
PROJETO E INSTALAÇÃO DO BARRAMENTO CC DO EDIFÍCIO SEDE DA TELEPAR
O edifício sede da Telepar foi construído num dos pontos mais altos da cidade porque, na época, a tecnologia de transmissão de longa distância utilizava rádioenlaces de micro-ondas e de UHF, cujas antenas precisavam ficar em pontos dominantes.
Por norma, as antenas são identificadas por sua localização geográfica e cota.
As antenas do Palácio das Telecomunicações receberam a denominação cota mil, número correspondente aos 900 metros de altitude do terreno somados aos 100 metros de altura do prédio.
Do 1º ao 7º andar, os pavimentos possuem pé direito de 5 metros e foram projetados para abrigar equipamentos de comutação e de informática.
Do 8º ao 17º andar, os pavimentos possuem pé direito de 3 metros e foram equipados com caixas no piso, para tomadas e fios de telefonia. Essa infraestrutura permitia alterações de leiaute nas paredes divisórias, conforme as necessidades de seus ocupantes, normalmente diretores, chefes de departamento e membros de suas equipes.
Do 18º e acima, o uso era compartilhado com a Embratel.
Na época, equipamentos de comutação exigiam salas de 1.000 m² (20 m x 50 m) e necessitavam de alimentação elétrica em corrente contínua, 48 V. Os equipamentos de transmissão utilizavam o mesmo tipo de energia e ocupavam espaços menores,
A energia CC era acumulada em 24 células de 2V ligadas em série, que forneciam corrente de 100 Amperes. Fisicamente, cada célula de 2V era um reservatório de ácido sulfúrico diluído em água destilada com dimensões aproximadas de 50 x 50 x 120 cm. Por segurança, precisava haver um afastamento mínimo entre células e entre elas e outros objetos, ou paredes. As baterias exigiam também a existência de sistema de exaustão eficiente. Sob o ponto de vista arquitetônico, a existência de uma sala ao lado de uma sala de equipamentos representava um aumento de 5 metros na largura do prédio.
A foto acima mostra como o edifício é esbelto, muito diferente dos edifícios da época, que abrigavam centrasi telefônicas.
Para viabilizar a esbeltez do projeto arquitetônico concebido pelo arquiteto Lubomir Antônio Ficinski, engenheiros da Telepar e da Embratel concordaram com a construção de uma sala de baterias única no subsolo do edifício e essa decisão resultou na necessidade de uso de condutores de grande calibre para alimentar os andares onde seriam instalados os equipamentos.
Como entrei nessa história:
Quando comecei a estagiar na Telepar, a primeira demanda que recebi do engenheiro Galvão foi estudar e apontar eventuais falhas no projeto elétrico convencional do prédio sede.
Realizei o trabalho em dois dias. Galvão convocou uma reunião com a empresa que havia elaborado o projeto, apresentei a relação de erros encontrados, os erros foram reconhecidos e corrigidos e a fatura relativa ao projeto elétrico foi liberada para pagamento.
Até aquele dia eu não sabia nada sobre o assunto da energia CC acima detalhado, muito menos que eu acabaria sendo envolvido no projeto e instalação do barramento que operou por muitos anos no Palácio das Telecomunicações.
O engenheiro Galvão, usou seu estilo direto de comunicação: “Calcule para mim a área em mm² que um condutor precisa ter para alimentar um local a 200 metros de distância com corrente de 1.000 Amperes e tensão 48 V CC, com queda de 0,5 V na extremidade”.
A pergunta era simples. Bastava aplicar a segunda lei de Ohm: V=R.I, ou seja, R = V/I
Em dez minutos, dei a resposta: o condutor precisará ter uma área de 6.880 mm².
Mas, Galvão replicou: “e se for de alumínio”?
A pergunta também foi fácil de responder, pois a resistividade do alumínio é 60% do cobre. Respondi: 11.280 mm²
Galvão disse: “providencie o projeto usando alumínio, mas, não quero cabo elétrico, quero que seja usado um barramento”.
Daí a coisa apertou do meu lado. Expliquei que saberia projetar só se fosse cabo e que barramento exigia conhecimentos mecânicos que eu não dominava. Que estava cursando mecânica básica naquele ano e que eu mal sabia diferenciar uma porca de um parafuso.
Ele passou a mão no telefone e ligou para um ex colega do ITA, que trabalhava na ALCAN, em São Paulo. Conversaram rapidamente e acabaram combinando que eu iria até São Paulo, para ter uma aula especial sobre barramentos de alumínio.
Depois de desligar o telefone, ele me falou: “o projeto é urgente. Você tem 30 dias para entregar os desenhos prontos”.
Às 11 da noite, eu estava num ônibus, viajando para São Paulo, onde cheguei às 7 da manhã.
A sede da ALCAN ficava na Avenida São João, esquina com Duque de Caxias. Havia um certo risco, mas, decidi caminhar. Da rodoviária velha até a ALCAN dava no máximo 1 Km e não compensava tentar pegar taxi e acabar arranjando encrenca com taxista, por ser trajeto muito curto.
Deu tudo certo. Às 8 da manhã, cheguei na portaria da ALCAN, onde o amigo do Galvão estava me esperando.
Subimos, ele me entregou um livro técnico todo em Inglês. Sentamos e ele foi percorrendo o livro. Acabou gastando o resto da manhã comigo.
No início da tarde, embarquei de volta para Curitiba.
Com o auxílio do livro, tomei conhecimento de exigências técnicas e de peças importantes que nem imaginava que existissem: curvas, juntas de dilatação, isoladores de passagem, peças de apoio que precisavam ser usadas em prumadas a cada 3 andares, necessidades de ventilação e outros detalhes.
Consegui cópias heliográficas de plantas de todos os andares do prédio e de desenhos contendo cortes e elevações. Dobrei e levei para minha república, onde havia uma prancheta no quarto.
Eu passava horas olhando as plantas, lendo o livro e imaginando como fazer, onde colocar as juntas de dilatação, os pontos de apoio, como fazer as terminações nos andares, mas, o tempo voava e avanços eram lentos.
Então, ocorreu um fenômeno: comecei a sonhar com o barramento. Nos sonhos, eu via o barramento pronto. Flutuava em torno dele, dentro de um túnel iluminado.
Na primeira vez que isso aconteceu, tentei desenhar assim que despertei, mas, não consegui lembrar de detalhes importantes.
Na noite seguinte, deixei papel, lápis e borracha na prancheta. Dormi e sonhei de novo. Desta vez, assim que o sonho terminou, acendi a luz da prancheta e desenhei um trecho completo do barramento que vi no sonho.
É claro que levei bronca do colega de quarto, recém formado em engenharia mecânica, que trabalhava para a Rede Ferroviária Federal: “Apaga a luz seu v.., eu preciso levantar cedo amanhã para ir trabalhar”!
Em 1967, eu morava no edifício Ambassador, rua Presidente Faria 121, apartamento 1302, a duas quadras do Edifício Barão do Rio Branco, onde funcionava a sede da Telepar. Na manhã seguinte, bem cedo, corri até a Telepar e entreguei o rascunho para o Chico, desenhista do EDC. Pedi para ele passar a limpo em papel vegetal e informei que voltaria à tarde para pegar.
Ele olhou o rascunho e perguntou de onde eu havia copiado. Respondi que havia sonhado e ele achou que era brincadeira minha.
À tarde Galvão analisou o desenho, aprovou e mandou seguir adiante.
Durante duas semanas, sonhei todas as noites. Os sonhos só cessaram quando o projeto ficou pronto.
Muitos anos depois, descobri que nosso cérebro reduz a frequência quando dormimos profundamente, chamam de frequência Alfa. Graças a esse fenômeno, consegui elaborar plantas, cortes e detalhes das peças que foram usadas no barramento, dentro do prazo estabelecido pelo Galvão.
Daí, veio uma nova surpresa: Galvão me chamou e disse ter decidido que eu administraria a montagem do barramento.
Consegui a indicação de um excelente mecânico que trabalhava com montagens mecânicas de precisão, escolhi uma metalúrgica que fabricou as peças de aço de fixação e as ferragens para prender as peças de isolamento e as barras de alumínio. Curvas e juntas de dilatação foram fornecidas pela ALCAN.
O prédio já estava em construção e a construtora que havia vencido a concorrência se chamava Soteco, Sociedade Técnica de Engenharia e Comércio, do Rio de Janeiro.
Quando a estrutura já estava na sexta laje (quarto andar) e as formas de madeira começaram a ser retiradas, os fiscais da obra descobriram que as colunas estavam cheias de furos, com as armações de ferro à mostra, até a sétima laje.
Os operários tinham usado elevador de carga e carrinhos de mão para levar o concreto até as formas, técnica compatível com pequenas obras, que usam betoneira.
A Soteco estava comprando concreto pronto, que chegava em caminhões às sete horas da manhã e era depositado em piscinas de madeira expostas ao sol. No início da tarde, começava a curar e, para poder usar a massa, os operários tinham usado água.
O contrato foi rompido, a obra paralisada e os engenheiros calculistas apresentaram duas alternativas: recomeçar tudo do zero ou aumentar as dimensões das colunas, simulando que elas não existiam. Como o prédio seria usado por antenas da rota sul de micro-ondas da Embratel, e havia urgência, foi adotada a segunda alternativa.
Com exceção das paredes laterais externas, cujo concreto estava perfeito, todas as colunas, do subsolo até a sexta laje dobraram de tamanho: de 25 x 25 cm para 50 x 50 cm.
A vencedora da concorrência realizada para concluir a obra foi a Farid Surugi, de Curitiba, que usou concreto injetado sob alta pressão em um tubo de aço provido de mangueira flexível de 100 mm de diâmetro na extremidade, manobrada por guindaste.
Utilizando aditivo de cura rápida, terminou a obra no prazo que Telepar e Embratel precisavam: concretou uma laje por semana. Poço de elevação para cabos e outras infraestruturas ficavam do lado oeste do prédio.
Uma vez por semana, eu pegava o elevador de carga e ia até o andar que seria erguido e marcava, do lado externo da forma, os lugares exatos onde deveriam ser cravados os parafusos de sustentação do barramento.
Uma vez concluída a obra, acompanhei a montagem do barramento até o final, em tempo parcial, pois me mandaram projetar outro barramento (desta vez usando cobre e sem sonhar) na estação de 20 mil linhas que a SESA estava instalando no segundo andar da Central Telefônica da Telepar, localizada na Travessa Jesuíno Marcondes.
No final de 68, passei a estagiar em redes telefônicas, naquele endereço, sob a orientação do engenheiro Luiz Henrique Silva Pinto.
O Palácio da Telecomunicações foi inaugurado no final de 1970. Na ocasião eu já era chefe de Setor de Projetos da Telepar, tinha feito curso de especialização de três meses na Suécia e regressado a Curitiba a tempo de, entre outras coisas, projetar a acompanhar a instalação do cabo telefônico que ligou o prédio à rede!
Já se passaram 58 anos e para mim é como se tivesse sido ontem!