Roda de medir distâncias

RodaA roda de medir distâncias que aparece na foto acima é parecida com a que eu trouxe de minha histórica viagem aos EUA em 1973. A que veio comigo parecia mais um monociclo. A roda era metálica, possuía raios de roda de bicicleta e o corpo era de aço tubular.

Media as distâncias em pés, unidade de comprimento utilizada nos EUA até hoje. O diâmetro da roda tinha sido calculado de forma tal que quando ela dava uma volta completa, o comprimento percorrido tinha sido uma quantidade exata de pés.

Ao longo do perímetro da roda, rente à banda de rodagem, havia pinos espaçados de um pé um do outro. O garfo da roda era equipado com um conta-golpes. Cada vez que um pino batia na haste do conta-golpes, era adicionado um pé na contagem.

Durante um dos estágios que fiz, interessado em ver como os projetistas americanos trabalhavam, consegui que fosse marcado um determinado dia para que eu pudesse acompanhar um levantamento em campo. Na hora da partida, descobri que iria comigo e outros dois colegas, apenas um projetista.

Ao invés de trena, ele levava uma roda de medir. O cabo era dobrável e o dispositivo cabia numa mochila. Observei o projetista enquanto ele trabalhava e cheguei à conclusão de que se tratava de uma ferramenta sensacional. O projetista manobrava o dispositivo com uma das mãos e levava a pranchetinha de campo na outra. A roda possuía um dispositivo de descanso e parava em pé sempre que o projetista fazia suas anotações e desenhava um croqui na pranchetinha.

Em São Paulo, as equipes de levantamento eram formadas por três projetistas, prática adotada há gerações. Um projetista segurava a ponta da trena na frente, outro segurava na parte de trás e fazia as medidas e o terceiro elemento portava a pranchetinha e ia anotando medidas e desenhando o croqui.

Nem é preciso ser adivinho, para concluir que minha bagagem ficou mais pesada na volta, pois ganhou uma roda de medir distâncias. Não liguei para o fato dela medir em pés. Nem precisei me preocupar com reembolso, pois ela me foi presenteada. De volta em casa, tratei de encontrar quem fabricasse o produto. Acabou aparecendo um fabricante de escadas domésticas e de velocípedes infantis. Um vendedor da empresa veio até o meu escritório, no edifício Copam. Expliquei o que estava querendo. A modificação necessária era simples. Bastava produzir uma roda que, sobre a cinta de borracha maciça que fazia as vezes de pneu, tivesse diâmetro de 31,83 cm, ou seja, um perímetro de 100 cm. Assim, a primeira roda de medir distâncias fabricada no Brasil tinha pinos espaçados de 10 cm. O fabricante exigiu a compra de um lote inicial de 30 unidades. O negócio foi fechado e a roda fabricada nos EUA foi emprestada como modelo. Dois meses depois, a Telesp já tinha rodas de medir.

Mas, este foi o menor dos problemas. É difícil romper hábitos arraigados e não foi fácil fazer os projetistas usarem a ferramenta. Alegavam que o povo caçoava deles nas ruas, que a roda era pesada, que era difícil entrar com ela no ônibus e outras coisas. É claro que o motivo maior estava associado ao fato da ferramenta dissolver os grupos. Também acabava com uma prática de cabulação muito praticada. Saiam em três, mas, só dois iam para campo. Um deles folgava. Mas, a roda tinha uma vantagem indiscutível, possibilitava que a medição de travessias de ruas fosse realizada de uma passada. Nestes casos, a medição com trena envolvia risco de vida.

Como a produtividade mais do que dobrava, a empresa acabou criando vantagens salariais e a resistência inicial foi vencida. Assim como o peixe morre pela boca, o homem vive pelo bolso.

As rodas de medir distâncias estão por aqui há décadas. Hoje não existem mais as barreiras de antigamente, que dificultavam e chegavam a impedir importações. Pesquisei na Internet e verifiquei que há dezenas de tipos e modelos à venda. As rodas substituíram com vantagens as antigas trenas de pano e de aço, mas, a evolução não para. Hoje em dia os projetistas contam com meios modernos, associados à informática. Estão disponíveis recursos que permitem a elaboração esboços de projeto sem que seja necessário deixar o escritório. Há recursos grátis disponíveis na Web. Como exemplos, posso citar Google World e Google Street. Em campo, é muito comum hoje o uso de Tablets. Com ele, o projetista determina o posicionamento do item a ser mapeado e ainda registra detalhes com fotos.

Nem me lembro o fim teve minha roda de medir americana. Ficou comigo por muitos anos, mas,  por ser em pés, nunca foi usada. Deve ter ficado para trás numa das muitas mudanças de casa que fiz na vida.

É bem possível que alguma das 30 rodas do lote inicial, ainda esteja em uso.

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