo arquiteto Lubomir Antônio Ficinski, engenheiros da Telepar e Embratel concordaram com a construção de uma sala de baterias comunitária no subsolo do edifício e essa decisão resultou na necessidade de uso de condutores de grande calibre para alimentar os andares onde seriam instalados os equipamentos.

Como entrei nessa história:

Quando comecei a estagiar na Telepar, a primeira demanda que recebi do engenheiro Galvão foi estudar e apontar eventuais falhas no projeto elétrico convencional do prédio sede. Realizei o trabalho em apenas dois dias.

Galvão convocou uma reunião com a empresa que havia elaborado o projeto, apresentei  a relação de erros encontrados, que foram reconhecidos e corrigidos e a fatura relativa ao projeto elétrico foi liberada para pagamento.

Até aquele dia eu não sabia nada sobre o assunto da energia CC acima detalhado, muito menos que eu acabaria sendo envolvido no projeto e instalação do barramento que operou por muitos anos no Palácio das Telecomunicações.

Galvão usou seu estilo direto de comunicação: “Calcule para mim a área que um condutor precisa ter para alimentar o equipamento de rádio que ficará no topo do prédio, Considere 200 metros de distância, corrente de 1.000 Amperes, tensão 48 V e queda de 0,5 V na extremidade”.   

A pergunta era simples. Bastava aplicar a lei de Ohm: V=R.I, ou seja, R = V/I. Em poucos minutos dei a resposta: o condutor precisa ter uma área de 6.880 mm².

Galvão replicou: “e se for de alumínio”? A pergunta também foi fácil de responder, pois a resistividade do alumínio é 60% do cobre: 11.280 mm²

Galvão disse: “providencie o projeto usando alumínio, mas, não quero cabo elétrico, quero que seja projetado um barramento”.

A coisa apertou do meu lado: expliquei que sabia projetar cabo e que barramento exigia conhecimentos mecânicos que eu não dominava, pois estava cursando mecânica básica naquele ano. Mal sabia diferenciar porca de parafuso.

Galvão passou a mão no telefone e ligou para um ex colega do ITA que trabalhava para a ALCAN em São Paulo. Conversaram e combinarm que eu iria a São Paulo, para ter uma aula especial sobre barramentos de alumínio.

Após desligar o telefone, fiquei sabendo que o projeto era muito urgente e que eu tinha um mês para entregar os desenhos detalhados.

Às 11 da noite, peguei um ônibus para São Paulo e às 7 da manhã já estava na rodoviária velha da cidade, localizadas na Avenida Duque de Caxias. A sede da ALCAN ficava esquina das Avenidas Duque de caxias e São João. Decidi caminhar, para evitar encrenca com taxista por conta de um trajeto de 900 metros.

Às 8 horas, cheguei na portaria da ALCAN, onde o amigo do Galvão me esperava. Subimos, ele me entregou um livro técnico todo em Inglês, foi folheando as páginas e comentando detalhes: Acabou gastando a manhã comigo. No início da tarde, embarquei de volta para Curitiba.

Com o auxílio do livro, tomei conhecimento de exigências técnicas e de peças importantes que nem imaginava que existissem: curvas, juntas de dilatação, isoladores de passagem, peças de apoio que precisavam ser usadas em prumadas a cada 3 andares, necessidades de ventilação e outros detalhes.

Obtive cópias das plantas de projeto de todos os andares do prédio, incluindo cortes e elevações, dobrei e levei para minha república, onde havia uma prancheta no quarto.

Eu passava horas olhando as plantas, lendo o livro e imaginando trajetos, onde colocar as juntas de dilatação, pontos de apoio, como fazer as terminações nos andares de equipamento. O tempo voava e avanços eram lentos, até que comecei a sonhar com o barramento: flutuando em torno dele, dentro de um túnel iluminado, eu via o barramento pronto.

Na primeira vez que o fenômeno aconteceu, tentei desenhar quando acordei na manhã seguinte, mas, não consegui lembrar de todos os detalhes. Assim, na noite seguinte, deixei papel, lápis e borracha na prancheta. Sonhei de novo e, dessa vez, tão logo o sonho terminou, acendi a luz da prancheta e desenhei em detalhes o trecho do barramento que enxerguei no sonho.

É claro que levei bronca do colega de quarto, recém formado em engenharia mecânica, que trabalhava para a Rede Ferroviária Federal: “Apaga a luz seu v.., eu preciso levantar cedo amanhã para ir trabalhar”.

Em 1967, eu morava no edifício Ambassador, rua Presidente Faria 121, apartamento 1302, a duas quadras do Edifício Barão do Rio Branco, onde funcionava a sede da Telepar. Na manhã seguinte, corri até a Telepar e entreguei o rascunho para o Chico, desenhista do EDC. Pedi para ele passar a limpo em papel vegetal e informei que voltaria à tarde para pegar.

Ele olhou o rascunho e perguntou de onde eu havia copiado. Respondi que tinha sonhado e ele riu, penasndo que era brincadeira minha. À tarde Galvão analisou o desenho, aprovou e mandou seguir adiante. Durante duas semanas, sonhei todas as noites. Os sonhos só cessaram quando o projeto ficou pronto.

Muitos anos depois, descobri que nosso cérebro reduz a frequência quando dormimos profundamente, chamam de frequência Alfa. Graças a esse fenômeno, elaborei desenhos em planta e cortes e detalhes do barramento e de suas peças e acessórios dentro do prazo estabelecido pelo meu coordenador de estágio.

Daí, nova surpresa: Galvão me pediu para administrar a montagem do barramento. Consegui a indicação de um excelente mecânico que trabalhava com montagens mecânicas de precisão, escolhi uma metalúrgica que fabricou as peças de aço de fixação e as ferragens para prender as peças de isolamento e as barras de alumínio. Curvas e juntas de dilatação foram fornecidas pela ALCAN.

O prédio já estava em construção e a construtora que havia vencido a concorrência se chamava Soteco, Sociedade Técnica de Engenharia e Comércio, do Rio de Janeiro. Quando a estrutura estava na sexta laje (quarto andar), as formas de madeira começaram a ser retiradase e os fiscais da obra descobriram que as colunas estavam com as armações de ferro à mostra, até a sétima laje. Os operários tinham usado elevador de carga e carrinhos de mão para levar o concreto até as formas, técnica compatível com pequenas obras, que usam betoneira. Os caminhões chegavam sete horas da manhã e o concreto era depositado em piscinas de madeira expostas ao sol. No início da tarde, começava a curar: para usar a massa, os operários tinham usado água, que não se misturava mais direito ao cimento.

Contrato foi rompido, a obra paralisada e engenheiros calculistas apresentaram duas alternativas: recomeçar a estrutura do zero ou aumentar as dimensões das colunas, simulando que elas não existiam: havia urgência e a segunda alternativa foi adotada.

Com exceção das paredes laterais externas, cujo concreto estava perfeito, todas as colunas, do subsolo até a sexta laje dobraram de tamanho: de 25 x 25 cm para 50 x 50 cm.

A vencedora da concorrência realizada para concluir a obra foi a Farid Surugi, de Curitiba, que usou concreto injetado sob alta pressão em um tubo de aço provido de mangueira flexível de 100 mm de diâmetro na extremidade, manobrada por guindaste. Utilizando aditivo de cura rápida, concretou uma laje por semana.

Assim, uma vez por semana, eu subia até o andar que estava emadeirado, para marcar os lugares exatos onde seriam cravados os parafusos de sustentação do barramento.

Uma vez concluída a obra do prédio, acompanhei a montagem do barramento até o final (em tempo parcial), pois me mandaram projetar outro barramento na estação de 20 mil linhas que a SESA estava instalando no segundo andar da Central Telefônica da Telepar, localizada na Travessa Jesuíno Marcondes. Desta vez usando cobre e sem sonhar.

No final de 68, comecei a estagiar em redes telefônicas, nos fundos da Central Jesuino, sob a orientação do engenheiro Luiz Henrique Silva Pinto.

O Palácio da Telecomunicações foi inaugurado no final de 1970. Na ocasião eu já era chefe de Setor de Projetos da Telepar, tinha feito curso de especialização em redes telefônicas na Suécia. Regressei a Curitiba a tempo de projetar a acompanhar a instalação do cabo telefônico tronco que interligou o Palácio das Telecominicações à Central Jesuíno Marcondes!

Já se passaram 58 anos e para mim é como se tivesse sido ontem!

ESTAGIANDO NA TELEPAR EM 1968

Segundo o IBGE, o município de Goioerê possui hoje cerca de trinta mil habitantes. A cidade cresceu muito desde que estive lá. Eu tinha acabado de passar para o quinto ano de engenharia e era estagiário da Telepar.

Estava passando férias de janeiro na casa de meus pais em Botucatu, interior de São Paulo e resolvi comemorar o aniversário de minha então namorada Maria do Rocio, hoje minha esposa, em Curitiba.

Ela faz aniversário no dia 19 de janeiro. Naquele ano, caiu numa quinta-feira. Prevenido, cheguei em Curitiba na segunda-feira, dia 16 de janeiro, bem cedo. Mesmo de férias, resolvi dar uma passada na Telepar para rever os colegas. Mal sabia o que me esperava.

Os estagiários fiziam rodízio pelos departamentos e eu tinha acabado de ser transferido para o EDI, Departamento de Infraestrutura, que funcionava numa sala que tinha uns 100 m² no “predinho”, apelido da edificação de dois pavimentos que ficava no fundo do terreno da Avenida Manoel Ribas 115, a poucos metros de onde estava sendo erguido o edifício sede da Telepar, carinhosamente chamado de “predião”.

O chefe do departamento era o engenheiro Manoel Rodrigues, proficional experiente, conhecido como Maneco Facão, apelido que ganhou nos tempos de faculdade.

Quando entrei, Maneco estava conversando com Mauro José Corbellini, engenheiro eletricista recém formado. Ele me deu boas vindas e, quando me dei conta, estava participando de uma reunião de trabalho, em pé mesmo. Fiquei sabendo que a Telepar ia inaugurar um Posto de Serviço em Goioerê e que a Copel estava se recusando a ligar a energia do predio, por conta de um problema técnico.

A inauguração estava marcada para acontecer justamente no dia 19 de janeiro, e seria seria oficializada através de um telefonema que o prefeito da cidade daria para o governador Paulo Pimentel. Também fiquei sabendo de um segundo problema: a torre de micro-ondas de Paranavaí estava pronta e seu aterramento precisava ser concluído com urgência. 

Maneco falou: “quero que vocês resolvam os dois problemas, começando por Goioerê”.

Perguntei onde ficava ficava Goioerê e fiquei sabendo que seria um viagem de 490 Km: 240 Km em asfalto (entre Curitiba e Guarapuava) e 250 Km de estradas de terra, até Goioerê. Argumentei que estava de férias e que tinha vindo a Curitiba por conta do aniversário da minha namorada, mas não adiantou: Maneco decidiu, estava decidido!

Como a pintura do prédio precisava ser retocada e o quadro de distribuição elétrica do PS precisava ser concluído, viajariam conosco dois pintores e um eletricista. A partida aconteceu no dia seguinte. No horário combinado, fui até o ponto de ponto de encontro, onde estavam os pintores e o eletricista, mas, nada do Corbelini.

O transporte chegou. Era uma caminhonete Chevrolet C-1416 cabine dupla com a logomarca do governo Paulo Pimentel na porta: um Retângulo branco com cantos arredondados com um círculo verde no centro, onde se lia “Paraná, aqui se trabalha”, que havia sido apelidado de “pepinão”, com justa razão. 

O motorista contou que, por conta de um imprevisto, Corbelline não viajaria conosco e que eu teria que me virar sozinho.

O primeiro trecho da viagem foi tranquilo. Chegamos em Guarapuava por volta do meio-dia, onde almoçamos. Depois do almoço, pegamos o trecho de terra, empedrado e cheio de buracos. A caminhonete não conseguia passar de 40 quilômetros por hora.

Faltando umas 3 horas para chegar em Goioerê, começou a chover forte e, quando isso acontecia, a ordem da polícia rodoviária era parar, para não “estragar” a estrada. Em consequência disso, dormimos na caminhonete e só chegamos no destino às onze da manhã de quarta-feira, faltando 48 horas para a inauguração. Pintores e técnico ficaram no prédio do PS e o motorista me levou até o escritório da Copel.  O técnico que rejeitara o ramal de entrada estava em horário de almoço. Voltei no início do expediente da tarde.

Nesse interim, conversei com o eletricista que tinha instalado o ramal e ele me contou que a norma da Copel estabelecia que ramais de entrada precisavam usar cabos bitola #8 AWG* e que, mesmo sabendo disso, o engenheiro da Telepar tinha mandado ele instalar cabos bitola #6 AWG**.

Eu nunca havia ouvido falar dessa exigência. Nos meses anteriores, havia trabalhado na elaboração de projetos de barramentos DC e conferido o projeto das instalações elétricas do edifício sede que estava em obras naquele momento.

No início da tarde, argumentei com o técnico da Copel que cabos #6 AWG tinham capacidade de corrente maior e isto aumentava a segurança da instalação, mas, o técnico foi irredutível: “para mim, vale o que está escrito na norma”.

A quinhentos quilômetros de Curitiba, arrisquei meu pescoço e garanti a ele que trocaria os cabos. O técnico confirmou que aquele era o único empecilho e que ele energizaria o prédio a tempo da inauguração.

Corri até a oficina do eletricista e propuz a ele a troca dos fios #6 AWG por fios #8 AWG. E que ele ficaria com os fios mais grossos como pagamento do serviço. Para minha surpresa, ele aceitou minha proposta.

Na tarde daquele dia, e no dia seguinte, ajudei o técnico eletricista, meu companeiro de viagem, a instalar o quadro de distribuição e a testar o grupo motor-gerador do PS.

Na manhã do dia 19 de janeiro de 1968, o prefeito de Goioerê telefonou para o governador. O evento foi um sucesso. Umas cem pessoas que participaram da inauguração formaram uma fila enorme, pois todos queriam telefonar. Com isso, acabei não dando os parabéns para a minha namorada no dia do aniversário dela.

No dia 21, já em Paranavaí, escrevi uma carta me desculpando, que hoje leio e acho muito engraçada. Se alguém se der ao trabalho de verificar o dia da semana, vai descobrir que o dia 21 de janeiro de 1968 caiu num domingo (no começo da Telepar, quem viajava, trabalhava direto, pois o objetivo era fazer o que tinha que ser feito, o mais rápido possível.

No final da semana seguinte, após concluir o aterramento da torre de Paranavaí, de volta a Curitiba, escrevi um relatório de viagem, detalhando o que havia acontecido e ninguém me censurou por ter decidido trocar cabos já instalados por cabos mais finos.

Naquela viagem, aprendi que um bom profissional precisa estar sempre disponível, tomar decisões rápidas e ser flexível.

Aprendi também que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Isto valeu tanto para o Maneco Facão que decidiu que eu ia viajar, quanto para o técnico da Copel que exigiu a modificação.

A empresa era pequena, a história se alastrou e ganhei fama de “resolvedor” de problemas. Tinha apenas 22 anos e ainda faltava um ano para me formar.

Moral da história: a somatória de contribuições, mesmo pequenas, produz grandes resultados.

PARA MIM, O MAIOR PROBLEMA FOI CHEGAR EM GOIOERÊ!

(*) #8 AWG = 8,3 mm2      (**) # 6 AWG = 13,3 mm2

Carta histórica para minha namorada:

DUTOS DE PVC

duto DM 6Assim que terminou a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi inundado com novas matérias primas. Apareceram borrachas sintéticas, polietileno, polipropileno, poliestireno, acetatos, acrilatos, vinil e vai por aí afora.

A presente história contempla apenas um entre milhares de casos onde novos materiais revolucionaram o mercado.

Refiro-me a dutos de PVC, que substituíram os tradicionais dutos de grês, usados no Brasil e no mundo desde a invenção do telefone por Graham Bell.

O desenho acima foi tirado da Prática Telebrás, 235-201-708, série rede, de outubro 1976. Na ocasião, dutos de grês continuavam em uso apenas em serviços de reparo de trechos existentes. Pode-se dizer que haviam entrado em processo de extinção.

Uma peça de 06 furos com um metro de comprimento pesava 60 Kg. Apenas para exemplificar, um quilômetro de canalização de seis furos requeria que uma carga de 60 toneladas fosse transportada para o local da obra, que poderia estar a centenas de quilômetros de distância.

O alinhamento entre peças era feito por dois pinos de aço introduzidos nos furos que aparecem no corte e a vala precisava ter no mínimo 50 cm de largura. Largura menor significava falta de espaço para o trabalho dos pedreiros. Sim, eram usados pedreiros no assentamento dos dutos. O fundo da vala recebia uma camada de argila que era previamente compactada e nivelada. Por ser frágil à compressão, todas as travessias e entradas de garagem eram “envelopadas” com concreto.

O peso da peça requeria que três homens fossem usados no assentamento. Antes do pedreiro fazer o “embolsamento” com massa de cimento, era necessário enrolar uma faixa de tecido de algodão no ponto de junção para evitar a penetração de cimento no duto.

Resumindo, embora uma manilha de grês fosse relativamente barata, sua utilização exigia muito gasto em a transporte e o método de construção era caro e complicado, tornando o preço do quilômetro construído bem alto!

Quando comecei a trabalhar na Telepar, a empresa costumava usar dutos de grês de 4 furos em suas canalizações subterrâneas. A maioria das cidades que estavam sob minha responsabilidade eram pequenas e não exigiam a construção de linhas de dutos. Apenas alguns laterais curtos. Mas, herdei também algumas cidades grandes, cujas redes exigiam canalizações subterrâneas. Entre elas estava Cascavel, uma das primeiras que projetei e construí. O projeto previa a construção de apenas 1.400 metros de dutos de grês de 04 furos, chamados DM-4.

Seguiu para lá nosso melhor e único empreiteiro de dutos, Lourival Frelik. Foram enviados para Cascavel seis caminhões com dutos DM-4. É importante lembrar que Guarapuava fica a 450 Km de Curitiba. Na ocasião, o trecho entre Guarapuava e Cascavel, com 220 Km, ainda era de terra.

Passadas umas três semanas, o Lourival ligou pedindo mais dutos DM-4. Providenciamos uma carga adicional de 10 toneladas, um caminhão com 250 peças. Na semana seguinte novo telefonema, pois continuava faltando manilhas. Desta vez, quisemos saber o que estava acontecendo. “Tem muito buraco no trecho entre Guarapuava e Cascavel. Quase todas as manilhas estão chegando quebradas”, explicou Lourival.

Em resumo, Compramos e mandamos para Cascavel 2 mil dutos DM-4, e aplicamos mil e quatrocentos. Seiscentas unidades quebraram no transporte. O custo da obra praticamente dobrou!

Fiquei sabendo que uma companhia telefônica que operava na região do ABC paulista tinha começado a usar dutos de PVC. Tratei de acionar os meus contatos e consegui uma visita.

Descobri que uma barra de 6 metros de PVC equivalia a um DM-6 ou a 1,5 DM-4, com um décimo do peso. O preço do quilo de resinas plásticas na época era muito mais caro do que nos dias de hoje, mas as vantagens eram muitas.

Por exemplo, um trecho de 120 metros de canalização DM exigia 120 embolsamentos feitos dentro da vala. Os mesmos 120 metros realizados com PVC exigiam apenas 24 conexões, feitas com cola e fora da vala, pois só depois de emendados, os dutos eram colocados na vala, que podiam ser mais estreitas. Bastavam 40 centímetros, o que representava 20% de economia nos custos de escavação, fechamento e repavimentação.

De volta a Curitiba, lembrei que um colega meu de curso, que havia se formado engenheiro civil, estava trabalhando na Tigre. Combinamos realizar uma construção experimental com a participação daquele fabricante. A Tigre possuía uma frota de caminhões para transportar seus produtos.

Para minimizar custo com transporte, a parede dos dutos teve sua espessura diminuída. Também decidimos usar dutos com 100 mm e com 75 mm. Dutos de 100 mm para receber cabos com capacidade acima de 600 pares. Dutos de 75 mm para cabos abaixo de 600 pares. Estimávamos que as quantidades em metros se dividiriam mais ou menos ao meio, o que se confirmou na prática.

Como o volume máximo de carga sempre era atingido antes do limite de peso, A Tigre carregava primeiro os dutos de 100 mm. Os dutos de 75 mm viajavam dentro dos dutos de 100 mm. Na maioria das obras de canalização subterrânea implantadas no interior, um único caminhão passou a transportar todos os dutos necessários.

Para evitar que a pequena espessura resultasse em amassamentos durante a compactação, decidimos tamponar as pontas dos dutos e pressurizá-los durante a obra. A construção experimental foi implantada em Pato Branco e correu tudo tão bem que a Telepar tratou de padronizar de dutos de PVC em todas as suas canalizações subterrâneas. Com o tempo, o preço do PVC baixou e a espessura dos tubos foi aumentada até  um valor entendido como sendo de segurança e acabou a necessidade de pressurizar durante a obra.

O uso de dutos de grês ficou restrito serviços de reparo de linhas existentes. É claro que tivemos que enfrentar alguns problemas criados pelos fabricantes de dutos DM. Mas, esta é outra história.

Já faz pelo menos duas décadas que dutos de PVC não são mais usados em canalizações de telecomunicações. De lá para cá tem sido usados dutos de polietileno e de polipropileno. Eles possuem a vantagem de ser flexíveis. Eles são entregues em bobinas com centenas de metros. Ninguém mais fala mais em “barras” de dutos.

Há dutos lisos e corrugados. Dutos singelos e múltiplos. Para facilitar a identificação, os tubos são numerados ou coloridos. A única desvantagem que o polietileno e o polipropileno apresentam com relação ao PVC está no fato de não poderem ser colados: Exigem conexões mecânicas que muitos empreiteiros insistem em não usar.

No exato momento, está chegando uma nova família de dutos no Brasil. Tratam-se de micro dutos, com diâmetros entre 04 mm e 15 mm, destinados a receber micro cabos ópticos. Micro cabos não podem ser tracionados. Precisam ser lançados por sopramento. Esta técnica será coberta em outra oportunidade!