PORQUE ESTUDEI EM CURITIBA

Kombi luxo 1964Não consegui achar na Internet uma Kombi luxo saia e blusa ano 1963, da mesma cor da que me levou para Curitiba, que era branca e cinza.

Meu futuro foi selado no dia primeiro de janeiro de 1964. Decidi sair de casa para arejar um pouco a cabeça. A namorada da época estava passando o final de ano com os pais na colônia de férias do SESC em Bertioga e eu não tinha nenhum programa melhor para fazer naquela noite.

Como morava com meus pais num sobrado bem no centro de Botucatu, decidi ir andando até o cine Casino (só um s mesmo) para ver se encontrava algum amigo na saída da primeira seção.

Eram nove horas da noite quando atravessei a rua Amando de Barros, na esquina do Bosque. Nesse exato momento vinha passando a Kombi. Se eu tivesse atravessado um minuto antes, ou um minuto depois, teria seguido meu caminho sem cruzar com dois irmãos, meus colegas de classe, Antônio Carlos Menegon “Caicai” e seu irmão José Roberto Menegon “Beto”. Não teria estudado em Curitiba.

A Kombi vinha devagar, Caicai na direção. Quando me viu, brecou.

Eu havia acabado de concluir científico. No ano anterior havia sido eleito presidente do Grêmio Estudantil 16 de Maio do Instituto de Educação Cardoso de Almeida. Aulas de segunda a sábado, das 7:20 às 12:30. De tarde, ajudava meu pai em seu modesto armazém de secos e molhados. No ano que acabara de acabar, tinha andado tão ocupado que não achava tempo nem para comer. Com 18 anos e 1,80 m, pesava apenas 67 quilos. Era um varapau. Por conta do Grêmio faltei muito às aulas: Congressos, encontros, palestras, a reforma dos instrumentos da fanfarra do IECA e outras atividades tinham consumido meu tempo.  Não me sentia preparado para o vestibular e, para complicar, tinha ainda o Tiro de Guerra. Precisaria me apresentar em março.

Começamos a conversar. Trocamos desejos de Feliz Ano Novo, conversamos sobre o filme que estava passando no Cine Casino, sobre quem-estava-paquerando-quem e coisas assim. A conversa rumou para o vestibular. Comentei ter tirado da cabeça a ideia de prestar vestibular naquele ano. Além de não estar bem preparado, teria que servir a Pátria. Vestibular, só em 1965.

Caicai comentou que se eu fizesse o vestibular (e passasse), o problema do Tiro de Guerra estaria resolvido. Me contou que uma lei recente, de autoria do Senador Auro Moura Andrade, estabelecia que estudantes cursando nível superior poderiam ser incluídos no excesso de contingente das forças armadas.

Fiquei sabendo que os dois estavam indo com a Kombi até o posto de gasolina da Avenida Marechal Floriano para completar o tanque, conferir o nível do óleo e calibrar os pneus, pois partiriam para Curitiba naquela madrugada. Caicai ia se inscrever nos vestibulares de medicina da Federal e da Católica e Beto no vestibular de engenharia.

Fiquei curioso, quis saber mais detalhes. Perguntei se a escola de engenharia era do governo e ele disse que sim. Além deles, estavam indo três amigos que não eram do IECA. Perguntei quem ia dirigir. Seria um tio que trabalhava na polícia e que estaria de folga no começo da semana.

Senti uma vontade danada de ir com eles. Nem tanto pelo vestibular, queria mesmo passear. Perguntei se não caberia mais um na Kombi. “Cabe sim, desde que você ajude no racha da gasolina”, disse ele.

Pedi um tempo para ir até em casa. Fui num pé e voltei no outro. Sim, meu pai havia concordado que eu fosse com eles para Curitiba. Às quatro horas da madrugada já estávamos na estrada, 450 quilômetros pela frente, 300 de asfalto, 150 de terra. Entramos em Curitiba às três da tarde, cansados e animados.

Nosso motorista parou a Kombi na Rua Amintas de Barros, bem na frente da faculdade de Filosofia. Naquele tempo, a mão de trânsito era no sentido da descida. Hoje sobe. A tarde estava ensolarada e quente. Fato que depois descobri ser raro na cidade. Garotas loiras, que achei lindas, por todo lado! Comecei a querer estudar em Curitiba.

Conseguimos um lugar barato para dormir. Pensão Amália na Rua José Loureiro. Um sobrado antigo, demolido há décadas, onde hoje funciona um templo da Igreja Internacional do Reino de Deus. Ocupamos dois quartos. Um grande com cinco camas, outro menor com duas.

Na manhã seguinte, bem cedo, o porteiro da pensão nos ensinou como fazer para chegar na escola de engenharia. Era só pegar o ônibus da linha Jardim das Américas, onde se localizava o recém-inaugurado Centro Politécnico da Universidade. O ponto inicial era na Praça Carlos Gomes, em frente do Posto Garoto e ao lado do prédio da Gazeta do Povo, a três quadras da pensão.

Ao descer do ônibus, ficamos deslumbrados. O conjunto de prédios era impressionante, Estava tudo tinindo de novo. No caminho até a secretaria, entramos numa sala de aula que estava com a porta aberta. Carteiras marca Cimo, novinhas. Lousas verdes sem nem um furinho! Iluminação perfeita. Janelas amplas com brises horizontais externos que impediam que o sol batesse direto nas carteiras. Decidi que ia estudar em Curitiba!

Fomos até a secretaria. Tinha uma pequena fila, mas, logo chegou a nossa vez. Fui atendido por uma senhora que depois fiquei sabendo ser a Secretária do Diretor da escola, Jorge Ralf Leitner. “RG, Certificado de Conclusão do Colegial e Histórico Escolar, por favor”, disse ela.

Levei um susto, tinha trazido comigo só o RG. Na pressa, nem me lembrei de detalhes e formalidades. Beto também só tinha a identidade. Ao saber de nossas dificuldades, a secretária disse gentilmente: “Não tem importância. As inscrições só se encerram na sexta-feira. Dá tempo de vocês providenciarem tudo”.

Não havia chance alguma disto acontecer. Um dia perdido para voltar até Botucatu, outros dois para conseguir os documentos, mais um para regressar a Curitiba. Adeus vestibular. Começamos a nos lamentar ali mesmo. Comentamos que estávamos perdendo a chance de estudar naquela maravilhosa escola e de morar numa cidade onde tinha tanta moça bonita! Foi o que bastou para amolecer o coração da mulher que, usando de sua autoridade, sentenciou: “Gostei de vocês. Quero que os dois venham estudar aqui. Vou aceitar as inscrições em caráter condicional”.

Como o vestibular começaria no dia 16, combinamos de trazer os documentos requeridos até o dia 12. Com isto, ganhamos uma semana.

Na tarde daquele mesmo dia iniciamos a viagem de volta. Decidimos retornar pela BR-2 (atual BR 116). Trajeto mais longo, porém, totalmente pavimentado. Quando a noite caiu, não estávamos nem no meio do percurso. Baixou uma névoa espessa e a gente não enxergava mais nada na estrada. Não tivemos alternativa senão parar e dormir. A grana tinha acabado e dormimos na Kombi. Dois em cada banco e eu em cima do motor. O lugar estava infestado de pernilongos. Quando começou a clarear, acordamos doloridos e cheios de picadas. Tomamos café com leite e comemos um pão com manteiga num posto de beira de estrada e tocamos até Juquiá, onde deixamos a BR-2. Seguimos por uma estrada que ia na direção de Sorocaba. Cem quilômetros em trecho de serra. Curvas intermináveis. Não dava para ir a mais de 30 por hora. A Rodovia Castelo Branco ainda não existia. Depois de Sorocaba, passamos por Tietê, Laranjal Paulista e Conchas. Por volta de duas da tarde estava em casa e pude matar a fome de quase dois dias. Como estava boa a comida requentada da minha mãe!

No dia 12 de janeiro meus documentos estavam nas mãos da secretária da escola. A segunda viagem foi de ônibus. Havia ônibus de São Paulo para Curitiba a partir de 22 horas. Na primeira viagem peguei esse. Descobri que não era nada bom chegar muito cedo em Curitiba. Ao longo das incontáveis viagens que acabei fazendo, aperfeiçoei o processo. Saia de Botucatu às duas da tarde e às sete da noite estava na rodoviária velha de São Paulo. Dava tempo de jantar, andar até a Avenida São João, assistir um filme num dos cinemas que havia por lá e retornar a tempo de pegar o ônibus da meia-noite. Às sete da manhã estava em Curitiba.

Prestei os exames. Cinco ônibus pintados de azul e branco pertencentes à Universidade partiam da frente do Teatro Guaíra as sete da manhã e nos traziam de volta ao meio-dia. Cinco manhãs de provas: Português, Física, Química, Matemática e Desenho. Não tinha teste de múltipla escolha. Era tudo na base da escrita e da conta. Na volta das provas, ouvia os comentários dos colegas e ia ficando cada vez mais apreensivo. Invariavelmente, tinham dado respostas diferentes das minhas.

Quando acabou a última prova, ficamos sabendo que os resultados sairiam no carnaval. E o carnaval chegou! Eu estava na idade de “pular” de noite e de dia e fazia valer essa prerrogativa. Na terça-feira à tarde, no meio da folia, um dos colegas da Kombi entrou na quadra do Botucatu Tênis Clube. Trazia na mão um telegrama. Me viu, começou a acenar e veio na minha direção.

“Fanton, você foi aprovado no vestibular, está escrito aqui neste telegrama”. Curiosamente, dos seis que viajaram na Kombi, fui o único que passou.

E pensar que tudo isso aconteceu só porque decidi sair de casa para ver quem tinha ido à primeira seção do cinema!

UMA HISTÓRIA PARA PESCADOR NENHUM BOTAR DEFEITO!

RelógioEm agosto de 1975 viajei para Japão e Austrália. Os dois países possuíam programas de substituição do cobre pelo alumínio em cabos telefônicos. O governo brasileiro tinha estabelecido uma Política de substituição de insumos. O Brasil possuía imensas reservas de bauxita, nenhuma reserva significativa de cobre.

Na época, os cartões de crédito emitidos no Brasil vinham com uma tarja que dizia “valid only in Brasil”. Para pagar despesas com hotéis, refeições e outras coisas, a gente se valia de dólares americanos e de “travelers checks”.

Novidades tecnológicas no Brasil eram raras e caras. Pelas ruas de Tóquio, havia uma tentação atrás de outra. Uma profusão de produtos despertava o meu interesse. Preços inacreditáveis. Tudo exposto em vitrines de lojas e em bancas nas calçadas. Mas, era preciso ser cauteloso. A viagem tinha apenas começado. O dinheiro na carteira e os travelers precisavam durar até o fim. Tinha pela frente a missão na Austrália e o retorno para casa, que incluía duas paradas obrigatórias.

Acabei comprando uma máquina fotográfica Olympus XA2 com flash lateral acoplável que conservo até hoje e um relógio Seiko quase igual ao da foto que baixei da Internet. A única diferença é que o mostrador do meu era azul. Mas, a sensação estava no fato do relógio dar corda com o movimento do braço.

No final do ano, viajei de férias. Saí de Brasília com a família com destino ao litoral de Santa Catarina, com escalas intermediárias. Natal em Botucatu, ano novo em Curitiba. Cheguei em Botucatu com o meu relógio novo no braço faltando poucos dias para o Natal de 1975.

Combinamos uma pescaria em família. Era tradição. Participaram, além de mim, meu pai, meu cunhado Zé Amat e dois primos. A pescaria valia pela companhia e pela farra. A gente foi pescar lambari com vara de bambu e anzol miúdo. A isca era massa de pão. Embora Tietê e Paranapanema passem perto de Botucatu, fomos pescar no Rio das Pedras, no município de Itatinga. Rio bem pequeno, águas limpíssimas, leito encascalhado, era possível ver os peixes!

Logo na chegada, na pressa de jogar o anzol e fisgar um lambari de rabo vermelho antes dos outros, escorreguei e só não caí porque me agarrei a um galho de árvore. Mas, um ramo da bendita árvore enroscou na pulseira do relógio, que se partiu. Lá se foi o meu relógio novo para o fundo do rio.

Sem perda de tempo, tirei sapato, meia, calça e camisa e entrei no rio. Quanto mais me mexia, mais a água sujava. Procurei por um bom tempo e nada de encontrar! Para não acabar com a alegria da pescaria, desisti da busca e dei o relógio por perdido. Só que a história não terminou aí…

Em 1982, me mudei para Campinas e as idas a Botucatu ficaram mais frequentes. Meu cunhado, comerciante, industrial e vereador da cidade, fazia parte de um seleto grupo de amigos, que se reunia religiosamente nas manhãs de sábado para “aperitivar”. O encontro era no bar do Chaillot Hotel e se repetiu por décadas. O aperitivo semanal era famoso pelas histórias e fofocas que por lá circulavam. As esposas odiavam os encontros, não só pelos atrasos para o almoço e pela fala mole dos maridos quando voltavam para casa, mas, porque sabiam que muitas vezes eram o objeto das conversas.

Os anos foram passando e num sábado de 1995 o doutor Lilo, médico pediatra da cidade (não sei o nome dele e pouca gente por lá sabe), chegou muito animado e foi logo contando:

“Pessoal, vocês não vão acreditar, ontem à tarde fui pescar no rio das Pedras. O anzol enroscou e, para não perder linha e chumbada, fui puxando bem devagar.
O enrosco veio vindo, veio vindo, e descobri que era um relógio! A pulseira estava enferrujada, mas, o relógio não. Tirei ele da água, dei uma limpada e umas batidas e não é que ele estava funcionando?”

“Mentiroso, mentiroso”, gritou a turma em coro. Mas, meu cunhado interviu, confirmando a história.

“É verdade, esse relógio era do meu cunhado Joaquim Carlos, estava junto quando ele perdeu”!

É inacreditável como são bons esses relógios japoneses. O meu ficou embaixo d’água por vinte anos e não estragou. Estava funcionando. Sensacional! Penso até que pode ter ficado balançando sob o efeito da corrente de água e ganhando sempre um pouco de corda.

Vocês podem pensar que se trata de mais uma história de pescador, mas, juro que é verdade!

Diariamente, somos bombardeados por imensas e desconhecidas energias. A maior parte vem do sol, outras procedem do mais longínquo cosmos.

Essa energia é distribuída de forma regular, para todos. No caso desta história, um galho submerso pode ter mantido em movimento um mecanismo feito pelo homem.

Quantas coisas mais pode ter feito aquele pequeno pedaço de galho? Só Deus sabe...

EQUIPE DE ACEITAÇÃO SÃO JOSÉ DO DIVINO

Equipe CJD 1

Durante os dias 13, 14 e 15 de junho de 2016, trabalhamos na inspeção e aceitação da rede óptica de São José do Divino. Na foto, está a equipe que colaborou para o sucesso do trabalho

Nessa mesma sala ocorreu também um workshop sobre redes de fibras ópticas. Por um grande lapso de nossa parte, deixamos de registrar a turma em foto.

 

JOAQUIM CARLOS FANTON

20160708_171010Comecei a trabalhar para a Telepar, como estagiário, no dia 02 de junho de 1967, faltando um ano e meio para me formar em engenharia. A empresa devia ter uns 50 empregados, entre estes uns 10 engenheiros. Muita coisa a ser feita e pouca gente para fazer. Comecei a gostar de telecomunicações e nunca mais parei!

Inicialmente, me deram projetos para analisar, depois me pediram para elaborar projetos e, em seguida, passei a executá-los. No início de 1968, já viajava pelo interior do estado do Paraná, instalando malhas de aterramento em torres de rádio.

A vida de estagiário não era nada fácil. Os mandantes exigiam perfeição. Caso algo desse errado, a degola era certa. Fazendo tudo certo, tinha cumprido a obrigação!

No decorrer de 1968 a Telepar adquiriu a Companhia Telefônica Nacional, empresa de capital americano que operava telefonia em Curitiba e em outras cinquenta cidades do interior do Paraná.

Após essa aquisição, o organograma da Telepar, que contava com departamentos de comutação, transmissão e infraestrutura, ganhou um novo departamento: Redes.

Abriram uma vaga para estagiário de redes e eu me candidatei. Foi a melhor decisão que tomei na vida. Um novo horizonte se abriu e nunca mais se fechou!

Recebi o Diploma de Engenheiro Eletricista no dia 16 de dezembro de 1968. No dia seguinte minha carteira estava assinada. Fui o empregado de número 104 da Telepar. no cargo constava “Engenheiro”.

Comecei elaborando projetos de redes e seis meses depois fui designado Chefe do Setor de Projeto e Construção de Redes Interior. A palavra “interior” era bem ampla. Com exceção de Curitiba, assumi a responsabilidade de coordenar projeto e construção de redes telefônicas no estado todo, exceto na capital. Em pouco mais de três anos, sob minha coordenação, a Telepar implantou mais de oitenta redes telefônicas. Do litoral até as fronteiras do Paraguai e da Argentina e de São Paulo até Santa Catarina.

Com a experiência adquirida, passei a representar a Telepar em eventos e seminários fora do Estado do Paraná.

Em janeiro de 1970, me mandaram para Estocolmo, onde fiz um curso de especialização em redes telefônicas na LM Ericsson. Quando regressei, fui indicado para presidir três comissões técnicas: Comissão Permanente de Padronização de Materiais, Comissão de Elaboração Plano de Transmissão do Estado do Paraná e Comissão Elaboração do Plano Diretor de Telecomunicações de Curitiba para a década de 70.

Com exceção da Comissão de padronização de Materiais, que se tornou permanente, os trabalhos do Plano de Transmissão e o Plano Diretor de Curitiba chegaram ao final e obtiveram grande êxito.

Em setembro de 1970, participei de um Evento de Redes em São Paulo, onde apresentei o Plano de Transmissão da Telepar. Na mesa diretora do evento, estava Hélio Kestelman, Secretário de Telecomunicações do Minicom. Ele gostou do que viu e decidiu adotar nacionalmente o Plano de Transmissão da Telepar. Com isto, fiquei conhecido no Brasil todo.

Em Novembro de 1971, participei do I Simpósio Nacional de Telecomunicações no Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Durante o evento, fui convidado para ocupar o cargo de Superintendente de Estudos de Rede da CTB em São Paulo, que havia vagado. Tinha 26 anos de idade e 4 anos de formado quando assumi minha nova função: a mais alta posição que um engenheiro de projetos de redes poderia ocupar naquela época.

A oportunidade de crescimento profissional, o aumento salarial e o fato de meus pais morarem no interior do Estado de São Paulo foram decisivos na hora que decidi deixar a Telepar para trás.

Esta foi a segunda mais acertada decisão que fiz na vida. Na CTB (que passou a se chamar Telesp no dia 11 de abril de 1973), vivi uma experiência profissional sem precedentes.

Em média, cada mil assinantes novos exigiam a implantação de uma rota de cabo telefônico. No início de 1972, a rede da cidade estava passando por uma expansão de 180 mil linhas, número que saltou para 400 mil em meados daquele ano.

Assim, passei a coordenar a elaboração de projetos de 580 rotas de cabos de assinantes e 200 rotas de cabos troncos. Na época, era o maior projeto de expansão de redes do mundo!

Ao mesmo tempo, a tecnologia de redes estava evoluindo rapidamente:  novos cabos e novas técnicas de construção estavam sendo usadas nos países mais desenvolvidos. Por este motivo, a diretoria da empresa decidiu enviar alguém para os EUA. E fui o escolhido!

Quando a decisão da viagem foi tomada, meu segundo filho tinha acabado de nascer. Esposa e filhos foram para Botucatu SP e eu fui para os EUA.

Meu primeiro ponto de parada foi a General Telephone of California, Santa Monica CA, eempresa que tinha 4 milhões de assinantes na região metropolitana de Los Angeles, ou seja era dez vezes maior do que a Telesp na época. De lá, fui para Nova Iorque, onde estagiei na New York Tel. Depois para a Centel na Virgínia, sediada numa cidade próxima de Washington DC, depois Chicago e região..

Regressei a São Paulo em outubro, trazendo dezenas de novidades na bagagem e muitas ideias na cabeça! Naquela viagem, descobri que os norte-americanos eram mais ricos e mais desenvolvidos do que nós, não por serem mais capazes, nem mais inteligentes. Mas, porque planejam muito bem, antes de projetar e construir qualquer coisa. Atitude muito diferente do que se fazia no Brasil na época e que, infelizmente, pouco mudou até os dias de hoje!

Assim que voltei, introduzi conceitos de engenharia econômica nos projetos de redes da Telesp, ou seja, as redes começaram a ser dimensionadas pelo horizonte de vida útil dos cabos (20 anos para cabos aéreos e 30 anos para cabos subterrâneos) e não mais com base na quantidade inicial de assinantes. Foi um verdadeiro divisor de águas.

Em em agosto de 1974, a convite da Telebrás, deixei a Telesp e assumi a chefia da Divisão de Redes Externas daquela empresa. Trabalhei durante 5 anos em Brasília, período em que tive a oportunidade de trocar experiências com profissionais dos EUA, França, Itália, Bélgica, Inglaterra, Japão, Canadá, Austrália e de outros países. Também trabalhei com profissionais de alto nível de todo o Brasil.

Em Brasília, a família tornou a aumentar: nasceram um filho e uma filha. Em meados de 1979, a Telebrás me empresou para a Telepar, onde prestei serviços no Depertamento de Planejamento.

Em novembro de 1981, a Telebrás me tranferiu para o CPqD de Campinas SP, com a missão de criar e gerenciar o Departamento de Estudos e Desenvolvimento de Redes.

Em outubro de 1988, decidi que havia chegado a hora de trabalhar para a iniciativa privada. Entre aquele ano e 2002, trabalhei para Cook Electric, Enetele, Pan Engenharia, Stratcom, Nextel e Vésper, ocupando sempre cargos de direção ou de alta gerência.

Em 2003, já aposentado, passei a trabalhar como consultor para CPqD e, em junho de 2005, assinei meu primeiro contrato de consultoria com a RNP, que vem sendo renovado até os dias atuais.

Minhas atividades na RNP abrangem redação de normas, manuais, práticas e especificações, desenvolvimento e estudos para introdução de novas tecnologias, atividades de acompanhamento de obras e serviços, fiscalização, aceitação, auditoria técnica em redes ópticas existentes e cursos de treinamento, onde ensino, desde noções básicas para artíficese,até conhecimentos especializados para pessoal de nível superior.

Minha esposa e companheira, Maria do Rocio Esmanhoto Fanton, me acompanha desde os tempos de namoro, que começou em 1964.

Quando comecei a trabalhar para a RNP, tinha quatro filhos adultos. Nas duas últimas décadas ganhei cinco netos e uma neta.

Posso afirmar, sem medo de errar: estes tem sido os melhores anos de minha vida!

Campinas, junho de 2026.

Joaquim Carlos Fanton

O QUE TENHO FEITO…

Comecei a trabalhar com redes externas de telecomunicações em 1969: projetar redes físicas de telecomunicações que atendam à demanda quando e onde ela surgir, é uma atividade extremaente desafiadora.

Até duas décadas atrás, as redes eram predominantemente metálicas e os sinais por elas transmitidos eram analógicos. Além de caros e de apresentar muitas limitações técnicas, cabos de pares simétricos de cobre eram muito pesados. Quando instalados em postes, podiam ter, no máximo, 200 pares. Com uma ocupação média de 60%, um cabo de 200 pares atendia a 120 assinantes.

Os cabos de fibras ópticas começaram a ser instalados no Brasil na década de 80. Form usados inicialmente no entroncamento de centrais telefônicas, depois, passaram a ser aplicados em redes de distribuição.

Já faz mais de 20 anos que concessionárias e provedoras de banda larga deixaram de usar cabos de pares metálicos. As únicas excessões são os cabos internos das chamadas redes estruturadas

Comecei a trabalhar com cabos de fibras ópticas em 1982, no exato momento em que eles foram introduzidos no Brasil, quando era gerenciava o Departamento de Redes do  CPqD.

Entre outras atividades, participei do projeto ECO-I, que constituiu na instalação de um cabo tronco óptico entre a Estação Telefônica de Irajá (pertencente à antiga Cetel) e uma Estação da TELERJ, localizada na zona norte da cidade do Rio de Janeiro.

Permaneci no CPqD até outubro de 1988, ocasião em que me transferi para a iniciativa privada.

Trabalhei para indústrias e empresas de serviços até 1999. Naquele ano, em decorrência da abertura do mercado para a iniciativa privada, voltei a trabalhar para operadoras de telecomunicações (Nextel e Vésper).

Quando me aposentei, no final de 2002, decidi continuar trabalhando como consultor. Já se passaram 24 anos e continuo trabalhando exclusivamente com redes de fibras ópticas e meu cliente principal tem sido a RNP.

Para a RNP, realizo serviços de normatização técnica, redijo práticas de projeto, de construção, de aceitação, de manutenção e de auditoria. Oriento, supervisiono e fiscalizo obras e serviços, realizo atividades de auditoria técnica, oriento atividades de planejamento e projeto e dou treinamento.

Depois das primeiras auditorias que realizei em Redes Ópticas da RNP, conclui que a maioria dos problemas encontrados estavam associados a insuficiência gerencial por parte de gestores e ao desconhecimento de boas práticas por parte dos profissionais que trabalhavam diretamente nas redes. Por este motivo, comecei a ministrar cursos, seminários e workshops para profissionais dos mais diversos níveis. De artífices a pessoal de nível superior.

Meus cursos são visam apenas o aperfeiçoamento profissional. São voltados para a motivação de pessoas. Apesar de recente em meu portfólio, este trabalho tem sido sido um dos mais gratificantes que já realizei.

Na Telepar, no início da década de 70, introduzi o conceito de redes de pares flexíveis que possibilitou à empresa aumentar de 60% para 80% a ocupação média de seus cabos. Também coordenei a introdução de materiais e acessórios associados a cabos com isolamento e capa de plástico, entre eles, novas Caixas de Emenda, Terminais de Pronto Acesso e dutos de PVC.

Na Telesp, adotei novos conceitos de projeto e novos métodos de trabalho. Introduzi o Control Point Analysis, Roda de Medir Distâncias, Manual de Redes Internas em prédios, entre outros.

Na Telebrás, coordenei, a nível nacional, a introdução de cabos telefônicos com capa APL, caixas CEV, braçadeiras BAP, conceito de Engenharia Econômica em Redes, pressurização de cabos e outros.

No CPqD, nos anos 80, gerenciei projetos voltados ao desenvolvimento de plásticos e resinas, controle de corrosão, estudos de proteção elétrica, introdução de novos métodos de construção, caixas subterrâneas pré-moldadas, cabos soprados, projetos CAD/CAM, usinagem de peças de precisão, testes para certificação de produtos e componentes, suporte de informática, empacotamento de tecnologias e redação de pedidos de patentes.

Na qualidade de consultor, entre os anos de 2003 e 2008, trabalhei no Projeto Rede Giga do CPqD, rede óptica acadêmica com 960 Km de extensão, que interligava instituições de ensino e pesquisa da região sudeste do Brasil. As fibras partiam de Campinas a chegavam a Petrópolis, passando por São Paulo, São José dos Campos, Cachoeira Paulista, Rio de Janeiro e Niterói, interligando instituições como CPqD, UNICAMP, USP, INCOR, MACKENZIE, LNLS, PUCCAMP, INPE, ITA, UFRJ, UFF, PUC Rio, IME, IMPA e LNCC.

Comecei a trabalhar para a RNP em 2005. Participo de atividades normativas, contribuo no desenvolvimento e introdução de novas tecnologias, fiscalizo e acompanho obras e serviços, realizo auditorias técnicas nas Redes Comep e ministro cursos de treinamento. Durante 3 anos, realizei inspeções finais em redes ópticas construídas pelo MCTI através do projeto Cidades Digitais. nesse projeto, realizei, ou coordenei cerca de 80 aceitações.

TREINAMENTO

A partir de 2012, preparo e ministro cursos, palestras e workshops para profissionais de todos os níveis, que atuam em projeto, construção e operação de redes ópticas