O segmento de telecomunicações é desafiador.
A cada momento, surge uma novidade.
Acompanho cada uma delas.
Vibro com cada experiência bem sucedida!
O segmento de telecomunicações é desafiador.
A cada momento, surge uma novidade.
Acompanho cada uma delas.
Vibro com cada experiência bem sucedida!
Um detalhe importante a ser conferido durante as aceitações é a altura de fixação dos cabos aéreos e também seu tensionamento.
Alturas mínimas recomendadas no meio do vão:
Em calçadas: 4,50 metros
Em travessias de ruas: 5,00 metros
Em travessias de estradas: 6,00 metros
No tocante a tensionamento, as normas recomendam um tensionamento tal que produza uma flecha de 1%.
Relação entre vãos e flechas:
30 metros: Flecha 30 cm
40 metros: Flecha 40 cm
50 metros: Flecha 50 cm
60 metros: Flecha 60 cm

Muitas vezes, um pequeno detalhe é essencial para garantir vida longa à rede. O ajustador é um exemplo clássico. Não há nenhum argumento que justifique o fato dessa peça não estar sendo usada.

Falta de ajustador significa cano lateral solto e cano solto significa cabo danificado
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No jardim da Prefeitura de Regeneração PI descansa um cofre. Está deitado de lado, fundo encostado na mureta que faz divisa com a rua e suas pesadas portas estão voltadas para o jardim, numa pose parecida com alguém que dorme. Se estivesse de costas, eu diria que estava morto!
Pela aparência, está ali há anos, debaixo de uma árvore que para mim é uma figueira, mas, não tenho certeza disso. Conhecimentos de botânica nunca foram o meu forte.
Sua impávida presença é tão antiga que pessoas da cidade e funcionários da prefeitura já não lhe prestam atenção. Apenas forasteiros como eu devem achar estranho ele estar ali esquecido, num lugar tão visível, a poucos metros da porta de entrada da prefeitura.
Cheguei na prefeitura um pouco antes das 8 horas: quando viajo, gosto de começar bem cedo. O tempo precisa ser bem aproveitado, pois sempre surgem imprevistos e coisas a serem feitas, das quais não me lembrei no momento que planejei a viagem.
O expediente de trabalho oficial nas prefeituras das pequenas cidades do nordeste do Brasil é das sete e trinta às treze e trinta. Na prática, é das oito ao meio-dia. Quando vai chegando a hora do almoço o pessoal debanda e cada um vai cuidar de sua vida em outro lugar.
Num primeiro momento pode parecer um abuso, mas, considerando a paga modesta, o pouco que se tem para fazer e o calor escaldante das tardes, o expediente matutino bem que se justifica.
Não encontrei o funcionário que estava procurando e dele ninguém soube dar notícias, de forma que decidi esperar. Para matar o tempo, puxei papo com um funcionário que me olhava curioso, de longe: Naquelas plagas sempre pensam que sou estrangeiro e alguns ficam espantados quando descobrem que falo português. Perguntei se ele se sabia porque aquele cofre estava ali, há quanto tempo, e qual seria seu destino.
Meu novo amigo não sabia responder o motivo do cofre estar ali, mas em compensação, me contou sua história e ela era interessantíssima.
O cofre foi doado à prefeitura por um Banco que fechou a agência na cidade. Na época em que isto ocorreu devia ser mais barato comprar um cofre novo do que transportar um cofre antigo e pesado como aquele para outra cidade.
Como prefeitura quase nunca tem dinheiro em caixa, passaram a guardar documentos importantes dentro do cofre. Certo dia, um funcionário descuidado alterou inadvertidamente o segredo da fechadura e não conseguiu mais abrir a porta. Muitos funcionários tentaram abrir e não conseguiram.
Decidiram chamar o faz tudo da cidade, homem rude, mas muito bom no que fazia. Quando ele chegou, ninguém se preocupou em perguntar o preço do serviço. Em parte, porque achavam que seria apenas mais uma tentativa frustrada. Mexe daqui, cutuca dali, dez minutos depois, o cofre estava aberto!
Na hora que a secretária da prefeitura perguntou o preço, levou um susto!
“São cem reais”, disse o homem, tratando de garantir a féria do dia, pois eram de vacas magras, os dias naqueles tempos.
“Cem reais por dez minutos de serviço? Você pensa que eu sou boba? Dou vinte e cinco e estamos conversados”!
O homem voltou ligeiro até o cofre e tornou a fechá-lo. “Se você acha caro o meu serviço, procure outro que abra”. Disse isso e foi embora.
Passaram-se semanas. Dezenas de pessoas foram chamadas e nada do cofre abrir. Esgotadas todas as possibilidades, a secretária chamou de volta o faz tudo.
“Pode abrir o cofre, decidi pagar os cem reais que você me pediu”, disse ela.
“O preço agora aumentou” disse o homem. “Agora, quero duzentos”!
Dito e feito, foi o que aconteceu…
Nos dias de hoje, vazio e esquecido, o cofre não vale mais nada. Transformou-se num estorvo. Seu preço, se for vendido por quilo, não remunera sequer o custo do transporte até o sucateiro da cidade vizinha.
Fazendo uma analogia entre a história do cofre e a das pessoas, podemos concluir que valemos pelo nosso conteúdo. Não adianta ser forte, pesado e robusto.
A secretária da prefeitura deve ter também ter aprendido que um bom profissional não ganha fama por acaso. Bom conceito se conquista. Bons profissionais são como os bons vinhos: Não importa a aparência do rótulo, com o passar do tempo, o conteúdo melhora!.
Quando temos pressa e precisamos garantir resultados, devemos confiar a missão a um profissional idôneo e experiente.
“O barato sai caro”, diz o ditado popular. Recomeçamos do zero e pagamos dobrado.
Na realização de uma inspeção para aceitação de uma rede passiva óptica, existe um roteiro a ser seguido. Uma parte importante das atividades abrange visitas realizadas em prédios atendidos pela rede, onde existe um rack, dentro do qual existe um dispositivo onde a fibra óptica é terminada, um equipamento denominado ONU (Optical Network Unity), uma bateria que mantém a ONU ligada em caso e queda de energia e vários dispositivos.
Outra atividade importante é a inspeção da rede externa, na qual o responsável percorre a rede externa, observando altura e tensionamento do cabo, emendas, ancoragens, pontos de sustentações e reservas técnicas.
Esta história também se passa em São José do Divino, que é bem pequena. De ponta a ponta, a cidade tem 2 quilômetros de extensão e este era o comprimento do cabo que foi inspecionado. Não mais do que 50 postes
Normalmente, trabalham duas ou três pessoas nesses atividades. Mas, por se tratar da primeira inspeção a ser realizada sob a responsabilidade da RNP, o grupo de aceitação era composto de sete pessoas: Eu, outro engenheiro da RNP, um funcionário do Ministério das Comunicações que estava passando o bastão para a RNP, três empregados da empresa que implantou a rede e o Secretário de Planejamento da prefeitura que a estava assumindo a responsabilidade de operar a rede, chamado Francisco.
Quase hora do almoço, sol a pino, temperatura na sombra ao redor de 38 graus C. Caminhamos desde a sede da prefeitura até a Delegacia de Polícia, que ficava na extremidade da rede.
Acostumado a andar, fui caminhando depressa e ganhando espaço do resto do grupo. Apertando o passo, Francisco me fez companhia e, passando na frente de uma pequena lanchonete e de uma oficina de motocicletas. Franciso avistou um conhecida dentro da lanchonete e, enquanto caminhava na direção dele, comentou comigo que o cidadão era o proprietário dos dois estabelecimentos e também vereador da cidade.
Entrou e fez questão de me apresentar. Havia outras três pessoas na lanchotete, que pareciam ser mais amigos do que fregueses. Estavam sentados na varanda coberta de telhas de zinco e o ccalor embaixo dela, para mim, era muito quente, mas, para eles que estavam em pleno inverno, eram agradável. Terminadas as apresentações, o comerciante nos ofereceu caldo de cana bem gelado, que desceu muito bem. Pedi repetição, o que deixou o proprietário muito feliz.
A pausa para para tomar o caldo de cana deu tempo do resto do grupo nos alcançar. Começamos uma conversa curta, não mais do que uns cinco minutos: Francisco explicou o que estava sendo feito e, entusiasmado com a confirmação de que o WiFi público já estava em funcionamento, um dos amigos do vereador exclamou: “Oba, a partir de agora vou poder ver mulher pelada na Internet sem ter que pagar nada”
A Internet é uma ferramenta incomparável. Através dela temos acesso a milhares informações: ciência, cultura, lazer, conhecimento e cultura, disponíveis em parte do planeta.
Tentei explicar que a Internet pode ser usada até para ver mulher pelada, mas, que ele deveria começar a pensar em tirar proveito da ferramenta. Comecei a relatar ao grupo que meu filho mais velho, engenheiro eletricista, tinha obtido um diploma de especialização no MIT usando a Internet. Mas desisti, deppois que me perguntaram o que era o MIT.
Mudei de assunto e perguntei se ele já tinha estado em alguma cidade grande e descobri que ele nunca havia saido dali, nem Teresina, ele conhecia!
Antes de entrar numa estrada, precisamos saber para onde elea leva e o que queremos fazer no destino, para não correr o risco de passar pelo vexame que Alice passou quendo cruzou com um gato falante na ecruzilhada de uma estrada do País das Maravilhas. Ela perguntou ao gato por qual caminho deveria prosseguir, o gato respondeu que a direção a ser tomada dependia do que ela iria fazer no destino e Alice completou, dizendo que não sabia. E o gato deu a resposta final: “então não faz nenhuma diferença”.
Antes de pegar uma estrada, precisamos estudar o caminho a ser trilhado e saber o destino a ser atingido. Quando não fazemos isso, gastamos tempo e dinheiro e não saimos do lugar!
A pequena São José do Divino no Piauí estava em festa este mês. E não é só pela chegada do mês de junho. No bojo de um ambicioso projeto do governo federal, concebido para levar serviços de banda larga para o interior, havia entrado em operação um Wi-Fi de acesso público na praça central da cidade.
O cartaz instalado no local informava: “Agora tem Internet GRÁTIS na praça”.
Estive lá e vi: quando o sol se escondia e a temperatura ficava mais amena, muitas pessoas se dirigiam até a praça com seus celulares na mão!
Cabos de fibras ópticas e equipamentos locais haviam sido implantados com recursos do governo federal. Mas, a saída para o mundo exterior tinha ficado a cargo da prefeitura.
Como se tratava de cidade muito pequena, que representava pouco retorno para os grandes provedores de banda larga, o máximo que a prefeitura conseguiu foi alugar uma conexão rádio, com 16 Mbps. Ou seja, muito inferior à banda que qualquer usuário dispunha na época, em cidades de maior porte.
Mas, pelo que notei, ninguém estava preocupado com esse detalhe em São José do Divino. Dava ver a felicidade estampada no rostos das pessoas. Era pura alegria! De graça, até injeção na testa, diz um velho ditado popular!
A meu ver, a maior vantagem é que a cidade possuia um sistema de Internat próprio interligando pontos de seu interesse: secretarias municipais, escolas, creches, centro de assistência social, delegacia de polícia, hospital, escritório do Bolsa Família, entre outros, podiam trocar grandes volumes de informação entre si.
O maior problema era se ligar ao mundo, pois estavam compartilhando com a população uma boa fatia dos 16 Mbps disponibilizados para todos.
O Wi-Fi público possuia antena de alto ganho. Embora o contrato estabelecesse alcance apenas dentro da praça, o sinal chegava forte em endereços que ficam a mais de 200 metros de distância. Consequentemente, comerciantes, moradores vizinhos, o dono da farmácia, o dono do supermercado e até o gerente da agência dos Correios estavam pensando seriamente em “descontratar” os serviços do provedor local e migrar para a rede da prefeitura.
Desconfio que o provedor não estava muito feliz, mas, não me preocupei em ir atrás dele para confirmar.
Por outro lado, surgiu um cidadão descontente que ninguém poderia imaginar: o padre Antônio Baselino, pároco da igreja de São José, padroeiro da cidade.O Wi-Fi ficava num poste bem na frente da igreja local: sinal cheio, sombra e bancos confortáveis. Não havia lugar melhor para ficar! Mas, o padre estava danado da vida!
Li com estes olhos que a terra há de comer, o WhatsApp que ele mandou para o, secretário do prefeito e responsável pela operação da rede: “Francisco, você precisa desligar a Internet nos horários de missa. Não quero ter que brigar com você”!
Na mesma hora, me ocorreram cenas que vinha observando em restaurantes, ruas e rodas de amigos e dei razão à zanga do padre: os paroquianos, entretidos com seus smartfones, não estavam acompanhando direito as missas, nem prestando atenção nos sermões!
A rigor, a mensagem nada republicana do padre deveria ter recebido um sonoro NÃO, pois, apesar do nome da cidade estar associado ao de um santo, a prefeitura é laica e certamente havia evangélicos e ateus na praça nos horários de missa. Mas, fiquei sabendo que a solicitação foi atendida!
Maquiavel escreveu há quase sete séculos:
Não existe atividade mais perigosa e ao mesmo tempo mais frustrante, do que trabalhar em inovação. O inovador precisa conviver com a indiferença dos futuros beneficiados e enfrentar o ódio daqueles que inevitavelmente se sentirão prejudicados!
Esta história se passa em Faltesgoto, uma distante cidade de um remoto país. Por coincidência, talvez o leitor conheça alguma cidade igual a Faltesgoto aqui no Brasil.
Em 1979, trabalhei em Lagos, Nigéria, onde coordenei a elaboração do projeto da rede telefônica de uma extensa região da cidade, chamada Apapa, que abrangia a zona portuária, vários quarteis do exército e também o matadouro da cidade.
Não tenho nenhuma foto da viagem, pois era considerado crime um estrangeiro tirar fotografias no país. Mas, nuca vou esquecer do mau cheiro que se sentia nas ruas, nem dos milhares de urubus que habitavam a cidade, disputando espaço com os seus habitantes.
Muito antes disto, ainda menino, vivi situação parecida. Foi no início da década de cinquenta, em Itatinga, cidade do interior paulista onde cresci e fiz o Grupo Escolar.
Urubu existe em todo lugar. Essas aves rústicas, que despertam asco, prestam um serviço de inestimável valor para o meio ambiente. Alimentam-se de matéria orgânica em decomposição e, ao fazer isto, eliminam bactérias nocivas e perigosas que colocam em risco as vidas de todos os outros seres viventes. Eles vêm correndo, digo voando, quando sentem os miasmas emanados de matéria orgânica em decomposição.
A estas alturas do relato, você já deve ter deduzido que os urubus representam um elo comum entre as três cidades acima citadas. É verdade, mas, é necessário levar em consideração o fator tempo na história.
Em Faltesgoto, os urubus foram fotografados em ação recentemente. Uma situação presente e preocupante. Em Itatinga, a convivência com urubus parou de acontecer há 50 anos. Em Lagos, infelizmente não sei dizer. Nunca mais voltei para ver. Pelo que ouço, nada mudou por lá.
Independente de lugar e época, urubu gosta mesmo é de matéria orgânica apodrecendo. Quanto mais, melhor.
Há duzentos anos, nenhuma cidade do mundo possuía esgoto. Em Lisboa, dejetos líquidos escorriam pelas sarjetas e dejetos sólidos eram atirados em carroções para serem enterrados no campo na época em que a família real portuguesa se mudou para o Brasil. Posso até imaginar o mau cheiro que havia nas ruas de Lisboa e a quantidade de urubus que devia havia por lá. Como não conheciam esgoto, os monarcas portugueses que aqui aportaram em 1808, trouxeram ópera, biblioteca, jardim botânico e outras novidades, mas, não se preocuparam com saneamento.
Em Faltesgoto, a situação até que não é tão ruim assim. Afinal de contas, existem fossas nos quintais, que recebem o produto dos assentos sanitários. É claro que o lençol freático está contaminado. Mas os carroções foram abolidos. Entretanto, para retardar o enchimento das fossas sanitárias, água de banho, roupa e cozinha corre para as sarjetas. É oportuno lembrar que essa água contém restos de comida, não apenas espuma de sabão. Um grão de arroz aqui, outro ali. Um feijãozinho aqui outro ali. Um fio de macarrão, um ossinho de frango, um pedacinho de peixe, um naco de carne. Tudo isto combinado com o sol escaldante de nosso país fermenta, produzindo aquele odor desagradável ao ser humano. Mas irresistível para nossos amigos urubus.
Andando pelas ruas de Faltesgoto, topei com urubus em todo canto e lugar. Tinha urubu na cerca, urubu no muro, urubu no telhado, urubu na praça. Despreocupados, tranquilos, não se assustavam nem com os pedestres, nem com as barulhentas motocicletas que cruzavam a cidade em todas as direções a todo momento.
Não fosse pelo horrível pescoço, por sua mansidão diria que os urubus de Faltesgoto estão mais para galinhas pretas.
Havia crianças brincando e mães passeando com seus bebês bem perto das aves. Não duvido que algumas tenham até nome. Quando eu era criança, galo, pato e galinha lá em casa tinham nomes. Minha mãe me dizia: “Joaquim Carlos, quero fazer uma canja, vai buscar a Lurdinha. Mas, só se ela não tiver com ovo. Se tiver, destronque o pescoço da Cida e depene ela para mim”!
Em Itatinga, embora seja proibido, tem gente criando galinha até hoje. Mas, urubu não tem mais! A cidade ganhou seu sistema de esgoto há muitos anos e conta até com estação de tratamento.
Meu pai foi presidente da Câmara Municipal da cidade nos anos 50. Na ocasião, o município foi contemplado com uma verba federal de valor considerável para ser aplicada em infraestrutura. Ele era primo do prefeito e ambos queriam o esgoto. Mas, alguns vereadores queriam aplicar a grana no asfaltamento das ruas da cidade, que eram de terra. Os defensores do asfalto argumentavam que a cidade ficaria mais bonita, que a obra ia acabar com o poeirão e que mostraria para eleitores e visitantes o grande progresso do município. Diziam também que ninguém ia ver o esgoto.
Meu pai propôs então a instalação de tampas de vidro nas caixas de visita, para que o povo pudesse observar os bagres cegos passando. É claro que isto acabou não acontecendo, mas o argumento foi decisivo. O esgoto ganhou!
Na distante Faltesgoto, povo e galinhas continuarão convivendo com os urubus por muito tempo, pois tudo indica que o esgoto vai demorar para chegar. Falta vontade política e aparentemente ninguém reclama. O povo já se acostumou com o mau cheiro e parece até que gosta da companhia dos urubus.
Faltesgoto tem urubus de estimação!
Inspecionar e aceitar três redes ópticas em cidades afastadas entre si por centenas de quilômetros não é tarefa trivial. É preciso racionalizar o uso do tempo e compartilhar tarefas para dar conta de tudo. As estradas no interior do Piauí são boas, mas, passam dentro de inúmeras povoações. Na proximidade de qualquer uma delas, há sempre intenso trânsito de motocicletas, que requer extremo cuidado. Para variar, existem muitas lombadas. Muitas mesmo! Daquelas que exigem que você realmente pare. Ao todo, rodamos mil e setecentos quilômetros.
Como as duas primeiras cidades não tinham hotel, tivemos que nos hospedar em localidades vizinhas. No caso de São José do Divino, o hotel mais próximo ficava em Piracuruca, a 30 quilômetros de distância. Em Inhuma, o hotel menos longe ficava em Picos. Setenta quilômetros de estradas vicinais. Uma hora para ir e uma hora para voltar.
Mas Regeneração, terceira e última cidade digital a ser inspecionada tinha hotel!
No dia 19 de junho tomamos café da manhã em Picos e às nove horas já estávamos na estrada. Uma uma bela manhã de domingo. Percorremos quase trezentos quilômetros de estradas vicinais até alcançar o destino. Chegamos por volta de 13 horas.
O estabelecimento estava aberto, mas, salvo um hóspede que que tinha ficado com as chaves de dois quartos, não havia mais ninguém no hotel.
Os dois quartos enquadravam-se na categoria “quarto com ar”, o primeiro da lista exposta na entrada. R$ 40,00, com direito ao café da manhã. Entrei e descobri que o quarto tinha banheiro privativo.
Havia reparado que o preço do banho avulso era o mais barato da tabela, R$ 4,00 e logo descobri a razão. O hotel não dispõe de chuveiro elétrico nem sistema de aquecimento. O gasto com o banho é apenas com água. A rigor, água quente numa latitude como aquela é absolutamente dispensável. Além do calor que faz, o reservatório fica em cima do telhado e a água sai quentinha do chuveiro, mesmo de manhã bem cedo.
Quando o casal de proprietários chegou no começo da noite, aproveitei para pedir alguns implementos, pois o meu quarto estava parecendo mais a cela de São Francisco. Tinha uma cama, uma TV, o parelho de ar condicionado e só. Pedi uma mesinha lateral, uma cadeira, um cordão de extensão e uma derivação T.
A senhora ficou curiosa por eu estar querendo tanta coisa: “Mesa de cabeceira para colocar os óculos e o computador, cadeira para sentar e trabalhar, cordão de extensão para alcançar o laptop e derivação T porque a única tomada do quarto já estava ocupada com a TV”, expliquei.
Em cinco minutos, estava tudo lá, serviço de primeira. Na manhã seguinte, antes das sete, fui até o local do café e conheci o proprietário, que estava saindo para comprar pão e leite. Aproveitei e fui com ele, estiquei as pernas e ficamos amigos.
Pensei que iríamos bater bons papos, mas, ao voltar no final da tarde, a senhora me contou que o marido passara mal na hora do almoço. Tinha começado a embaralhar as palavras e o braço tinha ficado dormente. Uma das filhas foi chamada e levou o pai o hospital.
Mas, a senhora tinha também outra preocupação. O genro, que estava retornando de São Paulo com o carro abarrotado de utensílios e ferramentas, tinha parado de dar notícias horas atrás, pouco depois de entrar na Bahia. O drama durou até as oito da noite, quando o rapaz finalmente chegou. Explicou que havia acabado a bateria do celular. Simples assim.
Na terça-feira cedo tornei a perguntar pelo marido, que continuava no hospital. No começo da noite cruzei novamente com a senhora e tornei a perguntar do marido. Comentei que estava curioso pelo fato dela não estar indo visitar o marido no hospital. Ela então me contou que o hospital onde ele estava internado ficava em Teresina.
Como alguém que cobra R$ 40,00 de diária com café da manhã, ou R$ 4,00 por um banho avulso, pode pagar internação, ecografias e tomografias?
Acabei me lembrando dos meus tempos de infância. A cidade onde cresci tinha um posto de saúde que só servia mesmo para aplicação de vacinas. O médico local, Dr. Wilson, só tinha recursos para tratar de doenças simples, como gripe, sarampo e catapora. Meus pais costumavam comentar que um irmãozinho mais velho do que eu tinha morrido de crupe e “tosse comprida”. E eles não eram nenhuma exceção. Não tinha uma única família na cidade que não tivesse perdido uma criança. O cemitério tinha até uma quadra com lotes reservados para “anjinhos”, com era costume falar. Naqueles tempos, quando alguém se sentia mal e a doença tinha jeito de ser grave, tratava de pegar o trem para São Paulo. Uma viagem de oito a dez horas. Na maioria das vezes, voltava num caixão.
Esta viagem foi um mergulho no passado. Descobri que a população de muitas cidades do interior do nordeste vive hoje exatamente como a população do interior de São Paulo vivia nos anos cinquenta.
Nossos governantes precisam criar vergonha e parar de brigar por poder e dinheiro! Precisam mesmo é se aliar e implantar serviços de saúde minimamente decentes. A estas alturas, nem importa que sejam parecidos com os que hoje temos no sul e no sudeste, dos quais, com justa razão, tanto reclamamos!
No dia 30 de junho de 1973, eu e dois colegas viajamos para os EUA com o objetivo de estudar novas técnicas de projeto e construção de redes, novas ferramentas e novos materiais. A viagem teve duração de 12 semanas. Tínhamos um roteiro bem definido a ser cumprido. Nosso primeiro destino seria a General Telephone of California. Como não havia voos diretos para a costa oeste naquela época, tivemos que fazer conexão em Nova Iorque. Partimos de Viracopos bem cedo. Nosso voo deveria chegar em NY por volta de 16 horas, com conexão imediata para Los Angeles. Uma forte tempestade se abateu sobre Nova Iorque e descemos em Philadelphia. Dezenas de voos também foram desviados para lá e o aeroporto congestionou. Ficamos presos no avião durante cinco horas. Era verão e fazia um calor infernal. Acabou água e comida e os banheiros entupiram.
Depois de passar pela imigração e alfândega, estressados e irritados, nos vimos perdidos no saguão do aeroporto. Os dois companheiros, que viajavam para o exterior pela primeira vez, me pediam coisas a todo momento: “Diz isto, fala aquilo”! Descobri que tinha ônibus levando passageiros até Kennedy, mas, a viagem levava umas três horas e ainda chovia. Uma funcionária do balcão de turismo nos orientou a procurar pela United Airlines. Acabei conseguindo um voo que partiria de Philadelphia para Los Angeles às dez da manhã do dia seguinte, que era um domingo.
Dormimos no hotel do aeroporto. Já era quase meia-noite quando finalmente entramos no quarto. Tinha uma cama de solteiro e uma de casal. Os dois reclamaram, mas, fiquei com a cama de solteiro. Afinal, eu havia negociado o quarto. Pedi para nos acordarem às sete. Dava tempo de folga para tomar café e embarcar.
Lá pelas cinco, alguém começou a bater forte na nossa porta. Minha cama ficava no fundo e pedi que um deles tratasse de dispensar o homem. Um de meus colegas que era nissei e, portanto muito bem educado, ao invés bronquear ficava repetindo baixinho, “tankiu, tankiu, tankiu”. O homem acabou percebendo que estava batendo na porta do quarto errado e foi embora. Com o incidente, acabamos não dormindo direito. Parecia que tudo ia dar errado naquela viagem, mas, não deu. Ao contrário disto, foi uma das melhores e mais produtivas missões que realizei no exterior.
O voo da UA decolou às dez e às onze da manhã estávamos em LA: Cinco horas de voo menos quatro de fuso. Pegamos um táxi e rumamos para Santa Mônica, onde ficava a sede da General Telephone of Califórnia. Permanecemos por lá durante seis semanas que valeram por quase uma vida. Nos deram um crachá que dizia “Telesp Contractor” e fomos integrados numa equipe de projeto. Fizemos dezenas de incursões em campo. Vimos e aprendemos muitas coisas novas.
De tudo o que observamos, o ponto alto foi o sistema computadorizado de projetos da GENTEL. Eles dividiam a rede em alimentação e distribuição. A rede de distribuição era projetada de forma muito simples: Os assinantes eram agrupados dentro de “Seções de Serviço” e o dimensionamento de pares era extremamente simples:
Já a rede alimentadora era objeto de estudos de crescimento de demanda muito acurados, pois nela estava concentrada a maior parte dos investimentos. A rede alimentadora era dividida em segmentos de rede. Cada segmento era determinado por dois Pontos de Controle, um no início e outro no final de cada um deles.
Ponto de Controle era, por definição, um ponto ao longo da rede onde algum cabo era emendado, derivado, ou sofria mudança de bitola ou de capacidade. A quantidade e a evolução de pares defeituosos, ocupados e livres era rigorosamente controlada em cada Ponto de Controle, através de um programa de computador.
O processo era conhecido como Control Point Analysis. Na época, não havia computadores de pequeno porte, de forma que o programa rodava em Main Frame e os resultados eram impressos em formulários contínuos, como os da foto acima.
O responsável pelo projeto era um engenheiro de redes de grande experiência, apaixonado por computação. Em meu relatório, recomendei fortemente a adoção do Control Point Analysis. Um ano depois, o sistema foi implantado. Os projetos de cabos primários da Telesp passaram a levar em conta princípios de engenharia econômica, com horizonte de ocupação de cinco anos. Este programa, além de proporcionar economia para a empresa, melhorou a qualidade de vida dos paulistanos, pois diminuiu consideravelmente a quantidade e a frequências das intervenções que eram feitas na rede. Pouca gente sabe, mas, muitas das intervenções resultavam obrigatoriamente na abertura de valas e buracos em ruas e avenidas da cidade.
Infelizmente, não pude acompanhar de perto os resultados do novo processo. Quando foi implantado, já estava trabalhando na Telebrás.
Assim que terminou a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi inundado com novas matérias primas. Apareceram borrachas sintéticas, polietileno, polipropileno, poliestireno, acetatos, acrilatos, vinil e vai por aí afora.
A presente história contempla apenas um entre milhares de casos onde novos materiais revolucionaram o mercado.
Refiro-me a dutos de PVC, que substituíram os tradicionais dutos de grês, usados no Brasil e no mundo desde a invenção do telefone por Graham Bell.
O desenho acima foi tirado da Prática Telebrás, 235-201-708, série rede, de outubro 1976. Na ocasião, dutos de grês continuavam em uso apenas em serviços de reparo de trechos existentes. Pode-se dizer que haviam entrado em processo de extinção.
Uma peça de 06 furos com um metro de comprimento pesava 60 Kg. Apenas para exemplificar, um quilômetro de canalização de seis furos requeria que uma carga de 60 toneladas fosse transportada para o local da obra, que poderia estar a centenas de quilômetros de distância.
O alinhamento entre peças era feito por dois pinos de aço introduzidos nos furos que aparecem no corte e a vala precisava ter no mínimo 50 cm de largura. Largura menor significava falta de espaço para o trabalho dos pedreiros. Sim, eram usados pedreiros no assentamento dos dutos. O fundo da vala recebia uma camada de argila que era previamente compactada e nivelada. Por ser frágil à compressão, todas as travessias e entradas de garagem eram “envelopadas” com concreto.
O peso da peça requeria que três homens fossem usados no assentamento. Antes do pedreiro fazer o “embolsamento” com massa de cimento, era necessário enrolar uma faixa de tecido de algodão no ponto de junção para evitar a penetração de cimento no duto.
Resumindo, embora uma manilha de grês fosse relativamente barata, sua utilização exigia muito gasto em a transporte e o método de construção era caro e complicado, tornando o preço do quilômetro construído bem alto!
Quando comecei a trabalhar na Telepar, a empresa costumava usar dutos de grês de 4 furos em suas canalizações subterrâneas. A maioria das cidades que estavam sob minha responsabilidade eram pequenas e não exigiam a construção de linhas de dutos. Apenas alguns laterais curtos. Mas, herdei também algumas cidades grandes, cujas redes exigiam canalizações subterrâneas. Entre elas estava Cascavel, uma das primeiras que projetei e construí. O projeto previa a construção de apenas 1.400 metros de dutos de grês de 04 furos, chamados DM-4.
Seguiu para lá nosso melhor e único empreiteiro de dutos, Lourival Frelik. Foram enviados para Cascavel seis caminhões com dutos DM-4. É importante lembrar que Guarapuava fica a 450 Km de Curitiba. Na ocasião, o trecho entre Guarapuava e Cascavel, com 220 Km, ainda era de terra.
Passadas umas três semanas, o Lourival ligou pedindo mais dutos DM-4. Providenciamos uma carga adicional de 10 toneladas, um caminhão com 250 peças. Na semana seguinte novo telefonema, pois continuava faltando manilhas. Desta vez, quisemos saber o que estava acontecendo. “Tem muito buraco no trecho entre Guarapuava e Cascavel. Quase todas as manilhas estão chegando quebradas”, explicou Lourival.
Em resumo, Compramos e mandamos para Cascavel 2 mil dutos DM-4, e aplicamos mil e quatrocentos. Seiscentas unidades quebraram no transporte. O custo da obra praticamente dobrou!
Fiquei sabendo que uma companhia telefônica que operava na região do ABC paulista tinha começado a usar dutos de PVC. Tratei de acionar os meus contatos e consegui uma visita.
Descobri que uma barra de 6 metros de PVC equivalia a um DM-6 ou a 1,5 DM-4, com um décimo do peso. O preço do quilo de resinas plásticas na época era muito mais caro do que nos dias de hoje, mas as vantagens eram muitas.
Por exemplo, um trecho de 120 metros de canalização DM exigia 120 embolsamentos feitos dentro da vala. Os mesmos 120 metros realizados com PVC exigiam apenas 24 conexões, feitas com cola e fora da vala, pois só depois de emendados, os dutos eram colocados na vala, que podiam ser mais estreitas. Bastavam 40 centímetros, o que representava 20% de economia nos custos de escavação, fechamento e repavimentação.
De volta a Curitiba, lembrei que um colega meu de curso, que havia se formado engenheiro civil, estava trabalhando na Tigre. Combinamos realizar uma construção experimental com a participação daquele fabricante. A Tigre possuía uma frota de caminhões para transportar seus produtos.
Para minimizar custo com transporte, a parede dos dutos teve sua espessura diminuída. Também decidimos usar dutos com 100 mm e com 75 mm. Dutos de 100 mm para receber cabos com capacidade acima de 600 pares. Dutos de 75 mm para cabos abaixo de 600 pares. Estimávamos que as quantidades em metros se dividiriam mais ou menos ao meio, o que se confirmou na prática.
Como o volume máximo de carga sempre era atingido antes do limite de peso, A Tigre carregava primeiro os dutos de 100 mm. Os dutos de 75 mm viajavam dentro dos dutos de 100 mm. Na maioria das obras de canalização subterrânea implantadas no interior, um único caminhão passou a transportar todos os dutos necessários.
Para evitar que a pequena espessura resultasse em amassamentos durante a compactação, decidimos tamponar as pontas dos dutos e pressurizá-los durante a obra. A construção experimental foi implantada em Pato Branco e correu tudo tão bem que a Telepar tratou de padronizar de dutos de PVC em todas as suas canalizações subterrâneas. Com o tempo, o preço do PVC baixou e a espessura dos tubos foi aumentada até um valor entendido como sendo de segurança e acabou a necessidade de pressurizar durante a obra.
O uso de dutos de grês ficou restrito serviços de reparo de linhas existentes. É claro que tivemos que enfrentar alguns problemas criados pelos fabricantes de dutos DM. Mas, esta é outra história.
Já faz pelo menos duas décadas que dutos de PVC não são mais usados em canalizações de telecomunicações. De lá para cá tem sido usados dutos de polietileno e de polipropileno. Eles possuem a vantagem de ser flexíveis. Eles são entregues em bobinas com centenas de metros. Ninguém mais fala mais em “barras” de dutos.
Há dutos lisos e corrugados. Dutos singelos e múltiplos. Para facilitar a identificação, os tubos são numerados ou coloridos. A única desvantagem que o polietileno e o polipropileno apresentam com relação ao PVC está no fato de não poderem ser colados: Exigem conexões mecânicas que muitos empreiteiros insistem em não usar.
No exato momento, está chegando uma nova família de dutos no Brasil. Tratam-se de micro dutos, com diâmetros entre 04 mm e 15 mm, destinados a receber micro cabos ópticos. Micro cabos não podem ser tracionados. Precisam ser lançados por sopramento. Esta técnica será coberta em outra oportunidade!