COMO FUNCIONAVA A DIVISÃO DE ENGENHARIA DE REDES DA TELESP NOS ANOS 70

Quem me mandou esta foto foi meu colega e amigo dos tempos de Telesp, Antônio José Alves Macedo, também conhecido como Ajam. Ela me fez lembrar de detalhes e fatos que havia esquecido e que pouca gente conhece nos dias de hoje.

Antes do AutoCad e de outros recursos de desenho digitais, os projetos eram desenhados à mão, de forma que todos os escritórios de projeto precisavam dispor de bons desenhistas, que usavam pranchetas.

Minha divisão na Telesp possuia quatro seções de projeto: Dutos, Redes externas, Redes Internas e Cabos Tronco. Os desenhos eram feitos em papel vegetal tamanhos A1 e A0 da ABNT.

Na etapa de projeto, os desenhistas usavam lapiseiras de grafite macio, pois os desenhos sofriam atualizações após a execução.

Numa segunda fase, usando cópias heliográficas atualizadas em campo, eram elaboradas as plantas de cadastro. Nesse trabalho, os desenhistas aplicavam tinta nanquim sobre os traços à lápis.

Finalmente, os traços de lápis eram eliminados com um solvente especial que não afetava o papel vegetal.

Na época, a Telesp estava implantando o maior projeto de expansão do planeta na cidade de São Paulo: 500 cabos de assinantes (1.800 pares de cobre bitola 0,40 mm cada um), 200 cabos troncos (600 e 900 pares bitola 0,64 mm) e cerca de mil quilômetros de canalizações subterrâneas.

A Divisão de Projetos possuia 250 empregados, entre engenheiros, projetistas e desenhistas. Tinha gente que usava escrivaninha, mas a maioria precisava de prancheta de grande porte para trabalhar.

O escritório ocupava duas sobrelojas no edifício Copan, num total de 4 mil m2. Além das pranchetas, havia dezenas de arquivos de gavetas onde eram guardados os desenhos originais em papel vegetal, que não podiam ser dobrados.

Durante muito tempo, as cópias heliográficas eram impressas numa gráfica. O transporte envolvia o risco de molhar com chuva, as cópias demoravam para ser impressas e eram entreguem enroladas (em várias vias): os desenhistas gastavam um tempo enorme dobrando cópias.

Após muito esforço, consegui que a Telesp comprasse uma impressora de última geração que usava processo de revelação à seco: o vegetal entrava de um lado e as cópias saiam do outro, já dobradas.

Outro detalhe interessante: quando assumi o cargo, descobri que era tradição na empresa 4 pessoas assinarem as plantas: desenhista, chefe do setor, chefe da seção e o chefe da divisão (eu).

Como havia 700 projetos em andamento, cada um com 40 pranchas em média, isso representava 28 mil pranchas de desenho que precisaria ser assinadas em 480 dias úteis (2 anos), e eu iria gastar cerca de 3 horas por dia assinando plantas!

Assim, no mês seguinte que assumi a gerência da Divisão de Projetos, rompi uma tradição de 50 anos, que causou polêmica entre os subordinados mais antigos: tirei meu nome das plantas e passei a dedicar as 3 horas que perderia em atividades de gerenciamento.          

CONTROL POINT ANALYSIS

Foto-Gentel-e1469455306798-1024x576No dia 30 de junho de 1973, eu e dois colegas viajamos para os EUA com o objetivo de estudar novas técnicas de projeto e construção de redes, novas ferramentas e novos materiais. A viagem teve duração de 12 semanas. Tínhamos um roteiro bem definido a ser cumprido. Nosso primeiro destino seria a General Telephone of California. Como não havia voos diretos para a costa oeste  naquela época, tivemos que fazer conexão em Nova Iorque.  Partimos de Viracopos bem cedo. Nosso voo deveria chegar em NY por volta de 16 horas, com conexão imediata para Los Angeles. Uma forte tempestade se abateu sobre Nova Iorque e descemos em Philadelphia. Dezenas de voos também foram desviados para lá e o aeroporto congestionou. Ficamos presos no avião durante cinco horas. Era verão e fazia um calor infernal. Acabou água e comida e os banheiros entupiram.

Depois de passar pela imigração e alfândega, estressados e irritados, nos vimos perdidos no saguão do aeroporto. Os dois companheiros, que viajavam para o exterior pela primeira vez, me pediam coisas a todo momento: “Diz isto, fala aquilo”! Descobri que tinha ônibus levando passageiros até Kennedy, mas, a viagem levava umas três horas e ainda chovia. Uma funcionária do balcão de turismo nos orientou a procurar pela United Airlines. Acabei conseguindo um voo que partiria de Philadelphia para Los Angeles às dez da manhã do dia seguinte, que era um domingo.

Dormimos no hotel do aeroporto. Já era quase meia-noite quando finalmente entramos no quarto. Tinha uma cama de solteiro e uma de casal. Os dois reclamaram, mas, fiquei com a cama de solteiro. Afinal, eu havia negociado o quarto. Pedi para nos acordarem às sete. Dava tempo de folga para tomar café e embarcar.

Lá pelas cinco, alguém começou a bater forte na nossa porta. Minha cama ficava no fundo e pedi que um deles tratasse de dispensar o homem. Um de meus colegas que era nissei e, portanto muito bem educado, ao invés bronquear ficava repetindo baixinho, “tankiu, tankiu, tankiu”. O homem acabou percebendo que estava batendo na porta do quarto errado e foi embora. Com o incidente, acabamos não dormindo direito. Parecia que tudo ia dar errado naquela viagem, mas, não deu. Ao contrário disto, foi uma das melhores e mais produtivas missões que realizei no exterior.

O voo da UA decolou às dez e às onze da manhã estávamos em LA: Cinco horas de voo menos quatro de fuso. Pegamos um táxi e rumamos para Santa Mônica, onde ficava a sede da General Telephone of Califórnia. Permanecemos por lá durante seis semanas que valeram por quase uma vida. Nos deram um crachá que dizia “Telesp Contractor” e fomos integrados numa equipe de projeto. Fizemos dezenas de incursões em campo. Vimos e aprendemos muitas coisas novas.

De tudo o que observamos, o ponto alto foi o sistema computadorizado de projetos da GENTEL. Eles dividiam a rede em alimentação e distribuição. A rede de distribuição era projetada de forma muito simples: Os assinantes eram agrupados dentro de “Seções de Serviço” e o dimensionamento de pares era extremamente simples:

  1. Consideravam que todo prédio ou terreno abrigaria clientes. Portanto, todos eram levados em consideração na hora da contagem de pares.
  2. Os imóveis eram separados em classes. Imóvel classe A, 5 pares por domicílio, classe B, 3 pares, e assim por diante.
  3. Não havia nenhuma preocupação em economizar pares já que esta parte da rede era muito curta. O importante era ter sempre pares disponíveis quando surgisse a demanda.

Já a rede alimentadora era objeto de estudos de crescimento de demanda muito acurados, pois nela estava concentrada a maior parte dos investimentos. A rede alimentadora era dividida em segmentos de rede. Cada segmento era determinado por dois Pontos de Controle, um no início e outro no final de cada um deles.

Ponto de Controle era, por definição, um ponto ao longo da rede onde algum cabo era emendado, derivado, ou sofria mudança de bitola ou de capacidade. A quantidade e a evolução de pares defeituosos, ocupados e livres era rigorosamente controlada em cada Ponto de Controle, através de um programa de computador.

O processo era conhecido como Control Point Analysis. Na época, não havia computadores de pequeno porte, de forma que o programa rodava em Main Frame e os resultados eram impressos em formulários contínuos, como os da foto acima.

O responsável pelo projeto era um engenheiro de redes de grande experiência, apaixonado por computação. Em meu relatório, recomendei fortemente a adoção do Control Point Analysis. Um ano depois, o sistema foi implantado. Os projetos de cabos primários da Telesp passaram a levar em conta princípios de engenharia econômica, com horizonte de ocupação de cinco anos. Este programa, além de proporcionar economia para a empresa, melhorou a qualidade de vida dos paulistanos, pois diminuiu consideravelmente a quantidade e a frequências das intervenções que eram feitas na rede. Pouca gente sabe, mas, muitas das intervenções resultavam obrigatoriamente na abertura de valas e buracos em ruas e avenidas da cidade.

Infelizmente, não pude acompanhar de perto os resultados do novo processo. Quando foi implantado, já estava trabalhando na Telebrás.

Roda de medir distâncias

RodaA roda de medir distâncias que aparece na foto acima é parecida com a que eu trouxe de minha histórica viagem aos EUA em 1973. A que veio comigo parecia mais um monociclo. A roda era metálica, possuía raios de roda de bicicleta e o corpo era de aço tubular.

Media as distâncias em pés, unidade de comprimento utilizada nos EUA até hoje. O diâmetro da roda tinha sido calculado de forma tal que quando ela dava uma volta completa, o comprimento percorrido tinha sido uma quantidade exata de pés.

Ao longo do perímetro da roda, rente à banda de rodagem, havia pinos espaçados de um pé um do outro. O garfo da roda era equipado com um conta-golpes. Cada vez que um pino batia na haste do conta-golpes, era adicionado um pé na contagem.

Durante um dos estágios que fiz, interessado em ver como os projetistas americanos trabalhavam, consegui que fosse marcado um determinado dia para que eu pudesse acompanhar um levantamento em campo. Na hora da partida, descobri que iria comigo e outros dois colegas, apenas um projetista.

Ao invés de trena, ele levava uma roda de medir. O cabo era dobrável e o dispositivo cabia numa mochila. Observei o projetista enquanto ele trabalhava e cheguei à conclusão de que se tratava de uma ferramenta sensacional. O projetista manobrava o dispositivo com uma das mãos e levava a pranchetinha de campo na outra. A roda possuía um dispositivo de descanso e parava em pé sempre que o projetista fazia suas anotações e desenhava um croqui na pranchetinha.

Em São Paulo, as equipes de levantamento eram formadas por três projetistas, prática adotada há gerações. Um projetista segurava a ponta da trena na frente, outro segurava na parte de trás e fazia as medidas e o terceiro elemento portava a pranchetinha e ia anotando medidas e desenhando o croqui.

Nem é preciso ser adivinho, para concluir que minha bagagem ficou mais pesada na volta, pois ganhou uma roda de medir distâncias. Não liguei para o fato dela medir em pés. Nem precisei me preocupar com reembolso, pois ela me foi presenteada. De volta em casa, tratei de encontrar quem fabricasse o produto. Acabou aparecendo um fabricante de escadas domésticas e de velocípedes infantis. Um vendedor da empresa veio até o meu escritório, no edifício Copam. Expliquei o que estava querendo. A modificação necessária era simples. Bastava produzir uma roda que, sobre a cinta de borracha maciça que fazia as vezes de pneu, tivesse diâmetro de 31,83 cm, ou seja, um perímetro de 100 cm. Assim, a primeira roda de medir distâncias fabricada no Brasil tinha pinos espaçados de 10 cm. O fabricante exigiu a compra de um lote inicial de 30 unidades. O negócio foi fechado e a roda fabricada nos EUA foi emprestada como modelo. Dois meses depois, a Telesp já tinha rodas de medir.

Mas, este foi o menor dos problemas. É difícil romper hábitos arraigados e não foi fácil fazer os projetistas usarem a ferramenta. Alegavam que o povo caçoava deles nas ruas, que a roda era pesada, que era difícil entrar com ela no ônibus e outras coisas. É claro que o motivo maior estava associado ao fato da ferramenta dissolver os grupos. Também acabava com uma prática de cabulação muito praticada. Saiam em três, mas, só dois iam para campo. Um deles folgava. Mas, a roda tinha uma vantagem indiscutível, possibilitava que a medição de travessias de ruas fosse realizada de uma passada. Nestes casos, a medição com trena envolvia risco de vida.

Como a produtividade mais do que dobrava, a empresa acabou criando vantagens salariais e a resistência inicial foi vencida. Assim como o peixe morre pela boca, o homem vive pelo bolso.

As rodas de medir distâncias estão por aqui há décadas. Hoje não existem mais as barreiras de antigamente, que dificultavam e chegavam a impedir importações. Pesquisei na Internet e verifiquei que há dezenas de tipos e modelos à venda. As rodas substituíram com vantagens as antigas trenas de pano e de aço, mas, a evolução não para. Hoje em dia os projetistas contam com meios modernos, associados à informática. Estão disponíveis recursos que permitem a elaboração esboços de projeto sem que seja necessário deixar o escritório. Há recursos grátis disponíveis na Web. Como exemplos, posso citar Google World e Google Street. Em campo, é muito comum hoje o uso de Tablets. Com ele, o projetista determina o posicionamento do item a ser mapeado e ainda registra detalhes com fotos.

Nem me lembro o fim teve minha roda de medir americana. Ficou comigo por muitos anos, mas,  por ser em pés, nunca foi usada. Deve ter ficado para trás numa das muitas mudanças de casa que fiz na vida.

É bem possível que alguma das 30 rodas do lote inicial, ainda esteja em uso.