O ORATÓRIO DO RESTAURANTE

OratórioComeço por recordar um episódio ocorrido na minha infância. Quando eu tinha oito anos, fui a uma festa junina que acontece até hoje em Itatinga, a  pequena cidade do interior de São Paulo onde morei na infância. Meu pai comprou várias cartelas de bingo e me deu uma para marcar. Tive muita sorte e completei minha cartela antes dos outros concorrentes.

Em exposição, no fundo da barraca, havia dez prendas, numeradas de um a dez. Tinha sabonete, bibelô,  brinquedos e outras coisas.

A prenda de número 8 era um lindo caminhão de bombeiros vermelho. Quem completava a cartela tinha o direito de enfiar a mão num saquinho e de lá puxar uma pedra numerada.

Com muita fé, enfiei a mão e puxei o número…3, que correspondia a um crucifixo. Muito decepcionado, comecei a chorar. E dona Ester, responsável pela barraca e mãe adotiva de meu melhor amigo, Chico Craco Prado, trocou o número do caminhão de 8 para 3. Com esta manobra ganhei o caminhão e, no final da festa, fui com ele para casa, feliz a vida.

Em fevereiro de 1954, teve a festa de meus nove anos. Ao abrir o pacote do  Chico tive uma grande surpresa. Ele me trouxe de presente o crucifixo desprezado por mim no bingo da quermesse. Até hoje me lembro do remorso que senti naquela hora.

Até certo ponto, foi uma malvadeza o que dona Ester fez comigo, mas, foi também uma grande lição de vida. Tinha passado pouco mais de meio ano e eu já nem lembrava direito do caminhão de bombeiros, que havia quebrado a roda na manhã seguinte em que o ganhei.

Já o crucifixo que ganhei de presente no meu aniversário de nove anos tem me acompanhado por toda a vida. Sempre encontro um lugar para ele nas casas onde moro. Afinal, eu sou dele. Foi ele que me escolheu!

Passo agora à história do oratório do Mangueirão, melhor e único restaurante de São José do Divino, pequena cidade do norte do Piauí com cerca de 5.000 habitantes, importante produtora de leite. Arrisco dizer que o nome se deve ao fato do lugar ter sido usado para ordenha de vacas no passado. Pelo menos na minha cidade do interior de São Paulo, a gente chamava o local de ordenha de “mangueira”.

Trata-se de um empreendimento familiar, como quase todo o comércio e serviço da cidade. Nenhum dos membros da família soube me dizer de onde vieram os ancestrais, mas, era como se eu estivesse almoçando numa cidade do oeste catarinense. Todos da família eram muito claros, galegos como se diz no sul. O patriarca, na faixa dos 80 anos, olhos azuis muito claros, sentado numa cadeira no fundo do estabelecimento, supervisionando calado as atividades.

A esposa, também entrada nos anos, e duas filhas na faixa dos quarenta, trabalhavam na cozinha. Um filho mais ou menos na mesma faixa etária das irmãs era o garçom. Não vi nenhum agregado nas três vezes em que lá almocei, embora imagine que tenha havido pelo menos um, pois circulava pelo local um rapazote na faixa dos quinze anos, cara escarrada do avô.

O serviço era self service. A tabela dizia: Almoço R$ 10,00, com direito a salada, arroz, feijão e macarrão à vontade. As “misturas” possuíam limite. Cada cliente tinha direito a um pedaço de galinha, carne de vaca ou de porco. Cada pedaço extra representava um real de acréscimo no preço da refeição.

Tinha uma TV que estava sempre ligada na hora do almoço. Ficava dentro da cozinha, mas, virada para fora, numa espécie de janela. Estabelecimento aberto, janela aberta. Estabelecimento fechado, janela fechada. Simples assim.

Fiquei fascinado por um oratório lotado de santos, que ficava na sombra das árvores do jardim. Para proteger as imagens, tinha um vidro. Era uma espécie de vitrine, semelhante às que se vê em túmulos, só que maior. Não comentei nada no primeiro dia, mas, no segundo não me aguentei e fui atrás de uma das mulheres, certo que uma delas era quem cuidava dos santos. Mas ela me contou que o oratório era do irmão, que me explicou que, no começo, o oratório só tinha uma imagem da Sagrada Família. Aconteceu que um freguês trouxe uma imagem de casa e pediu para colocar lá. Depois veio outro, mais outro, e a coleção não parou mais de aumentar.

Olhando de perto dá para ver que tem três imagens de Santo Antonio, três de Nossa Senhora Aparecida, duas de Nossa Senhora de Fátima e assim por diante. Vários tamanhos e várias procedências. Tem uma imagem que um freguês de fora mandou pelo correio. De forma espontânea, nasceu um santuário.

O local tem programação de reza semanal e celebrações especiais em datas específicas do ano. Tudo com muita fé e respeito. Depois da igreja matriz de São José, este deve ser o lugar mais visitado da cidade.

De um modo geral, a gente tem dificuldade de se desfazer de coisas velhas. Mais ainda quando se trata de uma imagem que pertenceu à mãe, ao pai ou ao avô. Todas tem história. Ninguém joga fora coisas assim.

Agora, sei de um bom lugar para onde posso mandar meu velho crucifixo, caso um dia mude de ideia sobre ele…

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