Quando viajamos, ficamos encantados com o cenário à nossa volta e, muitas vezes, deixamos de prestar atenção em detalhes importantes.
A história que relato abaixo, aconteceu há mais de 50 anos e o que fiz deveria ser repetido por todos os profissionais que viajam ao exterior em em missões de trabalho custeadas com dinheiro público, principalmente.
Na década de 70, as empresas o Sistema Telebrás estava em franca expansão e instalava milhares de quilômetros de cabos telefônicos com condutores de cobre todo mês.
Como Brasil não possuia jazidas de cobre, centenas de toneladas desse metal começaram as ser importadas do Chile todos os anos e o Governo Federal começou a se preocupar com o consequente desequilíbrio que isso estava causando na balança comercial entre os dois países.
Como o Brasil possuia gigantescas reservas de bauxita, nossas autoridades começaram a estudar a possibilidade da Telebrás usar cabos telefônicos com condutores de alumínio. Pesquisaram e descobriram de Japão e Austrália possiam redes experimentais que usavam cabos de alumínio.
Por este motivo, em agosto de 1975, fui enviado ao Japão e Austrália para visitar as redes e obter informações sobre problemas de inslalação, operação e manutenção.
Eu poderia ter focado unicamente no objeto da missão, entretanto, optei por observar todas as novidades existentes no segmento de minha responsabilidade, que ia de blocos terminais nos distribuidores gerais das estações telefônicas aos aparelhos telefônicos.
Chamou minha atenção a enorme quantidade de fios e cabos aéreos e a altura dos postes utilizados no Japão.
Caminhando pelas ruas das cidades japonesas, notei que os cabos eram presos aos postes por um tipo de braçadeira que eu desconhecia: cintas de aço zincado, dotadas de orifícios oblongos, como a da foto acima.
No Brasil, eram usadas braçadeiras compostas de duas peças rígidas idênticas. Havia braçadeiras circulares e braçadeiras quadrados. Como a altura de fixação variava muito, havia vinte tamanhos de braçadeiras de cada tipo!
Logo que me formei, gerenciei construção de dezenas de redes telefônicas no interior do Paraná e sabia muito bem como era difícil e caro trabalhar com braçadeiras. Dependendo do tamanho da rede, elas enchiam um caminhão e, como não sabíamos as quantidades de cada tamanhos que seria usdao, o dimensionamento era feito na base de estimativas. E é claro que sempre faltavam braçadeira de determinado tamanho e sobravam braçadeiras de outro tamanho.
Quando sobrava braçadeira de tamanho grande, a gente improvisava e usava um calço de madeira. Quando faltavam braçadeiras de determinado tamnaho, o jeito era “fabricar” algumas numa serralheria, usando chapa comum e depois pintar. As cidades ficavam a centensas de quilômetros de distância de Curitiba e, para complicar, as estradas do interior eram de terra.
Por este motivo, pedi um desenho daquela braçadeira e a NTT forneceu. Quando retornei a Brasília, João Kitahara, engenheiro da turma de 64 do ITA, que sabia ler e escrever em japonês, traduziu o que estava escrito nos desenhos e descobrimos que eram recomendações técnicas muito simples. Diziam , por exemplo, “aço de boa qualidade”.
Tivemos que recorrer a especialistas para definir tipo de aço, têmpera e espessura de zincagem. A peça tinha apenas quatro tamanhos e se adaptava a postes circulares e quadrados. Chamamos de BAP-1, BAP-2, BAP-3 e BAP-4.
Em resumo, as braçadeiras japonesas, que nada tinham ver com cabos de alumínio, reduziam de 40 para 4 a quantidade de tamanhos das braçadeiras utilizados no sistema Telebrás. Mandei imprimir algumas cópias do desenho e coloquei na minha gaveta.
Na época, era comum os chefes de divisões receberem visitas de empresários interressados em saber se havia a necessidade de novos produtos. E eu sempre oferecia a BAP. Fiz isso, sem sucesso, durante 4 anos! Mostrava o desenho e insistia que se tratava de um ovo de Colombo.
Ninguém queria fabricar, todos achavamque se tratava de um produto muito simples e barato. Estavam atrás de produtos mais sofisticados.
No início de 1979, fui coordenar um projeto de redes na Nigéria e distribui minhas obrigações profissionais eentre membrso de minha equipe. Um deles ficou com os desenhos da BAP. Em junho, ele telefonou e contou que tinham surgido dois interessados na BAP.
Eram dois velhos conhecidos meus, Adolfo Soares e Rodolfo Rocha, que vendiam conectores para a AMP, uma multinacional americana. Os dois tinha aranjadoo um sócio capitalista que poossuia uma fábria de escapamentos em Limeira, que dominava a técnica de estampagem progressiva, necessária para produzir a BAP..
Rapidamente, iniciaram a produção. A empresa recebeu o nome de Redex e cresceu rapidamente. A alavanca inicial foi BAP, mas, o sucesso mesmo se deveu ao fato dos dois serem pessoas vocacionadas, que souberam estabelecer um portfólio de produtos que foi se adequando às necessidades do mercado ao longo dos anos.
No início de 1980, Rodolfo me ligou. O pretexto era o de agradecer a oportunidade que eu havia dado a eles. Mas, de fato, queria mesmo era relatar um detalhe que o incomodava: em tom envergonhado, me pediu desculpas por ter solicitado patente da BAP ao IPI em nome dele!
Respondi que ele não tinha do que se desculpar, pois eu nãohavia inventado a BAP. Aliás, eu acho, até hoje, que a própria NTT nunca solicitou patente do produto.
De minha parte, a viagem que fiz ao Japão foi muito bem sucedida, pois acabou resolvendo um problema que existia há décadas, apesar de nunca ter sido sequer notado.
Meio século depois, olhando para qualquer poste de qualquer cidade do Brasil, enxergo diversas BAPs. Num deles, cheguei a contar 37! O tempo passou, o produto entrou em domínio público e existem hoje dezenas de fabricantes de BAPs espalhados pelo Brasil.
Quando a segunda guerra mundial terminou, o Japão estava arrasado e precisou recomeçar do zero. Para andar mais rápido, decidiram copiar: carros, navios, brinquedos, relógios, etc. No começo, os produtos não prestavam, mas, melhoraram rapidamente, ficaram ótimos e passaram a ser copiados.
Lavoisier descobriu que na natureza nada se perde, tudo se transforma. Os japoneses descobriram que essa lei não se aplica apenas à natureza.
Esta é a lição que devemos seguir se quisermos que o Brasil vá para a frente!