DESCASO COM O PATRIMÔNIO PÚBLICO

Fórum CoariEm Coari AM, me deparei com um cenário chocante. Talvez o mais chocante de toda a minha vida, que já não é tão curta. Um edifício moderno e recém construído, saqueado e depredado de todas as formas possíveis.

O prédio é térreo e possui planta retangular com cerca de 800 m² de área construída (40 m x 20 m). A edificação ocupa um belo terreno, quase plano, com 5 mil m² (70 m x 70 m).

Tinha sido construído para abrigar o Fórum da Comarca de Coari e já estava habitado. Mas, uma parte do terreno, que tinha sido aterrado, sofreu acomodação e começaram a surgir trincas em várias paredes. Os ocupantes acharam que a edificação estava ruindo e entraram em pânico.

O edifício abrigava também equipamentos do Projeto Cidades Digitais. Seria o PAG-19 da rede. Tinha um cabo de fibras ópticas que terminava numa área de equipamentos do prédio. Lá havia um rack e, dentro dele, DGO, no-break e roteador de alta velocidade.

Como o endereço fazia parte das inspeções, vi de perto o que está acontecendo. Escrevo acontecendo, porque a ação de destruição continua em andamento.

No momento em que o engenheiro da Secretaria de Justiça do Amazonas assinou um Laudo Técnico condenando a estrutura, o edifício teve sua sorte selada. É oportuno esclarecer que não estou escrevendo por mero e irrefletido palpite. Também não estou questionando os motivos e justificativas que deram suporte ao laudo.  Apenas vejo o problema com outros olhos, baseado no que qualquer um pode ver hoje, dois anos após o prédio ter sido condenado.

Como o forro foi roubado, a estrutura de concreto armado está visível. E nela não se observa uma única trinca. Vigas e lajes estão íntegras. Olhando da rua, o local afetado fica no canto direito, no fundo do prédio. Diria que a área afetada tem cerca de 100 m². A edificação possui 800 m², de modo que a parte onde estão as paredes trincadas corresponde a 12% de sua área. Tratam-se de trincas em paredes em alvenaria de tijolos e é importante observar que elas não fazem parte da estrutura do prédio. São simples fechamentos. Pelo que se pode ver, o prédio não corre o perigo de ruir. Nem hoje, nem daqui a cem anos. Se dependesse de mim, contrataria uma empresa de construção civil reforçar as fundações e trataria de mandar reocupar o prédio o quanto antes!

É claro que o que escrevo precisa ser confirmado, para ver se é economicamente viável reforçar as fundação.

Este caso me fez lembrar de outro parecido, que ocorreu quando eu era gerente do Departamento de Redes do CPqD. O edifício (recém-inaugurado) do Laboratório de Ensaios Pesados começou a ceder. A estrutura era de concreto pré-moldado, possuía 1.200 m² de área e uma altura livre de 10 metros. Cabia um avião dentro dele. O terreno original tinha sido aterrado e o aterro sofreu acomodação. Um dos cantos do prédio cedeu cerca de 10 centímetros. Ao invés de mandar abandonar o prédio às pressas, o CPqD contratou uma empresa especializada neste tipo de problema (que é bastante comum). Com o uso de macacos hidráulicos a estrutura foi recolocada na horizontal e depois as fundações foram reforçadas. Isto aconteceu há 32 anos. Além do custo dos serviços de reforço, nada mais foi gasto. Durante as obras de recuperação, salvo na parte afetada, o edifício continuou funcionando normalmente. Nada foi extraviado, nem se perdeu.

O Laudo que condenou o prédio do Fórum de Coari teve consequências muito piores do que as que poderiam ter sido causadas pelas trincas que o justificaram: Remanejamento, às pressas, de pessoal e de instalações para um prédio alugado, muito menos adequado, depredação e saque do prédio condenado.

E, ao que tudo indica, o assunto já foi esquecido. Fiquei sabendo que durante algum tempo foi mantido serviço de segurança patrimonial. Mas, que este serviço foi descontinuado. Até hoje não foi erguido no local nenhum tapume para evitar, ou dificultar, a entrada de curiosos (possíveis vítimas inocentes) e de pessoas mal intencionadas.

Inexplicavelmente, nenhum equipamento sensível (e caro) foi retirado. Permaneceram por lá até serem roubados ou vandalizados.

O que aconteceu confirma a teoria das vidraças partidas da Universidade de Stanford (Google, “vidraças partidas”): Nenhuma reação por conta de pequenos furtos iniciais. Furtos subsequentes e novamente nenhuma reação. Criou-se uma onda que foi aumentando até não haver mais nada para se roubar. Numa segunda fase, surgiu uma atividade de demolição: portas, janelas, forros, instalações elétricas, instalações hidráulicas, metais e louças sanitárias. Alguém tentou retirar as placas de granito da fachada do prédio e desistiu porque este está muito bem colado. Mas, ficaram as marcas. Falta a última fase, o fogo. Estou certo de que virá, já que existe material combustível no local.

Alguns gatunos de profissão e um incontável número de ladrões oportunistas levaram tudo o que quiseram, sem ser incomodados e o que não puderam levar, destruíram e vandalizaram. É só olhar a foto acima.

De longe, continua sendo um imponente edifício. De perto, uma ruína. Uma edificação que seria um ponto turístico, um orgulho da cidade, foi arrasada.

A quem cabe a culpa? Aos sociopatas e maus cidadãos que roubaram, delapidaram e vandalizaram impiedosamente o patrimônio público?

Ou aos que não tomaram providências? Na minha opinião, de ambos!

Descaso de alguns, benefício para poucos, prejuízo para muitos.

Um acontecimento lamentável que jamais deveria ter ocorrido e que espero nunca mais voltar a testemunhar!

FERRAMENTAS DE UM BOM TÉCNICO DE FIBRAS

Pode-se dizer que a confecção de uma emenda óptica é muito mais simples e exige muito menos mão-de-obra do que uma emenda de cabo multipar.

Entretanto, requer o uso de caixas de emenda que garantam a integridade do serviço durante a vida útil esperada da rede, que é de muitos anos, e de ferramentas e instrumentos especializados.

A emenda de fibras ópticas não admite improvisos.

É muito diferente da emenda de um condutor de cobre, que pode ser feita até mesmo por torcimento, que irá funcionar.

Todo e qualquer profissional que trabalha neste segmento sabe que o investimento a ser feito em veículo, instrumentos e equipamentos especializados facilmente atinge a casa dos 50 mil reais.

Com bastante frequência, tenho observado artífices trabalhando e vejo que eles fizeram quase toda a lição. Investiram nos itens mais caros, mas, deixaram de investir em alguns mais baratos, que são imprescindíveis.

Esses profissionais podem ser comparados a um nadador que atravessou o oceano a nado e morreu na praia!

Estou postando a seguir, uma relação de ferramentas e acessórios que devem compor a caixa de ferramentas de todo artífice de redes ópticas:

CONJUNTO DE ITENS QUE DEVEM CONSTAR DA CAIXA DE FERRAMENTAS DE UM BOM TÉCNICO DE FIBRAS ÓPTICAS:

  1. Maçarico a gás
  2. Soprador térmico
  3. Alicate de corte transversal
  4. Paquímetro
  5. Estilete com lâmina em bom estado
  6. Querosene doméstico para limpeza de tubetes
  7. Álcool isopropílico para limpeza de fibras
  8. Cortador transversal de tubetes
  9. Cortador longitudinal de tubetes
  10. Estopa ou trapo macio
  11. Papel toalha especial para limpeza de fibras
  12. Tubos e mantas termo contráteis de reserva

CUIDADOS REQUERIDOS PELAS FIBRAS

Cabos ópticos precisam ser tratados com cuidado, afinal fibras óticas são feitas de vidro e vidro não suporta:Tensões nocivas

FIBRAS ÓPTICAS SÃO TAMBÉM SENSÍVEIS A ÁGUA E UMIDADE

Existe uma crença de que fibras ópticas são imunes à água. Isto não é verdade!

A presença de água afeta a transmissão e diminui a vida útil das fibras. A médio prazo, a atenuação aumenta e as fibras se fragilizam e partem.

Quanto tempo esta emenda vai durar?Gambiarra

 Caixa de emenda pendurada e sem vedaçãoCoisa errada 2

Mais cabo sem vedaçãoCoisa errada 1

COMO DEVE SER UM LATERAL

Lateral correto

CORTE ESQUEMÁTICO DE UM LATERAL BEM CONSTRUÍDO

Luva de redução

A luva de redução é uma peça imprescindível na interface entre a curva rígida ligada à canalização subterrânea e o cano lateral. Quando uma destas não é usada, a infraestrutura não tem durabilidade e o resultado pode ser mostrado nas fotos abaixo:

Cano fino enfiado num cano grosso Transicao errada 1

Aqui provavelmente já teve alguma conexãoTransicao errada 2

Duto de PVC 50 mm (esgoto) enfiado duto de PVC 100 mm (esgoto)Transicao errada 3

Cano lateral terminando em duto de PVC (esgoto) embolsado com cimento Transicao errada 5

Uma verdadeira coleção de coisas erradas!Transicao errada 4

ANCORAGEM DE CABOS AÉREOS

15 graus

POSTE ONDE DEVERIAM TER SIDO INSTALADAS PEÇAS DE ANCORAGEM

na instalação de cabos ópticos aéreos autossustentados existem poucas regras. Elas são simples, mas, precisam ser rigorosamente observadas .

Existem apenas dois tipos de dispositivos a serem usados: Apoios e ancoragens. Mesmo sendo uma escolha em duas, com muita frequência vejo situações como a da foto, tirada em uma de minhas auditorias. É preciso observar que este não é um cabo da RNP, para quem presto serviços. Pertence a uma concessionária.

Uma peça de apoio, como o próprio nome diz, apoia o cabo, impedindo que ele caia no chão. Segura, mas, não oferece resistência ao escorregamento do cabo. A ideia é garantir que a força de tensão aplicada no cabo não seja transferida para o poste. Quando se usa uma peça de apoio, o poste suporta apenas o peso do cabo.

Ao contrário de uma peça de apoio, uma ancoragem, além de suportar o peso do cabo, absorve a tensão nele aplicada. A ancoragem, obviamente, transfere esse esforço para o poste.

Para evitar qualquer tipo de dano, a primeira recomendação é que o cabo autossustentado seja sempre puxado manualmente. O tensionamento final deve ser feito com catraca manual, nunca elétrica ou hidráulica. O controle de tensão deve ser feito com dinamômetro. Se não houver dinamômetro deve ser deixada uma flecha equivalente a 1% do comprimento do vão.

O primeiro e o último poste precisam ser sempre equipados com âncoras. Por razões óbvias, nunca com apoios!

ÂNCORA PRÉ-FORMADAAncora pre formada

 ESTICADOR BIPARTIDO “RATINHO”

Esticador  na posição fechadaEsticador fechado

Esticador ainda sem o caboEsticador aberto

Em trechos retos, a distância recomendada entre dois postes de ancoragem é de 200 metros, ou cinco lances. A razão principal desta recomendação é limitar a extensão de cabo que pode escorregar e criar situação de perigo em caso de rompimento.

Finalmente, é importante observar que postes onde o cabo sofre deflexão igual ou superior a 15 graus (na horizontal ou na vertical) devem ser equipados com ancoragens. Quando esta regra não é observada, a capa do cabo fica comprimida contra a parede da peça de apoio e corre o risco de se deformar. Além disso, caso haja um rompimento e o cabo escorregue, pode rasgar nesse ponto. Em situações como a da foto, as fibras ópticas do cabo acabam sendo comprimidas. Ou se rompem, ou apresentam aumentos significantes de atenuação.

Peça de apoio

Este é um tipo muito comum de peça de apoio, conhecida também como “dielétrico”, por ser feita com material isolante.

Torcimento

Quando se faz uma ancoragem, é importantíssimo verificar se o cabo não apresenta torcimento, como aparece na foto. Se o cabo estiver torcido, o serviço precisa ser refeito. Torcimentos de capa também podem ser transferidos para as fibras.

Projeto RedeComep

INSPEÇÕES FINAIS REALIZADAS PARA A RNP, EM ORDEM ALFABÉTICA

  1. Aracaju SE
  2. Boa Vista RR
  3. Brasília DF
  4. Campina Grande PB
  5. Campinas SP
  6. Campo Grande MS
  7. Curitiba PR
  8. Fortaleza CE
  9. Goiânia GO
  10. João Pessoa PB
  11. Macapá AP
  12. Maceió AL
  13. Manaus AM
  14. Marabá PA
  15. Niterói RJ
  16. Palmas TO
  17. Petrolina PE
  18. Petrópolis RJ
  19. Porto Alegre RS
  20. Recife PE
  21. Rio Branco AC
  22. Rio de Janeiro RJ
  23. Santarém PA
  24. São Carlos SP
  25. São Luís MA
  26. Teresina PI

 

RedeComep 10 anos

Placa 10 anos

Carta enviada aos colegas da RNP no dia 25 de agosto de 2015, sobre a cerimônia de comemoração dos 10 anos do projeto RedeComep:

RedeComep 10 anos

Campinas, 25/08/2015

Na última segunda-feira fui homenageado pela RNP por ter participado da iniciativa RedeComep durante seus dez anos de existência.

Quando recebi o email do Takashi me convidando para participar das festividades dos 10 anos no dia 24, desconfiei que iria receber algum tipo de homenagem. Mas, nem me passou pela cabeça (santa inocência) que teria que me dirigir à plateia na ocasião, caso viesse mesmo a ser homenageado.

Falei de improviso e estou incomodado até hoje por ter deixado de mencionar alguns fatos importantes que o grupo de engenharia precisa saber.

Como ficou dito e redito, nos últimos dez anos tive o privilégio de participar deste importante projeto. Hoje ainda existem diversos problemas de ordem operacional a serem resolvidos, mas, quando tudo começou, havia dúvidas até mesmo sobre o acerto da própria iniciativa.

Ao longo dos anos, as dúvidas desapareceram e hoje acho que ninguém duvida que a RedeComep chegou para fazer história.

Devido ao seu sucesso indiscutível, tornou-se paradigma para iniciativas mais abrangentes, como o Projeto Cidades Digitais do MC e outras redes que estão surgindo por este Brasil afora, por iniciativa de Estados e Municípios.

Mas, retornando à sessão solene, caso tivesse organizado melhor meus pensamentos, teria dito que o sucesso da iniciativa se deve a quatro fatores básicos:

  1. Firme determinação da diretoria da RNP em levar o projeto adiante;
  2. Modelo de gestão baseado na capacidade empreendedora das comunidades locais;
  3. Conjunto de Normas técnicas simples e racionais;
  4. Diligente trabalho realizado pela equipe da engenharia ao longo destes dez anos,

Teria sido oportuno mencionar aos presentes a dedicação de Cybelle e Celso nos primeiros e decisivos meses, e que os dois contribuíram, e muito, para o aprimoramento e complementação dos documentos e tabelas que Sílvio Lopes e eu minutamos quando as redes nem existiam.

Deveria ter citado nominalmente cada um dos elementos que hoje fazem parte do seleto grupo da engenharia e que vieram agregando valor ao longo dos anos. Em ordem alfabética: Dalila, Douglas, Helmann, Marco, Oswaldo e Rodrygo. Parabéns a eles, que me acompanham nas incursões pelo Brasil, e que aguentam estoicamente as mesmas piadas e as histórias de sempre. 

Para completar, deveria ter mencionado Aquino e Juan, consultores como eu, que vieram depois, mas, que também labutaram bastante e, melhor do que tudo, são hoje meus grandes amigos.

Finalmente, deveria ter-me dirigido, sem mencionar nomes, aos membros de comitês gestores e técnicos, coordenadores e colaboradores de Pops, que estão se revezando para “carregar o andor”, muitas vezes sem estrutura e sem recursos suficientes para esta missão.  

Considerem, portanto, que a placa que recebi também é de vocês!

Parabéns a todos nós!

J C Fanton

 

 

PORQUE ESTUDEI EM CURITIBA

Kombi luxo 1964Não achei na Internet uma Kombi luxo saia e blusa ano 1963 da mesma cor da que me levou para Curitiba no dia 2 de janeiro de 1964, que era branca e cinza.

Meu futuro foi selado na véspera. Minha namorada da época estava passando as festas de final de ano com os pais na Colônia de Ferias do SESC em Bertioga. Como não tinha nenhum programa melhor para fazer na noite do dia 31, decidi sair de casa para arejar um pouco a cabeça.

Eu morava com meus pais num sobrado no centro de Botucatu e fui andando até o cine Casino (só um s mesmo) para ver se encontrava algum amigo na saída da primeira seção.

Eram exatamente nove horas da noite quando atravessei a rua Amando de Barros, na esquina do Bosque. Se eu tivesse atravessado a rua um minuto antes, ou um minuto depois, não teria sido visto pelo motorista de uma Kombi que vinha passando e não teria estudado em Curitiba!

O motorista era Antônio Carlos Menegon (Caicai) e o passageiro era seu irmão José Roberto Menegon (Beto). Quando Caicai me viu, brecou e me chamou.

Havíamos acabado de concluir científico. No ano anterior eu havia sido eleito presidente do Grêmio Estudantil 16 de Maio do Instituto de Educação Cardoso de Almeida. Aulas das 7:20 às 12:30 de segunda a sábado e à tarde, ajudava meu pai em seu modesto armazém de secos e molhados.

Em 1963, tinha andado tão ocupado que mal achava tempo para comer. Com 18 anos e 1,80 m, pesava apenas 67 quilos. Era um varapau e, por conta das atividades do Grêmio faltei muits aulas. Congressos, encontros, palestras, reforma dos instrumentos da fanfarra do IECA e outras atividades haviam consumido meu tempo e eu não me sentia preparado para o vestibular. Para complicar, tinha me alistado para fazer o Tiro de Guerra, que começaria em março de 1964.

Trocamos desejos de Feliz Ano Novo, conversamos sobre o filme que estava passando no Cine Casino, sobre quem estava paquerando quem e coisas assim. A conversa rumou para o vestibular e comentei ter tirado da cabeça a ideia de prestar vestibular naquele ano: além de não estar bem preparado, teria que servir a Pátria. Vestibular para mim, só em 1965.

Caicai comentou que se eu fizesse o vestibular (e passasse), o problema do Tiro de Guerra estaria resolvido. Me contou que uma lei recente, de autoria do Senador Auro Moura Andrade, estabelecia que estudantes cursando nível superior seriam incluídos no excesso de contingente das forças armadas.

Em seguida, também me contou que estavam indo até um posto de gasolina para completar o tanque, conferir o nível do óleo e calibrar os pneus, pois partiriam para Curitiba naquela madrugada. Caicai ia se inscrever para prestar vestibulares em medicina e beto no vestibular de engenharia.

Fiquei curioso e perguntei se a escola de engenharia era do governo e ele disse que sim. Além deles, estavam indo na Kombi três amigos que estudavam em outras escolas. Fiquei sabendo que o motorista seria um policial amigo do pai deles, que estaria de folga no início da semana.

Senti uma vontade de ir com eles, nem tanto pelo vestibular, queria mesmo era passear. Perguntei se não caberia mais um na Kombi. “Cabe sim, desde que você ajude no racha da gasolina”.

Pedi que dessem umas voltas e corri de volta até minha casa. Fui num pé e voltei no outro. Sim, meu pai havia concordado que eu fosse com eles para Curitiba. Às quatro horas da madrugada estávamos na estrada, 450 Km pela frente, 300 Km de asfalto e 150 Km de terra. Entramos em Curitiba às três da tarde, cansados e animados.

O motorista estacionou a Kombi na Rua Amintas de Barros, bem na frente da faculdade de Filosofia. Tarde ensolarada e quente (fato que depois descobri ser raro na cidade), garotas loiras que achei lindas, por todo lado . Naquele momento, comecei a querer estudar em Curitiba.

Pernoitamos na pensão Amália na Rua José Loureiro, onde hoje existe um templo da Igreja Internacional do Reino de Deus. Ocupamos dois quartos: um grande com cinco camas, outro menor com duas camas.

Na manhã seguinte, beto e eu descobrimos como chegar na escola de engenharia: era só pegar o ônibus da linha Jardim das Américas, bairro onde se localizava o recém-inaugurado Centro Politécnico da UFPR. O ponto inicial ficava a 3 quadras da Praça Carlos Gomes, a três quadras da pensão.

Ao desembarcar, ficamos deslumbrados. O conjunto de prédios era impressionante e tinia de novo. No caminho até a secretaria, entramos numa sala de aula que estava com a porta aberta. Carteiras marca Cimo novinhas, lousas verdes sem nem um furinho, iluminação perfeita e janelas amplas com brises horizontais externos que impediam que o sol batesse direto nas carteiras. Decidi que ia estudar em Curitiba!

Fomos até a secretaria. Tinha uma pequena fila, mas, logo chegou a nossa vez. Fui atendido por uma senhora que depois fiquei sabendo ser a Secretária do Diretor da escola, Jorge Ralf Leitner. Ela me pediu o RG, Certificado de Conclusão do Colegial e Histórico Escolar.

Levei um susto, pois tinha levado só o RG, e Beto também. Ao saber de nossa dificuldade, a secretária tentou nos acalmar: “As inscrições vão até sexta-feira, dá tempo para vocês providenciarem tudo”.

Não havia chance disso poder acontecer: um dia para voltar a Botucatu, dois dias para conseguir os documentos, outro dia para regressar a Curitiba, adeus vestibular!

Começamos a nos lamentar em voz alta que estávamos perdendo a chance de estudar naquela maravilhosa escola e de morar numa cidade onde tinha tanta moça bonita! Foi o que bastou para amolecer o coração da mulher que, usando de sua autoridade, sentenciou: “Gostei de vocês e quero que os dois venham estudar aqui. Vou aceitar as inscrições em caráter condicional”. Como o vestibular começaria no dia 16 de janeiro, prometemos entregar os documentos faltantes até o dia 12.

Naquela tarde, iniciamos a viagem de volta. Decidimos retornar pela BR-2 (atual BR 116). Trajeto um pouco maior, porém, totalmente pavimentado. Quando a noite caiu, não estávamos nem no meio do percurso. Baixou uma névoa espessa e a gente não enxergava mais nada. Não tivemos alternativa senão parar e dormir. Como a grana tinha acabado, dormimos na Kombi. Dois em cada banco e eu em cima do motor. O lugar estava infestado de pernilongos. Quando clareou o dia, acordamos doloridos e cheios de picadas. Tomamos café com leite e comemos um pão com manteiga num posto de beira de estrada e tocamos até Juquiá, onde deixamos a BR-2 e seguimos rumo a Sorocaba. Cem quilômetros de serra, curvas intermináveis, 30 Km por hora. A  Depois de Sorocaba, passamos por Tietê, Laranjal Paulista e Conchas, pois a rodovia castelo Branco ainda não existia. Ás duas da tarde, estava de volta em casa e matei a fome de quase dois dias. Como estava boa a comida requentada da minha mãe!

No dia 12 de janeiro meus documentos estavam nas mãos da secretária da escola.

Na segunda viagem fui de ônibus. Havia ônibus de São Paulo para Curitiba a partir de 22 horas. Na primeira viagem peguei ônibus nesse horário e descobri que não era bom chegar muito cedo em Curitiba. Ao longo das incontáveis viagens fiz nos anos que estudei em Curitiba, aperfeiçoei o processo. Saia de Botucatu às duas da tarde, chegava na rodoviária velha de São Paulo às 19 horas, jantava, ia à pé até a Avenida São João, assistia um filme num dos muitos cinemas que existiam por lá e retornava a tempo de pegar o ônibus da meia-noite. Às sete da manhã estava em Curitiba.

Prestei os exames: 5 ônibus da UFPR partiam às 7 da manhã da frente do Teatro Guaíra com destino ao Centro Politécnico e regressavam de lá ao meio-dia.

Foram 5 manhãs de provas, português, física, Química, Matemática e Desenho. Não havia teste de múltipla escolha. Era tudo na base da escrita e da conta. No ônibus, regressando para o centro da cidade, ouvia os comentários dos colegas sobre as questões ia ficando cada vez mais apreensivo, pois, invariavelmente, tinham dado respostas diferentes das minhas.

Na sexta-feira, ficamos sabendo que os resultados seriam publicados num jornal, durante o carnaval. Na terça-feira à tarde, no meio da folia, um dos colegas da Kombi entrou na quadra do Botucatu Tênis Clube, trazendo na mão um telegrama. Pulando e dançando, veio na minha direção. No telegrama, enviado por um amigo que estudava em Curitiba, estava escrito: Só o Fanton passou no vestibular!.

Até hoje, tenho uma dúvida: foi uma séria de felizes coincidências,? ou contei com a ajuda do meu Anjo da Guarda? 

UMA HISTÓRIA PARA PESCADOR NENHUM BOTAR DEFEITO!

RelógioEm agosto de 1975 viajei para Japão e Austrália. Os dois países possuíam programas de substituição do cobre pelo alumínio em cabos telefônicos. O governo brasileiro tinha estabelecido uma Política de substituição de insumos. O Brasil possuía imensas reservas de bauxita, nenhuma reserva significativa de cobre.

Na época, os cartões de crédito emitidos no Brasil vinham com uma tarja que dizia “valid only in Brasil”. Para pagar despesas com hotéis, refeições e outras coisas, a gente se valia de dólares americanos e de “travelers checks”.

Novidades tecnológicas no Brasil eram raras e caras. Pelas ruas de Tóquio, havia uma tentação atrás de outra. Uma profusão de produtos despertava o meu interesse. Preços inacreditáveis. Tudo exposto em vitrines de lojas e em bancas nas calçadas. Mas, era preciso ser cauteloso. A viagem tinha apenas começado. O dinheiro na carteira e os travelers precisavam durar até o fim. Tinha pela frente a missão na Austrália e o retorno para casa, que incluía duas paradas obrigatórias.

Acabei comprando uma máquina fotográfica Olympus XA2 com flash lateral acoplável que conservo até hoje e um relógio Seiko quase igual ao da foto que baixei da Internet. A única diferença é que o mostrador do meu era azul. Mas, a sensação estava no fato do relógio dar corda com o movimento do braço.

No final do ano, viajei de férias. Saí de Brasília com a família com destino ao litoral de Santa Catarina, com escalas intermediárias. Natal em Botucatu, ano novo em Curitiba. Cheguei em Botucatu com o meu relógio novo no braço faltando poucos dias para o Natal de 1975.

Combinamos uma pescaria em família. Era tradição. Participaram, além de mim, meu pai, meu cunhado Zé Amat e dois primos. A pescaria valia pela companhia e pela farra. A gente foi pescar lambari com vara de bambu e anzol miúdo. A isca era massa de pão. Embora Tietê e Paranapanema passem perto de Botucatu, fomos pescar no Rio das Pedras, no município de Itatinga. Rio bem pequeno, águas limpíssimas, leito encascalhado, era possível ver os peixes!

Logo na chegada, na pressa de jogar o anzol e fisgar um lambari de rabo vermelho antes dos outros, escorreguei e só não caí porque me agarrei a um galho de árvore. Mas, um ramo da bendita árvore enroscou na pulseira do relógio, que se partiu. Lá se foi o meu relógio novo para o fundo do rio.

Sem perda de tempo, tirei sapato, meia, calça e camisa e entrei no rio. Quanto mais me mexia, mais a água sujava. Procurei por um bom tempo e nada de encontrar! Para não acabar com a alegria da pescaria, desisti da busca e dei o relógio por perdido. Só que a história não terminou aí…

Em 1982, me mudei para Campinas e as idas a Botucatu ficaram mais frequentes. Meu cunhado, comerciante, industrial e vereador da cidade, fazia parte de um seleto grupo de amigos, que se reunia religiosamente nas manhãs de sábado para “aperitivar”. O encontro era no bar do Chaillot Hotel e se repetiu por décadas. O aperitivo semanal era famoso pelas histórias e fofocas que por lá circulavam. As esposas odiavam os encontros, não só pelos atrasos para o almoço e pela fala mole dos maridos quando voltavam para casa, mas, porque sabiam que muitas vezes eram o objeto das conversas.

Os anos foram passando e num sábado de 1995 o doutor Lilo, médico pediatra da cidade (não sei o nome dele e pouca gente por lá sabe), chegou muito animado e foi logo contando:

“Pessoal, vocês não vão acreditar, ontem à tarde fui pescar no rio das Pedras. O anzol enroscou e, para não perder linha e chumbada, fui puxando bem devagar.
O enrosco veio vindo, veio vindo, e descobri que era um relógio! A pulseira estava enferrujada, mas, o relógio não. Tirei ele da água, dei uma limpada e umas batidas e não é que ele estava funcionando?”

“Mentiroso, mentiroso”, gritou a turma em coro. Mas, meu cunhado interviu, confirmando a história.

“É verdade, esse relógio era do meu cunhado Joaquim Carlos, estava junto quando ele perdeu”!

É inacreditável como são bons esses relógios japoneses. O meu ficou embaixo d’água por vinte anos e não estragou. Estava funcionando. Sensacional! Penso até que pode ter ficado balançando sob o efeito da corrente de água e ganhando sempre um pouco de corda.

Vocês podem pensar que se trata de mais uma história de pescador, mas, juro que é verdade!

Diariamente, somos bombardeados por imensas e desconhecidas energias. A maior parte vem do sol, outras procedem do mais longínquo cosmos.

Essa energia é distribuída de forma regular, para todos. No caso desta história, um galho submerso pode ter mantido em movimento um mecanismo feito pelo homem.

Quantas coisas mais pode ter feito aquele pequeno pedaço de galho? Só Deus sabe...