A inspeção da rede Óptica de Regeneração tinha terminado. Para fugir do sol da tarde na prefeitura, decidi ir trabalhar no hotel. Lá tinha ar condicionado. No dia seguinte, iniciaria a longa viagem de regresso a Campinas.
Passava das cinco da tarde e eu estava embalado no relatório de inspeção quando o supervisor técnico da empreiteira bateu na porta do quarto: “Aconteceu um acidente com o cabo da rede óptica e estou indo até o local para ver o que houve. Quer ir comigo”?
E lá fomos nós! Descobrimos que o um cabo multipar da concessionária local de telecomunicações fixas tinha sido abalroado duas vezes num período de sessenta minutos. O primeiro acidente foi provocado por um caminhão basculante. Cabo e cordoalha de sustentação foram fisgados, mas não romperam. O conjunto chicoteou e acabou se enrolando no cabo da rede óptica que tínhamos acabado de inspecionar. Os técnicos da empresa integradora estavam desembaraçando os cabos quando um caminhão baú enroscou novamente no cabo multipar. Desta vez, cabo e cordoalha chicotearam ainda mais alto e atingiram a rede elétrica. Saltou faísca para todo lado. Isto aconteceu instantes antes de chegarmos ao local.
Assustado, o responsável pela prefeitura ligou para o número 103 da concessionária e solicitou que uma equipe de manutenção comparecesse urgentemente ao local.
A atendente, que estava provavelmente a mais de mil quilômetros de distância, recitou a famosa resposta padrão: “Estaremos providenciando…”. Mas, surpresa mesmo foi o prazo dado para realizar o conserto: Trinta dias!
Como assim, trinta dias para eliminar um problema sério, que envolve risco de vida?
Venho observando, já faz tempo, que as redes telefônicas fixas das concessionárias de telecomunicações que sucederam a Telebrás não estão recebendo manutenção adequada. Vejo, por todo lugar que passo, cabos muito baixos, grandes barrigas, espinamento arrebentado, caixas de emenda e caixas terminais sem tampa, conectores e terminais expostos à chuva e ao sol, ninhos de passarinhos e de vespas dentro das caixas, canos laterais soltos, um emaranhado de fios drop. Enfim, as redes estão se acabando!
Retornando ao assunto da história, o cabo telefônico tinha ficado tão baixo que iria cortar o pescoço do primeiro motociclista distraído que passasse por aquela esquina. Para evitar um acidente ainda mais grave, um dos empregados da empreiteira cortou o cabo e o enrolou num poste.
Sou capaz de apostar que ninguém naquele lateral ficou sem serviço. E sabem por quê? Nas placas das lojas de Regeneração e de outras cidades pequenas por onde tenho passado, quase não se vê mais números de telefones fixos. As placas indicam números de celulares!
Não é preciso ter muita imaginação para concluir que as redes telefônicas de cidades pequenas do interior suportam hoje pouquíssimos telefones fixos. Com toda a certeza, estão dando prejuízo e, da forma como o assunto está sendo conduzido, o prejuízo só tende a aumentar. Talvez não por acaso, no final da semana que retornei para casa, a maior concessionária de telecomunicações do Brasil solicitou Recuperação Judicial. Várias coisas são mais que certas para mim:
- A empresa vai mudar de dono.
- Os novos controladores continuarão investindo em celular.
- Investirão também em fibras ópticas, mas, apenas em cidades de maior porte, que garantam o retorno do investimento.
- As redes telefônicas das cidades pequenas continuarão sem nenhuma atenção e se degradando
- Um dia, não muito distante, serão abandonadas de vez, ou vendidas como sucata.
O lado bom, é que as redes ópticas do projeto Cidades Digitais podem tornar-se muito mais úteis do que inicialmente imaginaram seus idealizadores.
Em 1973, estagiei em várias empresas telefônicas nos EUA. Entre as novidade que trouxe de lá, estava um exemplar de um Manual de Redes Internas do Building Industry Consultive Service, BICS.Na época, todas as concessionárias do Brasil, elaboravam projetos de tubulações internas de casas e edifícios e projetavam e instalavam suas redes internas. Além de cara, tratava-se de uma atividade extremamente problemática.
No dia 30 de junho de 1973, eu e dois colegas viajamos para os EUA com o objetivo de estudar novas técnicas de projeto e construção de redes, novas ferramentas e novos materiais. A viagem teve duração de 12 semanas. Tínhamos um roteiro bem definido a ser cumprido. Nosso primeiro destino seria a General Telephone of California. Como não havia voos diretos para a costa oeste naquela época, tivemos que fazer conexão em Nova Iorque. Partimos de Viracopos bem cedo. Nosso voo deveria chegar em NY por volta de 16 horas, com conexão imediata para Los Angeles. Uma forte tempestade se abateu sobre Nova Iorque e descemos em Philadelphia. Dezenas de voos também foram desviados para lá e o aeroporto congestionou. Ficamos presos no avião durante cinco horas. Era verão e fazia um calor infernal. Acabou água e comida e os banheiros entupiram.
Assim que terminou a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi inundado com novas matérias primas. Apareceram borrachas sintéticas, polietileno, polipropileno, poliestireno, acetatos, acrilatos, vinil e vai por aí afora.
A roda de medir distâncias que aparece na foto acima é parecida com a que eu trouxe de minha histórica viagem aos EUA em 1973. A que veio comigo parecia mais um monociclo. A roda era metálica, possuía raios de roda de bicicleta e o corpo era de aço tubular.
Quando fui trabalhar na Telebrás, a empresa funcionava no Edifício Embaixador, Setor Comercial Sul de Brasília. A Divisão de Engenharia de Redes Externas ocupava um pequeno conjunto no primeiro andar do prédio, constituído de sala e banheiro. A sala comportava seis mesas e uma prancheta. Por sorte, o banheiro tinha um box para chuveiro. Na época não havia computadores pessoais. A gente escrevia bilhetes e memorandos e, quando se tratava de norma ou prática, a secretária da divisão datilografava os textos manuscritos. Os documentos eram guardados em arquivos que ficavam no banheiro.
Quando em viagem, ficamos tão encantados com a paisagem e com o cenário à nossa volta, que acabamos deixando de prestar a devida atenção detalhes importantes. A história que passo a relatar, aconteceu há mais de quarenta anos e não teve a merecida divulgação.