
Meu colega e amigo dos tempos de Telesp Antônio José Alves Macedo, também conhecido como Ajam, enviou esta foto para mim e ela me fez lembrar de detalhes que pouca gente conhece nos dias de hoje.
Antes do AutoCad e de outros recursos de desenho digitais, os projetos eram desenhados. Todo escritório de projeto precisava dispor de desenhistas bons e muito bem treinados.
No caso da Telesp, os projetos eram elaborados em 3 seções de projeto especializadas: Dutos, Redes externas e Redes Internas.
Os desenhos eram feitos usando papel vegetal (semitransparente), nos formatos A1 e A0 – ABNT.
Os desenhos eram feitos usando lapiseiras de grafite macio, pois eram modificados após a execução.
Usando cópias em papel, atualizadas em campo, os desenhistas elaboravam as plantas de cadastro. Nesse trabalho eram usadas canetas de tinta nanquim, por cima dos traços à lápis. A última etapa constituía em eliminar os traços de lápis, usando solvente especial que dissolvia o carbono e não afetava o papel vegetal.
Na época, a Telesp estava implantando o maior projeto de expansão do mundo: Em resumo, só em São Paulo, 500 cabos subterrâneos de assinantes (1.800 pares de cobre bitola 0,40 mm cada um), 200 cabos troncos de 600 e 900 pares bitola 0,64 mm e cerca de mil quilômetros de canalizações subterrâneas.
Eu gerenciava a Divisão de Projetos (250 pessoas entre engenheiros, projetistas e desenhistas), responsável por projetos de redes na região conhecida na época como Grande São Paulo. Tinha gente que usava escrivaninha, mas a maioria usava pranchetas de grande porte, pois a prancha de desenho tinha formato A0 (84,1 cm x 118,9 cm).
O escritório era enorme: ocupava duas sobrelojas no edifício Copan cada uma com cerca de 2 mil m2. Além das pranchetas, havia dezenas de arquivos de gavetas para guardar os desenhos originais em papel vegetal, que não podiam ser dobrados.
Durante muito tempo, as cópias heliográficas eram feitas por uma gráfica localizada no centro. Mas, o transporte envolvia o risco de molhar com chuva, as cópias demoravam para ser feitas e, para complicar, as cópias heliográficas (feitas em várias vias) voltavam enroladas e os desenhistas gastavam um tempo enorme para dobrar.
Após muito esforço, consegui que a empresa comprasse uma impressora de última geração que usava processo de revelação à seco: o vegetal entrava de um lado e as cópias (sempre mais do que uma) saiam já dobradas, do outro lado.
Acabo de lembrar de outro detalhe: quando assumi o cargo, descobri que era costume antigo 4 pessoas assinarem as plantas: desenhista, chefe do setor, chefe da seção e o chefe da divisão (eu).
Fiz as contas: 700 projetos em andamento, cada um com 40 pranchas em média, num total de 28 mil pranchas sendo desenhadas e o prazo era de 2 anos (480 dias úteis), ou seja, eu iria perder pelo menos 3 horas por dia apenas conferindo e assinando plantas.
Assim, decidi romper uma tradição de 50 anos, que causou polêmica na ocasião: mandei tirar meu nome das plantas e, com isto, passei a usar aquelas 3 horas em atividades de gerenciamento.