A HISTÓRIA DA BAP

BAPQuando em viagem, ficamos tão encantados com a paisagem e com o cenário à nossa volta, que acabamos deixando de prestar a devida atenção detalhes importantes. A história que passo a relatar, aconteceu há mais de quarenta anos e não teve a merecida divulgação.

O que fiz deveria ser seguido por parte de profissionais que partem para o exterior em missões custeadas com dinheiro público.

Em agosto de 1975, viajei para Japão e Austrália. A missão visava colher subsídios para a introdução de cabos telefônicos com condutores de alumínio no Brasil. Assunto de alta relevância econômica e de grande visibilidade

Poderia ter focado unicamente o objeto da missão. Entretanto, fui olhando e comentando com o colega que viajou comigo todas as novidades encontradas no segmento de nossa responsabilidade, que ia desde os blocos de terminação de pares no distribuidor geral das estações até os aparelhos telefônicos nas casas dos assinantes e respectivas fiações.

Chamou nossa atenção a enorme quantidade de fios e cabos que as posteações suportavam e a altura dos postes. Tiramos muitas fotos para documentar o que víamos. Nada comparado ao que hoje se faz usando um simples smartfone.

Foi então que reparei que os postes do Japão eram equipados com um tipo de braçadeira que eu nunca tinha visto antes. Cintas flexíveis de aço zincado, dotadas de orifícios oblongos, como a que aparece na foto.

As braçadeiras usadas no Brasil eram rígidas. A gente dizia “par de braçadeiras”. Havia pares de braçadeiras para postes circulares e para postes quadrados. Como a altura de fixação variava muito, havia mais de vinte tamanhos de braçadeiras para cada tipo de poste!

Eu havia gerenciado a construção de dezenas de redes no Paraná e sabia muito bem como era difícil e caro transportar para o interior uma carga de braçadeiras. Dependendo do tamanho da rede, elas enchiam um caminhão. Nunca sabíamos as quantidades e os tamanhos que seriam necessários. Era tudo na base da estimativa. Quase sempre faltava determinado tamanho ou tipo de braçadeira. Quando sobrava braçadeira de tamanho grande, a gente improvisava com um calço. Quando sobrava braçadeira pequena, o jeito era pedir mais e esperar chegar, improvisar com arame, ou mandar “fabricar” as que estavam faltando numa serralheria, usando chapa comum,  sem zincagem. O problema de pedir um complemento de remessa se agravava em caso de redes pequenas. Uma vez concluída uma rede, a equipe se transferia para outra cidade e era difícil retornar.

Solicitei as especificações e o desenho da braçadeira e a NTT gentilmente me atendeu. Prossegui a viagem com uma cópia heliográfica contendo o desenho mecânico e um montão de escritos, que eu imaginava serem a especificação.

Ao retornar a Brasília, um colega da divisão de transmissão, que sabia ler e escrever em japonês, fez a tradução. Descobrimos que eram recomendações técnicas simples. O documento especificava, por exemplo, “aço de boa qualidade”. Tivemos que recorrer a nossos especialistas para definir tipo de aço, têmpera e espessura de zincagem. A peça tinha apenas quatro tamanhos e se adaptava a postes circulares e quadrados. Chamamos de BAP-1, BAP-2, BAP-3 e BAP-4. A novidade reduzia as braçadeiras a um único tipo e de quarenta para apenas quatro tamanhos. Uma vez especificado e desenhado o produto, mandei imprimir algumas cópias, que coloquei na minha gaveta.

Naquele tempo, a Telebrás ainda não possuía as diretorias de operações e de assuntos industriais. Estava tudo sob a diretoria técnica. Empresários interessados em investir no segmento, vinham com frequência a Brasília para obter informações sobre o volume de mercado, projeções de crescimento, tamanho da concorrência e possibilidades de crescimento para determinados produtos.

Entre outubro de 1975 e fevereiro de 1979, atendi a dezenas de empresários. A todos, fiz apologia sobre BAP. Mostrava o desenho e especificações e insistia que se tratava de um ovo de Colombo. Ninguém queria fabricar. Achavam o produto muito simples, barato e fácil de copiar. Queriam produtos mais sofisticados.

No início de 1979, pedi licença da Telebrás, para trabalhar na África. Tratei de passar minhas pendências pessoais para outros membros da equipe. Um de meus subordinados herdou a BAP. Lá pelo mês de junho, ele me ligou todo feliz para contar que tinha aparecido gente interessada na BAP. Eram dois velhos conhecidos nossos que vendiam conectores para uma multinacional americana. Tinham decidido criar o próprio negócio e haviam arranjado um sócio que entendia de estampagem progressiva. Foi uma questão de semanas para desenvolver as ferramentas e iniciar a produção. A empresa cresceu muito e rapidamente. Em grande parte porque os donos eram pessoas vocacionadas, que souberam estabelecer um portfólio de produtos adequado ao mercado, mas, o carro chefe que permitiu uma partida segura foi a BAP.

No início de 1980 um deles ligou. Inicialmente me agradeceu. Mas, desejava mesmo me falar sobre um detalhe do negócio que o estava incomodando. Em tom envergonhado, confessou: “Fanton me desculpe, sei que o desenho é seu, mas, para garantir mercado, solicitei patente do produto em meu nome e o INPI concedeu”.

“Não tem de que se desculpar, a propriedade industrial não é minha, nem da Telebrás, nem da NTT”.

Foi uma iniciativa acertada e de grande impacto para o país. Hoje, quando olho para qualquer poste, de qualquer cidade onde vá, vejo nele umas dez BAPs e há dezenas de fabricantes deste tipo de braçadeira espalhados pelo Brasil.

Quando a guerra terminou, o Japão estava arrasado e não tinha ficado pedra sobre pedra. Precisaram recomeçar do zero. Para andar mais rápido, começaram a copiar. De carros a navios, de brinquedos a relógios. No começo, os produtos não prestavam. Com o tempo, foram melhorando. Ficaram ótimos e hoje são copiados.

Lavoisier descobriu que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Os japoneses nos ensinaram que nada se cria, tudo se copia. Esta é a lição que devemos seguir se quisermos que o Brasil vá para a frente!

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