ÚLTIMO VOO COARI – MANAUS

Decolando de CoariEm meados de julho, o Ministério das Comunicações determinou que fosse realizada a inspeção final da rede da Cidade Digital de Coari Amazonas e a viagem foi combinada com a empresa integradora para acontecer na semana de 15 a 19 de agosto.

Descobri que viajar para cidades do interior da amazônia exige um certo grau de logística. Não se trata de algo trivial. O estado é imenso, coberto de florestas e recortado de rios. E as distâncias entre as cidades são sempre grandes. O município de Coari, por exemplo, é maior do que o estado da Paraíba.

Como todos sabem, o meio de transporte mais usado na região amazônica é o fluvial. Existem diversos tipos de barcos fazendo a rota Manaus-Coari. A duração da viagem, dependendo da embarcação escolhida, varia de oito horas até vários dias. Os barcos mais lentos podem viajar à noite e, por isto, partem em horários que permitem aos passageiros chegarem ao destino de manhã cedo. A viagem nesses barcos é mais barata, mas, para sentar, deitar e dormir, cada passageiro leva e instala sua própria rede. Esses barcos dispõem de cabines, mas, ocupar uma delas faz com que o preço da passagem iguale o das lanchas mais rápidas 

Por motivo de segurança, os barcos que fazem o percurso em oito horas não viajam à noite. Partem de Manaus bem cedo e chegam a Coari na metade da tarde. Isto significa perder um dia de trabalho na ida e outro na volta.

Contrariando minha vontade inicial de fazer uso de transporte fluvial para conhecer de perto o rio Solimões, o bom senso determinou que eu optasse por avião. Antes do final de julho, pesquisando voos entre Manaus e Coari na Internet, encontrei voos bate-e-volta nas segundas e sextas-feiras, oferecidos por uma empresa sediada em Manaus chamada MAP.

Decidi ir no dia 15 e voltar no dia 19. Porém, duas semanas depois, no momento em que as passagens iam ser adquiridas, os voos nas datas escolhidas tinham desaparecido. Como havia voos nos dias 08 e 12 de agosto, a viagem foi antecipada de uma semana.

O avião que operava na rota era um ATR-42. Aeronave bastante confortável. Depois de uma hora de voo muito tranquilo, cheguei ao destino.

Na sexta-feira, voltei ao Aeroporto Municipal Danilson Aires para pegar o voo de volta a Manaus. Momentos antes da partida, um funcionário da empresa pediu a atenção dos passageiros que aguardavam na sala de embarque. Agradeceu a todos por terem escolhido a MAP e comunicou que aquele seria o último voo da empresa entre Manaus e Coari. Diante da reação de protesto de alguns clientes, acrescentou que a empresa estava vendo com empresas parceiras o que poderia ser feito para voltar a oferecer viagens aéreas entre Manaus e Coari.

Ficou claro que o número de passageiros não está sendo suficiente para manter a linha em operação. Pude observar, na ida e na volta, que metade dos assentos estavam vazios. Nos quatro dias que passei em Coari, tive a oportunidade de conversar com o pessoal do hotel e de restaurantes onde fiz as refeições. Todos reclamaram de queda no movimento e disseram que o número de pessoas que visitam a cidade diminuiu muito nos dois últimos anos.

Para os que não sabem, a economia de Coari depende fortemente da Petrobrás. Desde os anos oitenta, a empresa explora petróleo e gás na região. Os cortes nos contratos da Petrobrás estão atingindo também as empresas prestadoras de serviços que atuam em Urucu e afetando a vida de todos na cidade.

No voo de volta a Manaus havia um comissário e uma comissária dando atendimento aos passageiros. O comissário de bordo era um cine-maníaco.  Durante os sessenta minutos que durou a viagem, comentou uns dez filmes com a colega. Como a cabine é pequena, os passageiros viajaram escutando as histórias. Título, resumo de cada filme, atores, atrizes, diretores, produtores e roteiristas.

Em momento algum, demonstrou qualquer sentimento por estar voando pela última vez entre Coari e Manaus, nem pareceu minimamente preocupado com o seu emprego que está certamente em risco.

As resenhas de filmes que ouvi me fizeram traçar um paralelo com a cena final do filme Casablanca, quando o velho bimotor DC-3 decolou pela última vez daquela cidade, levando Lisa Lund (Ingrid Bergman) e deixando para trás Rick Blaine (Humphrey Bogart).

Em Casablanca, e em todo o norte da África, a vida parou por cinco anos e só voltou ao normal quando a guerra terminou.

Como não estamos em guerra, espero que a crise em Coari dure muito menos!

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