Hotel Kaanayra

HotelInspecionar e aceitar três redes ópticas em cidades afastadas entre si por centenas de quilômetros não é tarefa trivial. É preciso racionalizar o uso do tempo e compartilhar tarefas para dar conta de tudo. As estradas no interior do Piauí são boas, mas, passam dentro de inúmeras povoações. Na proximidade de qualquer uma delas, há sempre intenso trânsito de motocicletas, que requer extremo cuidado. Para variar, existem muitas lombadas. Muitas mesmo! Daquelas que exigem que você realmente pare. Ao todo, rodamos mil e setecentos quilômetros.

Como as duas primeiras cidades não tinham hotel, tivemos que nos hospedar em localidades vizinhas. No caso de São José do Divino, o hotel mais próximo ficava em Piracuruca, a 30 quilômetros de distância. Em Inhuma, o hotel menos longe ficava em Picos. Setenta quilômetros de estradas vicinais. Uma hora para ir e uma hora para voltar.

Mas Regeneração, terceira e última cidade digital a ser inspecionada tinha hotel!

No dia 19 de junho tomamos café da manhã em Picos e às nove horas já estávamos na estrada. Uma uma bela manhã de domingo. Percorremos quase trezentos quilômetros de estradas vicinais até alcançar o destino. Chegamos por volta de 13 horas.

O estabelecimento estava aberto, mas, salvo um hóspede que que tinha ficado com as chaves de dois quartos, não havia mais ninguém no hotel.

Os dois quartos enquadravam-se na categoria “quarto com ar”, o primeiro da lista exposta na entrada. R$ 40,00, com direito ao café da manhã. Entrei  e descobri que o quarto tinha banheiro privativo.

Havia reparado que o preço do banho avulso era o mais barato da tabela, R$ 4,00 e logo descobri a razão. O hotel não dispõe de chuveiro elétrico nem sistema de aquecimento. O gasto com o banho é apenas com água. A rigor, água quente numa latitude como aquela é absolutamente dispensável. Além do calor que faz, o reservatório fica em cima do telhado e a água sai quentinha do chuveiro, mesmo de manhã bem cedo.

Quando o casal de proprietários chegou no começo da noite, aproveitei para pedir alguns implementos, pois o meu quarto estava parecendo mais a cela de São Francisco. Tinha uma cama, uma TV, o parelho de ar condicionado e só. Pedi uma mesinha lateral, uma cadeira, um cordão de extensão e uma derivação T.

A senhora ficou curiosa por eu estar querendo tanta coisa: “Mesa de cabeceira para colocar os óculos e o computador, cadeira para sentar e trabalhar, cordão de extensão para alcançar o laptop e derivação T porque a única tomada do quarto já estava ocupada com a TV”, expliquei.

Em cinco minutos, estava tudo lá, serviço de primeira. Na manhã seguinte, antes das sete, fui até o local do café e conheci o proprietário, que estava saindo para comprar pão e leite. Aproveitei e fui com ele, estiquei as pernas e ficamos amigos.

Pensei que iríamos bater bons papos, mas, ao voltar no final da tarde, a senhora me contou que o marido passara mal na hora do almoço. Tinha começado a embaralhar as palavras e o braço tinha ficado dormente. Uma das filhas foi chamada e levou o pai o hospital.

Mas, a senhora tinha também outra preocupação. O genro, que estava retornando de São Paulo com o carro abarrotado de utensílios e ferramentas, tinha parado de dar notícias horas atrás, pouco depois de entrar na Bahia. O drama durou até as oito da noite, quando o rapaz finalmente chegou. Explicou que havia acabado a bateria do celular. Simples assim.

Na terça-feira cedo tornei a perguntar pelo marido, que continuava no hospital. No começo da noite cruzei novamente com a senhora e tornei a perguntar do marido. Comentei que estava curioso pelo fato dela não estar indo visitar o marido no hospital. Ela então me contou que o hospital onde ele estava internado ficava em Teresina.

Como alguém que cobra R$ 40,00 de diária com café da manhã, ou R$ 4,00 por um banho avulso, pode pagar internação, ecografias e tomografias?

Acabei me lembrando dos meus tempos de infância. A cidade onde cresci tinha um posto de saúde que só servia mesmo para aplicação de vacinas. O médico local, Dr. Wilson, só tinha recursos para tratar de doenças simples, como gripe, sarampo e catapora. Meus pais costumavam comentar que um irmãozinho mais velho do que eu tinha morrido de crupe e “tosse comprida”. E eles não eram nenhuma exceção. Não tinha uma única família na cidade que não tivesse perdido uma criança. O cemitério tinha até uma quadra com lotes reservados para “anjinhos”, com era costume falar. Naqueles tempos, quando alguém se sentia mal e a doença tinha jeito de ser grave, tratava de pegar o trem para São Paulo. Uma viagem de oito a dez horas. Na maioria das vezes, voltava num caixão.

Esta viagem foi um mergulho no passado. Descobri que a população de muitas cidades do interior do nordeste vive hoje exatamente como a população do interior de São Paulo vivia nos anos cinquenta.

Nossos governantes precisam criar vergonha e parar de brigar por poder e dinheiro! Precisam mesmo é se aliar e implantar serviços de saúde minimamente decentes. A estas alturas, nem importa que sejam parecidos com os que hoje  temos no sul e no sudeste, dos quais, com justa razão, tanto reclamamos!

 

 

 

 

PEQUENA CONTRIBUIÇÃO, GRANDE RESULTADO

Carta 30 07 2016Segundo o IBGE, o município de Goioerê possui hoje cerca de trinta mil habitantes. A cidade cresceu muito desde que estive lá. Eu tinha acabado de passar para o quinto ano de engenharia e era estagiário da Telepar.

Estava passando férias de final de ano com meus pais no interior de São Paulo e resolvi comemorar o aniversário de minha namorada, hoje minha esposa, em Curitiba.

O aniversário dela seria numa sexta-feira. Prevenido, cheguei em Curitiba na segunda-feira. Na terça cedo resolvi dar uma passada na Telepar para rever os colegas e saber das novidades. Mal sabia o que me esperava.

O departamento onde eu fazia estágio ficava no “predinho”, apelido que haviam dado para uma edificação de dois pavimentos que ficava no fundo do terreno da Avenida Manoel Ribas 115, onde estava sendo construído o edifício sede da Telepar, o “predião”.

A sala ficava no térreo. Tinha uns 100 m2 e abrigava o departamento de engenharia civil da empresa. O chefe se chamava Manoel Rodrigues, um engenheiro civil muito experiente. Era conhecido na empresa como Maneco Facão, apelido vinha desde os tempos de faculdade.

Assim que cheguei, ele festejou. Acenou para um veterano meu que acabara de se formar em engenharia elétrica e fez ali mesmo uma reunião. Contou que o PS de Goioerê tinha data de inauguração marcada e que a Copel não estava querendo ligar a energia do prédio. O ponto alto da cerimônia de inauguração seria um telefonema que o prefeito da cidade daria para o governador Paulo Pimentel. Além do problema de Goioerê, a torre de micro-ondas de Paranavaí ainda não tinha sido aterrada e isto precisava ser feito com a maior urgência. “Tem muita coisa para ser feita e quero que os dois vão juntos nessa viagem para resolver os dois problemas. Comecem por Goioerê que é mais urgente, depois resolvam Paranavaí”.

Eu não fazia a mínima ideia de onde ficava Goioerê. Fiquei sabendo que teríamos que ir por Guarapuava. 240 quilômetros de estrada asfaltada de Curitiba até aquela cidade e outros 250 quilômetros de terra até Goioerê, passando por Pitanga e Campo Mourão. Tentei explicar que estava de férias e que só voltara a Curitiba para passar o aniversário de minha namorada com ela. Mas, não adiantou. Maneco havia decidido e não tinha conversa!

Descobri que iriam conosco dois pintores e um eletrotécnico. Faltavam acabamentos de pintura e o quadro de distribuição precisava ser terminado.  Teríamos que partir na manhã seguinte bem cedo.

Sem ter como escapar, fui até o apartamento da namorada tratar de me justificar. Quem conhece a minha esposa sabe que não foi uma conversa fácil.

Na manhã seguinte, no horário combinado, me dirigi até o ponto de encontro combinado. Estavam lá o eletrotécnico e os dois pintores com escada e latas de tinta.

Nosso transporte chegou. Uma caminhonete Chevrolet C-1416 cabine dupla novinha. Tinha a logomarca do governo Paulo Pimentel na porta: Retângulo branco de cantos arredondados com um círculo verde no centro. O dístico era: “Paraná, aqui se trabalha”. O logo tinha sido apelidado, com justa razão, de “pepinão”. O motorista desceu e contou que meu veterano não estava mais indo, que tinha surgido um imprevisto e que era para eu me virar sozinho. Na hora me senti um verdadeiro trouxa.

Mas, não havia outra coisa a fazer senão seguir viagem. Almoçamos em Guarapuava e logo depois entramos no trecho de terra. Estrada ruim e cheia de buracos. A caminhonete não conseguia passar de 60 quilômetros por hora. Tudo correu bem até Pitanga. Faltavam umas três horas para chegar ao destino quando começou a chover forte. Quando isto acontecia, a ordem da polícia rodoviária, abrangendo caminhões e caminhonetes, era parar onde estivessem, para não “estragar” a estrada.

Para resumir a história, chegamos em Goioerê às onze da manhã do dia seguinte, faltando menos de 48 horas para a inauguração. Pintores, técnico, escadas e latas de tinta ficaram no prédio do PS e o motorista me levou até o escritório da Copel.  Perguntei pelo técnico que rejeitara nosso ramal de entrada e ele estava em horário de almoço. Voltei no começo da tarde.

Fiquei sabendo da existência de uma norma da Copel estabelecendo limites para diâmetros de condutores de ramais em entradas em prédios: Nenhum cabo poderia ter condutor com bitola superior a #8 AWG* e ramal instalado pela Telepar usava cabos # 6 AWG**.

Eu não conhecia a norma. Nos meses anteriores, meu trabalho se resumira à elaboração de dois projetos de barramentos DC e ao acompanhamento das instalações elétricas do edifício sede, que estava em construção.

Tentei argumentar que os cabos tinham capacidade de corrente superior e que isto contribuía a favor da segurança elétrica. Mas, para o técnico valia o que estava escrito na norma. A quinhentos quilômetros de distância de Curitiba e sem ter a quem recorrer, mesmo sem saber como isto poderia ser feito, garanti que a instalação seria ajustada à norma.

Perguntei se o empecilho era só aquele, ou se tinha mais alguma pendência: “É só isto”, respondeu o homem. Perguntei quanto tempo ia levar para providenciarem a ligação: “Assim que você confirmar a correção, a energia será ligada”.

Na mesma hora, fui atrás do eletricista que tinha instalado o ramal de entrada. “Eu bem que avisei, mas, o engenheiro de vocês não quis me ouvir”, disse o homem. Como eu só tinha dinheiro para hotel e alimentação, propus que a ele que fizesse a instalação usando condutores bitola #8 AWG e ficasse com os cabos mais grossos como pagamento.

Para minha surpresa, talvez até porque precisasse muito do PS, o eletricista aceitou minha proposta. A negociação toda durou talvez cinco minutos. Assim, sobrou tempo para ajudar o eletrotécnico que veio comigo de Curitiba a instalar o quadro de distribuição e a realizar testes de partida do grupo motor gerador do prédio.

A energia foi ligada a tempo da cerimônia, que aconteceu em 19 de janeiro de 1968, sexta-feira, bem no dia do aniversário da minha namorada.

Veio gente de todo canto para assistir à inauguração. Mas, muitos queriam mesmo era telefonar. Acabei não conseguindo dar os parabéns para a namorada, pois o PS possuía só uma cabine e a fila ficou comprida demais.

No dia 21, já em Paranavaí, escrevi uma carta para me desculpar da grave falha, que hoje leio e acho muito engraçada. A carta original, que minha mulher guarda até hoje, era manuscrita. Note-se que o dia 21 de janeiro de 1968 caiu num domingo. Que ninguém pense que errei a data. Quando a gente viajava a serviço, não tinha feriado nem dia Santo. Todo dia era dia de semana.

O PS significava uma grande conquista para Goioerê. O prefeito chegou na hora combinada, a telefonista providenciou a chamada e o Governador atendeu. Tudo correu conforme o planejado.

No final da semana seguinte, depois de providenciar o aterramento da torre de Paranavaí, voltei a Curitiba. Escrevi tudo o que aconteceu no meu relatório de viagem. Ninguém nunca me questionou por ter trocado cabo grosso por cabo fino. Naquela viagem, aprendi que um bom profissional precisa estar sempre disponível, tomar decisões rápidas e acertadas e saber ser flexível.

Em Goioerê, aprendi que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Isto valeu tanto para o supervisor de estágio que decidiu que eu iria viajar, quanto para o técnico da Copel que exigiu a modificação.

 A empresa era pequena e a história se alastrou. Ganhei fama de “resolvedor” de problemas. Tinha apenas 22 anos e ainda faltava um ano para me formar.

Esta história ensina que uma pequena contribuição pode produzir um grande resultado.

Mas, preciso admitir, problema mesmo foi chegar em Goioerê!

(*) #8 AWG = 8,3 mm2     

(**) # 6 AWG = 13,3 mm2

URUBUS DE ESTIMAÇÃO

Foto Urubus 1Esta história se passa em Faltesgoto, uma distante cidade de um remoto país. Por coincidência, talvez o leitor conheça alguma cidade igual a Faltesgoto aqui no Brasil.

Em 1979, trabalhei em Lagos, Nigéria, onde coordenei a elaboração do projeto da rede telefônica de uma extensa região da cidade, chamada Apapa, que abrangia a zona portuária, vários quarteis do exército e também o matadouro da cidade.

Não tenho nenhuma foto da viagem, pois era considerado crime um estrangeiro tirar fotografias no país. Mas, nuca vou esquecer do mau cheiro que se sentia nas ruas, nem dos milhares de urubus que habitavam a cidade, disputando espaço com os seus habitantes.

Muito antes disto, ainda menino, vivi situação parecida. Foi no início da década de cinquenta, em Itatinga, cidade do interior paulista onde cresci e fiz o Grupo Escolar.

Urubu existe em todo lugar. Essas aves rústicas, que despertam asco, prestam um serviço de inestimável valor para o meio ambiente. Alimentam-se de matéria orgânica em decomposição e, ao fazer isto, eliminam bactérias nocivas e perigosas que colocam em risco as vidas de todos os outros seres viventes. Eles vêm correndo, digo voando, quando sentem os miasmas emanados de matéria orgânica em decomposição.

A estas alturas do relato, você já deve ter deduzido que os urubus representam um elo comum entre as três cidades acima citadas. É verdade, mas, é necessário levar em consideração o fator tempo na história.

Em Faltesgoto, os urubus foram fotografados em ação recentemente. Uma situação presente e preocupante. Em Itatinga, a convivência com urubus parou de acontecer há 50 anos. Em Lagos, infelizmente não sei dizer. Nunca mais voltei para ver. Pelo que ouço, nada mudou por lá.

Independente de lugar e época, urubu gosta mesmo é de matéria orgânica apodrecendo. Quanto mais, melhor.

Há duzentos anos, nenhuma cidade do mundo possuía esgoto. Em Lisboa, dejetos líquidos escorriam pelas sarjetas e dejetos sólidos eram atirados em carroções para serem enterrados no campo na época em que a família real portuguesa se mudou para o Brasil. Posso até imaginar o mau cheiro que havia nas ruas de Lisboa e a quantidade de urubus que devia havia por lá. Como não conheciam esgoto, os monarcas portugueses que aqui aportaram em 1808, trouxeram ópera, biblioteca, jardim botânico e outras novidades, mas, não se preocuparam com saneamento.

Em Faltesgoto, a situação até que não é tão ruim assim. Afinal de contas, existem fossas nos quintais, que recebem o produto dos assentos sanitários. É claro que o lençol freático está contaminado. Mas os carroções foram abolidos. Entretanto, para retardar o enchimento das fossas sanitárias, água de banho, roupa e cozinha corre para as sarjetas. É oportuno lembrar que essa água contém restos de comida, não apenas espuma de sabão. Um grão de arroz aqui, outro ali. Um feijãozinho aqui outro ali. Um fio de macarrão, um ossinho de frango, um pedacinho de peixe, um naco de carne. Tudo isto combinado com o sol escaldante de nosso país fermenta, produzindo aquele odor desagradável ao ser humano. Mas irresistível para nossos amigos urubus.

Andando pelas ruas de Faltesgoto, topei com urubus em todo canto e lugar. Tinha urubu na cerca, urubu no muro, urubu no telhado, urubu na praça. Despreocupados, tranquilos, não se assustavam nem com os pedestres, nem com as barulhentas motocicletas que cruzavam a cidade em todas as direções a todo momento.

Não fosse pelo horrível pescoço, por sua mansidão diria que os urubus de Faltesgoto estão mais para galinhas pretas.

Havia crianças brincando e mães passeando com seus bebês bem perto das aves. Não duvido que algumas tenham até nome. Quando eu era criança, galo, pato e galinha lá em casa tinham nomes. Minha mãe me dizia: “Joaquim Carlos, quero fazer uma canja, vai buscar a Lurdinha. Mas, só se ela não tiver com ovo. Se tiver, destronque o pescoço da Cida e depene ela para mim”!

Em Itatinga, embora seja proibido, tem gente criando galinha até hoje. Mas, urubu não tem mais! A cidade ganhou seu sistema de esgoto há muitos anos e conta até com estação de tratamento.

Meu pai foi presidente da Câmara Municipal da cidade nos anos 50. Na ocasião, o município foi contemplado com uma verba federal de valor considerável para ser aplicada em infraestrutura. Ele era primo do prefeito e ambos queriam o esgoto. Mas, alguns vereadores queriam aplicar a grana no asfaltamento das ruas da cidade, que eram de terra. Os defensores do asfalto argumentavam que a cidade ficaria mais bonita, que a obra ia acabar com o poeirão e que mostraria para eleitores e visitantes o grande progresso do município. Diziam também que ninguém ia ver o esgoto.

Meu pai propôs então a instalação de tampas de vidro nas caixas de visita, para que o povo pudesse observar os bagres cegos passando. É claro que isto acabou não acontecendo, mas o argumento foi decisivo. O esgoto ganhou!

Na distante Faltesgoto, povo e galinhas continuarão convivendo com os urubus por muito tempo, pois tudo indica que o esgoto vai demorar para chegar. Falta vontade política e aparentemente ninguém reclama. O povo já se acostumou com o mau cheiro e parece até que gosta da companhia dos urubus.

Faltesgoto tem urubus de estimação!