UM COFRE NO JARDIM

22/06/2016

CofreNo jardim da Prefeitura de Regeneração PI descansa um cofre. Está deitado de lado, fundo encostado na mureta que faz divisa com a rua e suas pesadas portas estão voltadas para o jardim, numa pose parecida com alguém que dorme. Se estivesse de costas, eu diria que estava morto!

Pela aparência, está ali há anos, debaixo de uma árvore que para mim é uma figueira, mas, não tenho certeza disso. Conhecimentos de botânica nunca foram o meu forte.

Sua impávida presença é tão antiga que pessoas da cidade e funcionários da prefeitura já não lhe prestam atenção. Apenas forasteiros como eu devem achar estranho ele estar ali esquecido, num lugar tão visível, a poucos metros da porta de entrada da prefeitura.

Cheguei pouco antes das 8 da manhã. Quando viajo, gosto de começar o dia de trabalho sempre bem cedo. O tempo precisa ser bem aproveitado e sempre surgem imprevistos e coisas novas a serem feitas, das quais não me lembrei no momento de planejar a viagem.

O expediente de trabalho oficial nas prefeituras das pequenas cidades do nordeste do Brasil é das sete e trinta às treze e trinta. Na prática, das oito ao meio-dia. Quando vai chegando a hora do almoço o pessoal começa a debandar. Cada um vai cuidar de sua vida e de seus interesses em outro lugar.

Num primeiro momento pode parecer um abuso, mas, considerando a paga modesta, o pouco que se tem para fazer e o calor escaldante das tardes, o expediente matutino bem que se justifica…

Não encontrei o funcionário que estava procurando e dele ninguém soube me dar notícias. Decidi esperar. Para matar o tempo, puxei papo com um funcionário que me olhava de longa, curioso. Naquelas plagas sempre pensam que sou estrangeiro e alguns ficam espantados quando descobrem que falo português. Perguntei se ele se sabia porque aquele cofre estava ali, há quanto tempo, e qual seria seu destino.

Meu novo amigo não sabia responder nada sobre isto, mas, em compensação, me contou a história do cofre, que era interessantíssima.

O cofre foi doado à prefeitura por um Banco a instituição fechou a agência local. Na época em que isto ocorreu, já devia ser mais barato comprar um cofre novo para outra agência do que transportar um cofre antigo e pesado como aquele para outra cidade.

Como prefeitura quase nunca tem dinheiro em caixa, passaram a guardar documentos importantes dentro dele. Certo dia, um funcionário descuidado alterou inadvertidamente o segredo da fechadura e não conseguiu mais abrir o cofre. Muitos funcionários tentaram abri-lo e ninguém conseguiu.

Decidiram chamar o faz tudo da cidade, homem rude, mas muito bom no que fazia. Quando ele chegou, ninguém se preocupou em perguntar o preço do serviço. Em parte, porque achavam que seria apenas mais uma tentativa frustrada. Mexe daqui, cutuca dali, dez minutos depois o cofre estava aberto!

Na hora que a secretária da prefeitura perguntou o preço, levou um susto!

“São cem reais”, disse o homem, tratando de garantir a féria do dia, pois já eram de vacas magras os dias daqueles tempos.

“Cem reais por dez minutos de serviço? Você pensa que eu sou boba? Dou vinte e cinco e estamos conversados”!

O homem voltou ligeiro até o cofre e tornou a fechá-lo. “Se você acha caro o meu serviço, procure outro que abra”. Disse isso e foi embora.

Passaram-se semanas. Dezenas de pessoas foram chamadas e nada do cofre abrir. Esgotadas todas as possibilidades, a secretária chamou de volta o faz tudo.

“Pode abrir o cofre, decidi pagar os cem reais que você me pediu”, disse ela.

“O preço agora aumentou” disse o homem. “Agora, eu quero duzentos”!

Dito e feito, foi o que aconteceu…

Nos dias de hoje, vazio e esquecido, o cofre não vale mais nada. Transformou-se num estorvo. Seu preço, se for vendido por quilo, não remunera sequer o custo do transporte até o sucateiro da cidade vizinha.

Fazendo uma analogia entre a história desse cofre e a das pessoas, podemos concluir que valemos pelo nosso conteúdo. Não adianta ser forte, pesado e robusto.

A secretária da prefeitura deve ter também ter aprendido que um bom profissional não ganha fama por acaso. Bom conceito se conquista. Bons profissionais são como os bons vinho: Não importa a aparência do rótulo, o conteúdo fica cada vez melhor com o passar do tempo.

Quando temos pressa e precisamos garantir resultados, devemos confiar a missão a um profissional idôneo e experiente.

“O barato sai caro”, diz o ditado popular. Recomeçamos do zero e pagamos dobrado.

Um comentário em “UM COFRE NO JARDIM”

  1. Adorei. Foi no Piaui mas parece caso de Minas Gerais. É o valor da experiência e do conhecimento que, parafraseando recente propaganda, “não tem preço”.

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