EFEITO DUVIDOSO

Efeito duvidosoEsta história também se passa em São José do Divino, Piauí. Não exatamente no centro. Para ser preciso, eu diria que a uns mil metros da praça da igreja.

Quando a gente realiza a inspeção de aceitação de uma rede óptica, existe um roteiro a ser seguido. Grande parte das atividades relaciona-se com a visita aos prédios que estão interligados à rede. Em cada ponto de terminação de fibras tem um roteador energizado por um nobreack ligado a uma tomada e vários outros dispositivos e equipamentos acomodados dentro de um rack.

Mas, uma parte das atividades consiste em se correr a rede externa, observando altura e tensionamento do cabo, ancoragens, sustentações, reservas técnicas, emendas e coisas assim.

A rede óptica de São José do Divino é bem pequena. De ponta a ponta, a cidade tem 2 quilômetros de extensão e é este o comprimento de cabo que foi inspecionado. Não mais do que 50 postes

O grupo de aceitação era composto de sete pessoas. Eu e outro representante da RNP (estávamos assumindo a responsabilidade pelas inspeções naquela viagem), um representante do Ministério das Comunicações que estava entregando a responsabilidade, três representantes da empreiteira que implantou a rede e o Secretário de Planejamento da prefeitura que a estava recebendo, que se chamava Francisco.

Quase hora do almoço, sol a pino, temperatura na sombra ao redor de 38 graus centígrados. Caminhamos desde a sede da prefeitura até o último ponto atendido pela rede, que era a delegacia de polícia.

Acostumado a andar, fui caminhando depressa e ganhando espaço do resto do grupo. Apertando o passo, Francisco me fez companhia. Em dada altura, ele viu um conhecido dentro de uma pequena lanchonete que ficava ao lado de uma oficina de motocicletas e me contou que os dois estabelecimentos pertenciam ao cidadão, que era também um dos vereadores da cidade.

Fez questão de parar para me apresentar. Havia outras três pessoas no local. Pareciam ser mais amigos do que fregueses. Estavam sentados na varanda coberta de telhas de aço zincado. O calor ali era escaldante para meus padrões. Muito agradável para eles, que estão em pleno inverno por lá. Feitas as apresentações, o comerciante ofereceu caldo de cana recém espremido. Estava bem gelado e desceu muito bem. Pedi repetição, o que o deixou muito feliz.

A pausa para o caldo de cana deu tempo do resto do grupo nos alcançar. Começamos a conversar. Foi uma conversa curta de não mais do que dois minutos. Francisco explicou a todos o que estava sendo feito. Empolgado com a confirmação de que o WiFi público já estava funcionando na praça, um dos amigos do vereador exclamou: “Oba, é agora que vou poder ver mulher pelada na Internet sem ter que pagar nada”

A Internet é uma ferramenta incomparável. Através dela temos acesso a milhares de fontes de informação, lazer e conhecimento e cultura, localizadas em qualquer parte do planeta.

Tentei explicar que a Internet pode ser usada até para isto, sem dúvida, mas, que ele deveria começar a pensar em tirar proveito daquela ferramenta. Comecei a contar aos presentes que meu filho mais velho, engenheiro eletricista como eu, obteve um diploma de especialização no MIT usando a Internet. Mas, logo desisti. Desconfiei que ninguém alí fazia a mínima ideia do que era MIT ou qualquer outra instituição deste tipo.

Perguntei se ele já tinha estado em alguma cidade grande. Nunca, nem em Teresina!

Antes de entrar numa estrada, precisamos saber onde ela vai dar e o que queremos fazer no destino. Não podemos correr o risco de ser como Alice passeando no País das Maravilhas. Numa encruzilhada, perguntou ao gato que lá estava por qual caminho deveria prosseguir, que respondeu perguntando a ela para onde ela ir. Alice respondeu que estava perdida e que não sabia. E o gato, finalmente, deu sua resposta: “então não faz nenhuma diferença”.

Antes de pegar uma estrada, precisamos estudar o caminho a ser trilhado e saber o destino a ser atingido. Enquanto não fizermos isto, estaremos gastando tempo e dinheiro, sem conseguir sair do lugar!

TREZENTOS MILHÕES ANUAIS JOGADOS FORA

Carta histórica 5.jpgA matéria de capa da edição 1117 da revista EXAME trata da crise da Oi. A empresa devia 4,8 bilhões em 2008 e a dívida saltou para 65,4 bilhões em 2015. Em números redondos, a dívida da Oi cresceu num ritmo médio de 8,6 bilhões de reais por ano. Quem quiser se aprofundar nos  meandros deve ler a reportagem. Mas, vou tratar de resumi-la em poucas palavras: Trata-se do resultado de um duelo travado por um grupo de acionistas espertos contra outro grupo ainda mais esperto. “Entre o mar e o rochedo, o marisco é que se lasca”, diz um conhecido ditado.

Neste caso, o marisco é representado pela Oi e seus credores, entre eles Anatel, Banco do Brasil, BNDES e Caixa Econômica Federal. Juntos vão ter que assumir, ao que tudo indica, um prejuízo de 20 bilhões de reais, um terço do “calote” (adjetivo usado pela revista).

A foto acima mostra um calçadão no centro de Florianópolis. Tem muita gente na rua, mas, não se vê ninguém usando os telefones públicos ali disponíveis.

Quando ocorreu a privatização, o contrato de obrigações que foi firmado levou muito em conta o serviço de telefonia fixa, carro chefe do antigo sistema Telebrás. Na ocasião, a população usava e dependia muito dos telefones públicos. Passado apenas dezoito anos, o número de celulares em uso no Brasil ultrapassou 220 milhões. Tem mais celular do que gente no país. Não conheço ninguém que não tenha pelo menos um. Operários, comerciários, pedreiros, pintores, faxineiras, garis, flanelinhas, domésticas. Muitas vezes com chips de várias operadoras. A penetração do celular tem sido enorme não só no Brasil, mas, no mundo todo. Tenho alguns parentes na Itália e apenas uma prima mais velha ainda possui telefone fixo. Os demais só tem celular.

No mês passado percorri o interior do Piauí e, pelas várias cidades que visitei, as placas das lojas indicavam números de celulares. Por lá, serviço celular é hoje mais confiável e mais barato! Se telefone fixo está em baixa, por que os orelhões não deveriam estar?

Existe uma grande diferença, para mais, entre o custo de manutenção de um telefone fixo de assinante e o de um telefone público. Segundo a revista EXAME, a Oi gasta 300 milhões de reais por ano em manutenção e reparo de orelhões.

Até a virada do milênio, serviços de telecomunicações eram monopólio do estado. Mesmo sendo um serviço sujeito a restrições, mazelas e à Lei 8666, havia pragmatismo. Ou seja, as empresas procuravam estar sempre atualizadas. Adaptavam e introduziam novos serviços assim que estes surgiam em algum lugar do mundo.

Algo precisa ser feito e não é nem pelos 300 milhões anuais gastos pela Oi em manutenção de orelhões já que, perto dos 65 bilhões de dívidas da empresa esse montante é dinheiro de cachaça. É pelo descabimento do gasto.

Não tem nada mais inútil do que exigir o cumprimento de uma obrigação escrita num contrato se esta já não serve para nada.

Eu defendo a repactuação dos compromissos de outorga no tocante aos orelhões. Há quinze anos fazia sentido estabelecer como meta a instalação de um TP a cada mil metros em cidades. Hoje, não faz mais. A exigência precisa se restringir a lugares específicos como centros comerciais, portos, aeroportos, terminais rodoferroviários, vias expressas, hospitais, etc.

Nas cidades, os Telefones Públicos devem ser substituídos por Pontos de Banda Larga de Acesso Público, como os que hoje existem em Nova Iorque e de outras grandes cidades do mundo.

 

EFEITO COLATERAL

Efeito colateralA pequena São José do Divino no Piauí está em festa este mês. E não é só pela chegada do mês de junho. No bojo de um ambicioso projeto do governo federal, concebido para levar serviços de banda larga para o interior, entrou em operação um ponto de acesso público na praça central da cidade.

O cartaz instalado no local informa:

“Agora tem Internet GRÁTIS na praça”.

Estive lá e vi: Quando o sol se esconde e a temperatura fica mais amena, muitas pessoas se dirigem até o local, celulares na mão, e se conectam na Internet.

Rede e equipamentos locais foram implantados com recursos do governo federal. Mas, a saída para o mundo exterior ficou a cargo da prefeitura. Por se tratar de cidade muito pequena, que representa pouco retorno para os grandes provedores de banda, o máximo que a prefeitura conseguiu foi alugar uma conexão via rádio, com 16 Mbps. Ou seja, inferior à banda que dispomos hoje em nossas casas e que achamos lenta demais.

Mas, parece que ninguém liga para este pequeno detalhe em São José do Divino. A gente vê no rosto das pessoas a felicidade. É uma alegria só! De graça, a gente toma até injeção na testa, diz o ditado popular!

A meu ver, a maior vantagem é que a cidade possui hoje uma rede óptica própria, interligando pontos de seu interesse. Secretarias municipais, escolas, creches, centros de assistência social, delegacia de polícia, o hospital, o escritório do programa Bolsa Família estão hoje todos interligados e podem trocar entre si grandes volumes de informação. Mas, ao sair para o mundo, terão que compartilhar uma fatia dos 16 Mbps disponibilizados para todos.

Mas, foi interessante constatar que toda inovação pode despertar também maus humores!

O WiFi da praça está equipado com antena de alto ganho. Embora o contrato estabeleça um alcance mínimo dentro da praça, o sinal chega com força em endereços que ficam a até 200 metros de distância. Com isto, comerciantes, moradores vizinhos, o dono da farmácia, o dono do supermercado e o gerente da agência dos Correios estão felicíssimos. Todos estão pensando seriamente em “descontratar” os serviços do provedor local e migrar para a rede da prefeitura. Num primeiro momento, pelo menos economicamente, o maior prejudicado seria o provedor.

Mas, entre os descontentes estava alguém que ninguém poderia imaginar: Padre Antônio Baselino, pároco da igreja de São José, padroeiro da cidade.

Ninguém se lembrou que seu local de trabalho ficava de frente para a antena. Sinal cheio dentro da igreja e bancos confortáveis para se sentar e sombra. Pode ter lugar melhor para ficar? O padre ficou danado da vida e estrilou feio!

Li com estes olhos que a terra há de comer o WhatsApp que ele mandou para o responsável pela rede: “Francisco, você precisa desligar a Internet nos horários de missa. Não quero ter que brigar com você”!

Na mesma hora, me ocorreram cenas que observo hoje em restaurantes e rodas de amigos. Dei razão à zanga do padre. Os paroquianos, entretidos com seus smartfones, não estavam acompanhando direito as missas, nem prestando atenção nos sermões!

A rigor, esta mensagem nada republicana deveria receber um sonoro NÃO. Afinal, apesar do nome da cidade estar associado a um santo, a prefeitura é laica e certamente deve haver evangélicos e ateus na praça durante os horários de missa. Mas, fiquei sabendo que a solicitação vem sendo devidamente atendida.

Maquiavel escreveu há quase sete séculos:

Não existe atividade mais perigosa e, ao mesmo tempo mais frustrante, do que trabalhar em inovação. O inovador precisa conviver com a indiferença dos futuros beneficiados e enfrentar o ódio daqueles que inevitavelmente se sentirão prejudicados!

URUBUS DE ESTIMAÇÃO

Foto Urubus 1Esta história se passa em Faltesgoto, uma distante cidade de um remoto país. Por coincidência, talvez o leitor conheça alguma cidade igual a Faltesgoto aqui no Brasil.

Em 1979, trabalhei em Lagos, Nigéria, onde coordenei a elaboração do projeto da rede telefônica de uma extensa região da cidade, chamada Apapa, que abrangia a zona portuária, vários quarteis do exército e também o matadouro da cidade.

Não tenho nenhuma foto da viagem, pois era considerado crime um estrangeiro tirar fotografias no país. Mas, nuca vou esquecer do mau cheiro que se sentia nas ruas, nem dos milhares de urubus que habitavam a cidade, disputando espaço com os seus habitantes.

Muito antes disto, ainda menino, vivi situação parecida. Foi no início da década de cinquenta, em Itatinga, cidade do interior paulista onde cresci e fiz o Grupo Escolar.

Urubu existe em todo lugar. Essas aves rústicas, que despertam asco, prestam um serviço de inestimável valor para o meio ambiente. Alimentam-se de matéria orgânica em decomposição e, ao fazer isto, eliminam bactérias nocivas e perigosas que colocam em risco as vidas de todos os outros seres viventes. Eles vêm correndo, digo voando, quando sentem os miasmas emanados de matéria orgânica em decomposição.

A estas alturas do relato, você já deve ter deduzido que os urubus representam um elo comum entre as três cidades acima citadas. É verdade, mas, é necessário levar em consideração o fator tempo na história.

Em Faltesgoto, os urubus foram fotografados em ação recentemente. Uma situação presente e preocupante. Em Itatinga, a convivência com urubus parou de acontecer há 50 anos. Em Lagos, infelizmente não sei dizer. Nunca mais voltei para ver. Pelo que ouço, nada mudou por lá.

Independente de lugar e época, urubu gosta mesmo é de matéria orgânica apodrecendo. Quanto mais, melhor.

Há duzentos anos, nenhuma cidade do mundo possuía esgoto. Em Lisboa, dejetos líquidos escorriam pelas sarjetas e dejetos sólidos eram atirados em carroções para serem enterrados no campo na época em que a família real portuguesa se mudou para o Brasil. Posso até imaginar o mau cheiro que havia nas ruas de Lisboa e a quantidade de urubus que devia havia por lá. Como não conheciam esgoto, os monarcas portugueses que aqui aportaram em 1808, trouxeram ópera, biblioteca, jardim botânico e outras novidades, mas, não se preocuparam com saneamento.

Em Faltesgoto, a situação até que não é tão ruim assim. Afinal de contas, existem fossas nos quintais, que recebem o produto dos assentos sanitários. É claro que o lençol freático está contaminado. Mas os carroções foram abolidos. Entretanto, para retardar o enchimento das fossas sanitárias, água de banho, roupa e cozinha corre para as sarjetas. É oportuno lembrar que essa água contém restos de comida, não apenas espuma de sabão. Um grão de arroz aqui, outro ali. Um feijãozinho aqui outro ali. Um fio de macarrão, um ossinho de frango, um pedacinho de peixe, um naco de carne. Tudo isto combinado com o sol escaldante de nosso país fermenta, produzindo aquele odor desagradável ao ser humano. Mas irresistível para nossos amigos urubus.

Andando pelas ruas de Faltesgoto, topei com urubus em todo canto e lugar. Tinha urubu na cerca, urubu no muro, urubu no telhado, urubu na praça. Despreocupados, tranquilos, não se assustavam nem com os pedestres, nem com as barulhentas motocicletas que cruzavam a cidade em todas as direções a todo momento.

Não fosse pelo horrível pescoço, por sua mansidão diria que os urubus de Faltesgoto estão mais para galinhas pretas.

Havia crianças brincando e mães passeando com seus bebês bem perto das aves. Não duvido que algumas tenham até nome. Quando eu era criança, galo, pato e galinha lá em casa tinham nomes. Minha mãe me dizia: “Joaquim Carlos, quero fazer uma canja, vai buscar a Lurdinha. Mas, só se ela não tiver com ovo. Se tiver, destronque o pescoço da Cida e depene ela para mim”!

Em Itatinga, embora seja proibido, tem gente criando galinha até hoje. Mas, urubu não tem mais! A cidade ganhou seu sistema de esgoto há muitos anos e conta até com estação de tratamento.

Meu pai foi presidente da Câmara Municipal da cidade nos anos 50. Na ocasião, o município foi contemplado com uma verba federal de valor considerável para ser aplicada em infraestrutura. Ele era primo do prefeito e ambos queriam o esgoto. Mas, alguns vereadores queriam aplicar a grana no asfaltamento das ruas da cidade, que eram de terra. Os defensores do asfalto argumentavam que a cidade ficaria mais bonita, que a obra ia acabar com o poeirão e que mostraria para eleitores e visitantes o grande progresso do município. Diziam também que ninguém ia ver o esgoto.

Meu pai propôs então a instalação de tampas de vidro nas caixas de visita, para que o povo pudesse observar os bagres cegos passando. É claro que isto acabou não acontecendo, mas o argumento foi decisivo. O esgoto ganhou!

Na distante Faltesgoto, povo e galinhas continuarão convivendo com os urubus por muito tempo, pois tudo indica que o esgoto vai demorar para chegar. Falta vontade política e aparentemente ninguém reclama. O povo já se acostumou com o mau cheiro e parece até que gosta da companhia dos urubus.

Faltesgoto tem urubus de estimação!

PEQUENA CONTRIBUIÇÃO, GRANDE RESULTADO

Carta 30 07 2016Segundo o IBGE, o município de Goioerê possui hoje cerca de trinta mil habitantes. A cidade cresceu muito desde que estive lá. Eu tinha acabado de passar para o quinto ano de engenharia e era estagiário da Telepar.

Estava passando férias de final de ano com meus pais no interior de São Paulo e resolvi comemorar o aniversário de minha namorada, hoje minha esposa, em Curitiba.

O aniversário dela seria numa sexta-feira. Prevenido, cheguei em Curitiba na segunda-feira. Na terça cedo resolvi dar uma passada na Telepar para rever os colegas e saber das novidades. Mal sabia o que me esperava.

O departamento onde eu fazia estágio ficava no “predinho”, apelido que haviam dado para uma edificação de dois pavimentos que ficava no fundo do terreno da Avenida Manoel Ribas 115, onde estava sendo construído o edifício sede da Telepar, o “predião”.

A sala ficava no térreo. Tinha uns 100 m2 e abrigava o departamento de engenharia civil da empresa. O chefe se chamava Manoel Rodrigues, um engenheiro civil muito experiente. Era conhecido na empresa como Maneco Facão, apelido vinha desde os tempos de faculdade.

Assim que cheguei, ele festejou. Acenou para um veterano meu que acabara de se formar em engenharia elétrica e fez ali mesmo uma reunião. Contou que o PS de Goioerê tinha data de inauguração marcada e que a Copel não estava querendo ligar a energia do prédio. O ponto alto da cerimônia de inauguração seria um telefonema que o prefeito da cidade daria para o governador Paulo Pimentel. Além do problema de Goioerê, a torre de micro-ondas de Paranavaí ainda não tinha sido aterrada e isto precisava ser feito com a maior urgência. “Tem muita coisa para ser feita e quero que os dois vão juntos nessa viagem para resolver os dois problemas. Comecem por Goioerê que é mais urgente, depois resolvam Paranavaí”.

Eu não fazia a mínima ideia de onde ficava Goioerê. Fiquei sabendo que teríamos que ir por Guarapuava. 240 quilômetros de estrada asfaltada de Curitiba até aquela cidade e outros 250 quilômetros de terra até Goioerê, passando por Pitanga e Campo Mourão. Tentei explicar que estava de férias e que só voltara a Curitiba para passar o aniversário de minha namorada com ela. Mas, não adiantou. Maneco havia decidido e não tinha conversa!

Descobri que iriam conosco dois pintores e um eletrotécnico. Faltavam acabamentos de pintura e o quadro de distribuição precisava ser terminado.  Teríamos que partir na manhã seguinte bem cedo.

Sem ter como escapar, fui até o apartamento da namorada tratar de me justificar. Quem conhece a minha esposa sabe que não foi uma conversa fácil.

Na manhã seguinte, no horário combinado, me dirigi até o ponto de encontro combinado. Estavam lá o eletrotécnico e os dois pintores com escada e latas de tinta.

Nosso transporte chegou. Uma caminhonete Chevrolet C-1416 cabine dupla novinha. Tinha a logomarca do governo Paulo Pimentel na porta: Retângulo branco de cantos arredondados com um círculo verde no centro. O dístico era: “Paraná, aqui se trabalha”. O logo tinha sido apelidado, com justa razão, de “pepinão”. O motorista desceu e contou que meu veterano não estava mais indo, que tinha surgido um imprevisto e que era para eu me virar sozinho. Na hora me senti um verdadeiro trouxa.

Mas, não havia outra coisa a fazer senão seguir viagem. Almoçamos em Guarapuava e logo depois entramos no trecho de terra. Estrada ruim e cheia de buracos. A caminhonete não conseguia passar de 60 quilômetros por hora. Tudo correu bem até Pitanga. Faltavam umas três horas para chegar ao destino quando começou a chover forte. Quando isto acontecia, a ordem da polícia rodoviária, abrangendo caminhões e caminhonetes, era parar onde estivessem, para não “estragar” a estrada.

Para resumir a história, chegamos em Goioerê às onze da manhã do dia seguinte, faltando menos de 48 horas para a inauguração. Pintores, técnico, escadas e latas de tinta ficaram no prédio do PS e o motorista me levou até o escritório da Copel.  Perguntei pelo técnico que rejeitara nosso ramal de entrada e ele estava em horário de almoço. Voltei no começo da tarde.

Fiquei sabendo da existência de uma norma da Copel estabelecendo limites para diâmetros de condutores de ramais em entradas em prédios: Nenhum cabo poderia ter condutor com bitola superior a #8 AWG* e ramal instalado pela Telepar usava cabos # 6 AWG**.

Eu não conhecia a norma. Nos meses anteriores, meu trabalho se resumira à elaboração de dois projetos de barramentos DC e ao acompanhamento das instalações elétricas do edifício sede, que estava em construção.

Tentei argumentar que os cabos tinham capacidade de corrente superior e que isto contribuía a favor da segurança elétrica. Mas, para o técnico valia o que estava escrito na norma. A quinhentos quilômetros de distância de Curitiba e sem ter a quem recorrer, mesmo sem saber como isto poderia ser feito, garanti que a instalação seria ajustada à norma.

Perguntei se o empecilho era só aquele, ou se tinha mais alguma pendência: “É só isto”, respondeu o homem. Perguntei quanto tempo ia levar para providenciarem a ligação: “Assim que você confirmar a correção, a energia será ligada”.

Na mesma hora, fui atrás do eletricista que tinha instalado o ramal de entrada. “Eu bem que avisei, mas, o engenheiro de vocês não quis me ouvir”, disse o homem. Como eu só tinha dinheiro para hotel e alimentação, propus que a ele que fizesse a instalação usando condutores bitola #8 AWG e ficasse com os cabos mais grossos como pagamento.

Para minha surpresa, talvez até porque precisasse muito do PS, o eletricista aceitou minha proposta. A negociação toda durou talvez cinco minutos. Assim, sobrou tempo para ajudar o eletrotécnico que veio comigo de Curitiba a instalar o quadro de distribuição e a realizar testes de partida do grupo motor gerador do prédio.

A energia foi ligada a tempo da cerimônia, que aconteceu em 19 de janeiro de 1968, sexta-feira, bem no dia do aniversário da minha namorada.

Veio gente de todo canto para assistir à inauguração. Mas, muitos queriam mesmo era telefonar. Acabei não conseguindo dar os parabéns para a namorada, pois o PS possuía só uma cabine e a fila ficou comprida demais.

No dia 21, já em Paranavaí, escrevi uma carta para me desculpar da grave falha, que hoje leio e acho muito engraçada. A carta original, que minha mulher guarda até hoje, era manuscrita. Note-se que o dia 21 de janeiro de 1968 caiu num domingo. Que ninguém pense que errei a data. Quando a gente viajava a serviço, não tinha feriado nem dia Santo. Todo dia era dia de semana.

O PS significava uma grande conquista para Goioerê. O prefeito chegou na hora combinada, a telefonista providenciou a chamada e o Governador atendeu. Tudo correu conforme o planejado.

No final da semana seguinte, depois de providenciar o aterramento da torre de Paranavaí, voltei a Curitiba. Escrevi tudo o que aconteceu no meu relatório de viagem. Ninguém nunca me questionou por ter trocado cabo grosso por cabo fino. Naquela viagem, aprendi que um bom profissional precisa estar sempre disponível, tomar decisões rápidas e acertadas e saber ser flexível.

Em Goioerê, aprendi que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Isto valeu tanto para o supervisor de estágio que decidiu que eu iria viajar, quanto para o técnico da Copel que exigiu a modificação.

 A empresa era pequena e a história se alastrou. Ganhei fama de “resolvedor” de problemas. Tinha apenas 22 anos e ainda faltava um ano para me formar.

Esta história ensina que uma pequena contribuição pode produzir um grande resultado.

Mas, preciso admitir, problema mesmo foi chegar em Goioerê!

(*) #8 AWG = 8,3 mm2     

(**) # 6 AWG = 13,3 mm2

Hotel Kaanayra

HotelInspecionar e aceitar três redes ópticas em cidades afastadas entre si por centenas de quilômetros não é tarefa trivial. É preciso racionalizar o uso do tempo e compartilhar tarefas para dar conta de tudo. As estradas no interior do Piauí são boas, mas, passam dentro de inúmeras povoações. Na proximidade de qualquer uma delas, há sempre intenso trânsito de motocicletas, que requer extremo cuidado. Para variar, existem muitas lombadas. Muitas mesmo! Daquelas que exigem que você realmente pare. Ao todo, rodamos mil e setecentos quilômetros.

Como as duas primeiras cidades não tinham hotel, tivemos que nos hospedar em localidades vizinhas. No caso de São José do Divino, o hotel mais próximo ficava em Piracuruca, a 30 quilômetros de distância. Em Inhuma, o hotel menos longe ficava em Picos. Setenta quilômetros de estradas vicinais. Uma hora para ir e uma hora para voltar.

Mas Regeneração, terceira e última cidade digital a ser inspecionada tinha hotel!

No dia 19 de junho tomamos café da manhã em Picos e às nove horas já estávamos na estrada. Uma uma bela manhã de domingo. Percorremos quase trezentos quilômetros de estradas vicinais até alcançar o destino. Chegamos por volta de 13 horas.

O estabelecimento estava aberto, mas, salvo um hóspede que que tinha ficado com as chaves de dois quartos, não havia mais ninguém no hotel.

Os dois quartos enquadravam-se na categoria “quarto com ar”, o primeiro da lista exposta na entrada. R$ 40,00, com direito ao café da manhã. Entrei  e descobri que o quarto tinha banheiro privativo.

Havia reparado que o preço do banho avulso era o mais barato da tabela, R$ 4,00 e logo descobri a razão. O hotel não dispõe de chuveiro elétrico nem sistema de aquecimento. O gasto com o banho é apenas com água. A rigor, água quente numa latitude como aquela é absolutamente dispensável. Além do calor que faz, o reservatório fica em cima do telhado e a água sai quentinha do chuveiro, mesmo de manhã bem cedo.

Quando o casal de proprietários chegou no começo da noite, aproveitei para pedir alguns implementos, pois o meu quarto estava parecendo mais a cela de São Francisco. Tinha uma cama, uma TV, o parelho de ar condicionado e só. Pedi uma mesinha lateral, uma cadeira, um cordão de extensão e uma derivação T.

A senhora ficou curiosa por eu estar querendo tanta coisa: “Mesa de cabeceira para colocar os óculos e o computador, cadeira para sentar e trabalhar, cordão de extensão para alcançar o laptop e derivação T porque a única tomada do quarto já estava ocupada com a TV”, expliquei.

Em cinco minutos, estava tudo lá, serviço de primeira. Na manhã seguinte, antes das sete, fui até o local do café e conheci o proprietário, que estava saindo para comprar pão e leite. Aproveitei e fui com ele, estiquei as pernas e ficamos amigos.

Pensei que iríamos bater bons papos, mas, ao voltar no final da tarde, a senhora me contou que o marido passara mal na hora do almoço. Tinha começado a embaralhar as palavras e o braço tinha ficado dormente. Uma das filhas foi chamada e levou o pai o hospital.

Mas, a senhora tinha também outra preocupação. O genro, que estava retornando de São Paulo com o carro abarrotado de utensílios e ferramentas, tinha parado de dar notícias horas atrás, pouco depois de entrar na Bahia. O drama durou até as oito da noite, quando o rapaz finalmente chegou. Explicou que havia acabado a bateria do celular. Simples assim.

Na terça-feira cedo tornei a perguntar pelo marido, que continuava no hospital. No começo da noite cruzei novamente com a senhora e tornei a perguntar do marido. Comentei que estava curioso pelo fato dela não estar indo visitar o marido no hospital. Ela então me contou que o hospital onde ele estava internado ficava em Teresina.

Como alguém que cobra R$ 40,00 de diária com café da manhã, ou R$ 4,00 por um banho avulso, pode pagar internação, ecografias e tomografias?

Acabei me lembrando dos meus tempos de infância. A cidade onde cresci tinha um posto de saúde que só servia mesmo para aplicação de vacinas. O médico local, Dr. Wilson, só tinha recursos para tratar de doenças simples, como gripe, sarampo e catapora. Meus pais costumavam comentar que um irmãozinho mais velho do que eu tinha morrido de crupe e “tosse comprida”. E eles não eram nenhuma exceção. Não tinha uma única família na cidade que não tivesse perdido uma criança. O cemitério tinha até uma quadra com lotes reservados para “anjinhos”, com era costume falar. Naqueles tempos, quando alguém se sentia mal e a doença tinha jeito de ser grave, tratava de pegar o trem para São Paulo. Uma viagem de oito a dez horas. Na maioria das vezes, voltava num caixão.

Esta viagem foi um mergulho no passado. Descobri que a população de muitas cidades do interior do nordeste vive hoje exatamente como a população do interior de São Paulo vivia nos anos cinquenta.

Nossos governantes precisam criar vergonha e parar de brigar por poder e dinheiro! Precisam mesmo é se aliar e implantar serviços de saúde minimamente decentes. A estas alturas, nem importa que sejam parecidos com os que hoje  temos no sul e no sudeste, dos quais, com justa razão, tanto reclamamos!

 

 

 

 

TELEFONES FIXOS EM CONTAGEM REGRESSIVA

Cabo da OiA inspeção da rede Óptica de Regeneração tinha terminado. Para fugir do sol da tarde na prefeitura, decidi ir trabalhar no hotel. Lá tinha ar condicionado. No dia seguinte, iniciaria a longa viagem de regresso a Campinas.

Passava das cinco da tarde e eu estava embalado no relatório de inspeção quando o supervisor técnico da empreiteira bateu na porta do quarto: “Aconteceu um acidente com o cabo da rede óptica e estou indo até o local para ver o que houve. Quer ir comigo”?

E lá fomos nós! Descobrimos que o um cabo multipar da concessionária local de telecomunicações fixas tinha sido abalroado duas vezes num período de sessenta minutos. O primeiro acidente foi provocado por um caminhão basculante. Cabo e cordoalha de sustentação foram fisgados, mas não romperam.  O conjunto chicoteou e acabou se enrolando no cabo da rede óptica que tínhamos acabado de inspecionar. Os técnicos da empresa integradora estavam desembaraçando os cabos quando um caminhão baú enroscou novamente no cabo multipar. Desta vez, cabo e cordoalha chicotearam ainda mais alto e atingiram a rede elétrica. Saltou faísca para todo lado. Isto aconteceu instantes antes de chegarmos ao local.

Assustado, o responsável pela prefeitura ligou para o número 103 da concessionária e solicitou que uma equipe de manutenção comparecesse urgentemente ao local.

A atendente, que estava provavelmente a mais de mil quilômetros de distância, recitou a famosa resposta padrão: “Estaremos providenciando…”. Mas, surpresa mesmo foi o prazo dado para realizar o conserto: Trinta dias!

Como assim, trinta dias para eliminar um problema sério, que envolve risco de vida?

Venho observando, já faz tempo, que as redes telefônicas fixas das concessionárias de telecomunicações que sucederam a Telebrás não estão recebendo manutenção adequada. Vejo, por todo lugar que passo, cabos muito baixos, grandes barrigas, espinamento arrebentado, caixas de emenda e caixas terminais sem tampa, conectores e terminais expostos à chuva e ao sol, ninhos de passarinhos e de vespas dentro das caixas, canos laterais soltos, um emaranhado de fios drop. Enfim, as redes estão se acabando!

Retornando ao assunto da história, o cabo telefônico tinha ficado tão baixo que iria cortar o pescoço do primeiro motociclista distraído que passasse por aquela esquina. Para evitar um acidente ainda mais grave, um dos empregados da empreiteira cortou o cabo e o enrolou num poste.

Sou capaz de apostar que ninguém naquele lateral ficou sem serviço. E sabem por quê? Nas placas das lojas de Regeneração e de outras cidades pequenas por onde tenho passado, quase não se vê mais números de telefones fixos. As placas indicam números de celulares!

Não é preciso ter muita imaginação para concluir que as redes telefônicas de cidades pequenas do interior suportam hoje pouquíssimos telefones fixos. Com toda a certeza, estão dando prejuízo e, da forma como o assunto está sendo conduzido, o prejuízo só tende a aumentar. Talvez não por acaso, no final da semana que retornei para casa, a maior concessionária de telecomunicações do Brasil solicitou Recuperação Judicial. Várias coisas são mais que certas para mim:

  • A empresa vai mudar de dono.
  • Os novos controladores continuarão investindo em celular.
  • Investirão também em fibras ópticas, mas, apenas em cidades de maior porte, que garantam o retorno do investimento.
  • As redes telefônicas das cidades pequenas continuarão sem nenhuma atenção e se degradando
  • Um dia, não muito distante, serão abandonadas de vez, ou vendidas como sucata.

O lado bom, é que as redes ópticas do projeto Cidades Digitais podem tornar-se muito mais úteis do que inicialmente imaginaram seus idealizadores.

Manual de Redes Ópticas Internas já!

Redes InternasEm 1973, estagiei em várias empresas telefônicas nos EUA. Entre as novidade que trouxe de lá, estava um exemplar de um Manual de Redes Internas do Building Industry Consultive Service, BICS.Na época, todas as concessionárias do Brasil, elaboravam projetos de tubulações internas de casas e edifícios e projetavam e instalavam suas redes internas. Além de cara, tratava-se de uma atividade extremamente problemática.

A divisão que eu gerenciava na Telesp, que atuava somente na Cidade de São Paulo e em algumas localidades vizinhas, tinha uma equipe de redes internas de mais de  trinta pessoas. E é oportuno lembrar que as concessionárias forneciam também os telefones: Blocos terminais, cabos, fios e telefones eram de propriedade das concessionárias, bem como sua manutenção.

Os telefones comercializados no Brasil até meados da década de setenta eram de disco. Possuíam cápsulas de carvão, cordões lisos e espiralados e outros componentes que se desgastavam com o uso. Mais de 90% dos defeitos ocorriam nos assinantes.

Há décadas, a seção de redes internas da Telesp vinha funcionando da forma como passo a descrever: O interessado fornecia dois conjuntos de cópias heliográficas das plantas da edificação. O setor de projetos desenhava (em nanquim) nos dois conjuntos de plantas, eletrodutos e caixas de passagem, incluindo dimensões, comprimentos, etc. Um conjunto era arquivado para uso futuro e outro era devolvido ao interessado, para ser executado. Com esta atividade nunca levava menos de um mês, era objeto de frequentes reclamações.

Quando o prédio ficava pronto, muitas vezes anos depois, o interessado solicitava vistoria. Um de nossos funcionários ia até o local inspecionar a instalação. Verificava se tinham passado arame guia, se tinham usado os diâmetros corretos de tubos, se as dimensões das caixas estavam de acordo com o projeto e outros detalhes. Havia sempre fila de espera. Salvo prioridades passadas pela diretoria, a inspeção também demorava no mínimo um mês. Obras de grande porte demandavam vários inspetores. Havendo pendências, tinha que começar tudo de novo.

Para complicar, nem todos os inspetores agiam de forma ética e profissional. Entre os bons, tinha sempre aqueles que criavam dificuldades para vender facilidades. Um processo viciado não serve senão para atrapalhar e causar confusões. Aos problemas técnicos, somavam-se reclamações, denúncias e até processos de demissão por justa causa.

Em 1973, durante uma viagem que fiz aos EUA, descobri que as construtoras americanas projetavam e construíam não apenas as tubulações. Descobri que projetavam e construíam suas próprias redes internas e que as concessionárias limitavam-se a terminar um cabo de rede externa no Quadro de Distribuição Geral do prédio. Tubulações, cabos, fios e aparelhos telefônicos, tudo era de responsabilidade das construtoras. Nos EUA, Indústria de construção civil e concessionárias de telecomunicações tinham chegado a um acordo e seguiam as normas estabelecidas num Manual de Redes Internas, emitido por uma entidade que representava os interesses dos dois lados.

De tudo o que eu trouxe dos EUA naquele ano, este foi o item mais comemorado pela alta gerência da empresa. Me passaram a incumbência de traduzir e adaptar o conteúdo do manual às necessidades da Telesp. O documento levou o nome de Manual de Tubulações Internas, já que, em sua primeira emissão, cobria apenas tubulações.

Mas, já foi um salto espetacular. A primeira emissão do manual foi distribuída para empresas de engenharia, construtoras de pequeno e médio porte e arquitetos. Houve um evento de lançamento, onde compareceu a imprensa. No dia seguinte, a notícia estava nos principais jornais. A iniciativa foi muito bem recebida.

A Telesp aproveitou a oportunidade e redirecionou para outras ocupações os empregados que trabalhavam com desenho e projeto de tubulações.

Com o tempo, o Manual passou a fazer parte da Lista Telefônica. Todo mudo do ramo sabia que podia tirar dúvidas nas últimas páginas da Lista de Assinantes. O conteúdo do manual foi sendo revisto e publicado na Lista de Assinantes por décadas. Em 1977, a Telebrás lançou o telefone brasileiro a teclas desenvolvido e fabricado pela Gradiente. Por ser verde, quadrado e cheio de botões, recebeu o apelido de “general”.

O general possuía plugue de quatro pinos na extremidade do cordão liso, ao invés de “roseta” de terminação. A novidade foi introduzida para possibilitar ao assinante mudar o telefone de lugar, sem ter que recorrer a um técnico. A instalação do ponto principal continuou a ser feita por instaladores das concessionárias. As extensões passaram a ser compradas e instaladas pelos assinantes. A Telebrás criou o conceito de ponto de transição. Passou a existir um bloco de terminação na entrada das casas. O instalador parava aquele ponto. De lá para dentro, passou a ser de responsabilidade do assinante. Quando o período de exclusividade da Gradiente cessou, os aparelhos passaram a ser vendidos em lojas e rapidamente surgiram outros modelos.

O Manual de tubulações foi ampliado e passou a englobar a parte de fios e cabos. O nome mudou para Manual de Redes Internas e está em vigor até hoje. A tecnologia avançou e há um detalhe muito importante que ficou esquecido.

O Manual de Redes Internas estabelece normas de projeto de tubulações a serem ocupadas por cabos de pares simétricos de cobre. Consequentemente, todas as edificações construídos no Brasil continuam recebendo redes metálicas!

Como se sabe, a tecnologia HDSL está chegando ao fim, pois as velocidades de transmissão requeridas pelo mercado exigem o uso de fibras ópticas. Nem concessionárias, nem provedoras de serviços querem gastar dinheiro para levar cabos de  pares simétricos até para novas edificações. Sabem que os clientes desejam mesmo é serviço de banda larga. Até aceitam telefonia, mas, como subproduto.

Por estas razões, já faz alguns anos que incumbents e provedoras de banda larga começaram a instalar cabos ópticos dentro de prédios (novos ou existentes).

Na contramão da história, estão fazendo exatamente que as empresas de telefonia faziam no início da década setenta, só que num ambiente de competição, o que é muito pior.

As empresas estão disputando espaço dentro de tubulações ocupadas por cabos metálicos e muitas vezes por cabos ópticos dos concorrentes.

O congestionamento está igual ou pior ao que vemos nos postes de nossas cidades. É o caos se instalando por falha de regulamentação e desatualização normativa.

Manual de Redes Ópticas Internas já!

CONTROL POINT ANALYSIS

Foto-Gentel-e1469455306798-1024x576No dia 30 de junho de 1973, eu e dois colegas viajamos para os EUA com o objetivo de estudar novas técnicas de projeto e construção de redes, novas ferramentas e novos materiais. A viagem teve duração de 12 semanas. Tínhamos um roteiro bem definido a ser cumprido. Nosso primeiro destino seria a General Telephone of California. Como não havia voos diretos para a costa oeste  naquela época, tivemos que fazer conexão em Nova Iorque.  Partimos de Viracopos bem cedo. Nosso voo deveria chegar em NY por volta de 16 horas, com conexão imediata para Los Angeles. Uma forte tempestade se abateu sobre Nova Iorque e descemos em Philadelphia. Dezenas de voos também foram desviados para lá e o aeroporto congestionou. Ficamos presos no avião durante cinco horas. Era verão e fazia um calor infernal. Acabou água e comida e os banheiros entupiram.

Depois de passar pela imigração e alfândega, estressados e irritados, nos vimos perdidos no saguão do aeroporto. Os dois companheiros, que viajavam para o exterior pela primeira vez, me pediam coisas a todo momento: “Diz isto, fala aquilo”! Descobri que tinha ônibus levando passageiros até Kennedy, mas, a viagem levava umas três horas e ainda chovia. Uma funcionária do balcão de turismo nos orientou a procurar pela United Airlines. Acabei conseguindo um voo que partiria de Philadelphia para Los Angeles às dez da manhã do dia seguinte, que era um domingo.

Dormimos no hotel do aeroporto. Já era quase meia-noite quando finalmente entramos no quarto. Tinha uma cama de solteiro e uma de casal. Os dois reclamaram, mas, fiquei com a cama de solteiro. Afinal, eu havia negociado o quarto. Pedi para nos acordarem às sete. Dava tempo de folga para tomar café e embarcar.

Lá pelas cinco, alguém começou a bater forte na nossa porta. Minha cama ficava no fundo e pedi que um deles tratasse de dispensar o homem. Um de meus colegas que era nissei e, portanto muito bem educado, ao invés bronquear ficava repetindo baixinho, “tankiu, tankiu, tankiu”. O homem acabou percebendo que estava batendo na porta do quarto errado e foi embora. Com o incidente, acabamos não dormindo direito. Parecia que tudo ia dar errado naquela viagem, mas, não deu. Ao contrário disto, foi uma das melhores e mais produtivas missões que realizei no exterior.

O voo da UA decolou às dez e às onze da manhã estávamos em LA: Cinco horas de voo menos quatro de fuso. Pegamos um táxi e rumamos para Santa Mônica, onde ficava a sede da General Telephone of Califórnia. Permanecemos por lá durante seis semanas que valeram por quase uma vida. Nos deram um crachá que dizia “Telesp Contractor” e fomos integrados numa equipe de projeto. Fizemos dezenas de incursões em campo. Vimos e aprendemos muitas coisas novas.

De tudo o que observamos, o ponto alto foi o sistema computadorizado de projetos da GENTEL. Eles dividiam a rede em alimentação e distribuição. A rede de distribuição era projetada de forma muito simples: Os assinantes eram agrupados dentro de “Seções de Serviço” e o dimensionamento de pares era extremamente simples:

  1. Consideravam que todo prédio ou terreno abrigaria clientes. Portanto, todos eram levados em consideração na hora da contagem de pares.
  2. Os imóveis eram separados em classes. Imóvel classe A, 5 pares por domicílio, classe B, 3 pares, e assim por diante.
  3. Não havia nenhuma preocupação em economizar pares já que esta parte da rede era muito curta. O importante era ter sempre pares disponíveis quando surgisse a demanda.

Já a rede alimentadora era objeto de estudos de crescimento de demanda muito acurados, pois nela estava concentrada a maior parte dos investimentos. A rede alimentadora era dividida em segmentos de rede. Cada segmento era determinado por dois Pontos de Controle, um no início e outro no final de cada um deles.

Ponto de Controle era, por definição, um ponto ao longo da rede onde algum cabo era emendado, derivado, ou sofria mudança de bitola ou de capacidade. A quantidade e a evolução de pares defeituosos, ocupados e livres era rigorosamente controlada em cada Ponto de Controle, através de um programa de computador.

O processo era conhecido como Control Point Analysis. Na época, não havia computadores de pequeno porte, de forma que o programa rodava em Main Frame e os resultados eram impressos em formulários contínuos, como os da foto acima.

O responsável pelo projeto era um engenheiro de redes de grande experiência, apaixonado por computação. Em meu relatório, recomendei fortemente a adoção do Control Point Analysis. Um ano depois, o sistema foi implantado. Os projetos de cabos primários da Telesp passaram a levar em conta princípios de engenharia econômica, com horizonte de ocupação de cinco anos. Este programa, além de proporcionar economia para a empresa, melhorou a qualidade de vida dos paulistanos, pois diminuiu consideravelmente a quantidade e a frequências das intervenções que eram feitas na rede. Pouca gente sabe, mas, muitas das intervenções resultavam obrigatoriamente na abertura de valas e buracos em ruas e avenidas da cidade.

Infelizmente, não pude acompanhar de perto os resultados do novo processo. Quando foi implantado, já estava trabalhando na Telebrás.

DUTOS DE PVC

duto DM 6Assim que terminou a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi inundado com novas matérias primas. Apareceram borrachas sintéticas, polietileno, polipropileno, poliestireno, acetatos, acrilatos, vinil e vai por aí afora.

A presente história contempla apenas um entre milhares de casos onde novos materiais revolucionaram o mercado.

Refiro-me a dutos de PVC, que substituíram os tradicionais dutos de grês, usados no Brasil e no mundo desde a invenção do telefone por Graham Bell.

O desenho acima foi tirado da Prática Telebrás, 235-201-708, série rede, de outubro 1976. Na ocasião, dutos de grês continuavam em uso apenas em serviços de reparo de trechos existentes. Pode-se dizer que haviam entrado em processo de extinção.

Uma peça de 06 furos com um metro de comprimento pesava 60 Kg. Apenas para exemplificar, um quilômetro de canalização de seis furos requeria que uma carga de 60 toneladas fosse transportada para o local da obra, que poderia estar a centenas de quilômetros de distância.

O alinhamento entre peças era feito por dois pinos de aço introduzidos nos furos que aparecem no corte e a vala precisava ter no mínimo 50 cm de largura. Largura menor significava falta de espaço para o trabalho dos pedreiros. Sim, eram usados pedreiros no assentamento dos dutos. O fundo da vala recebia uma camada de argila que era previamente compactada e nivelada. Por ser frágil à compressão, todas as travessias e entradas de garagem eram “envelopadas” com concreto.

O peso da peça requeria que três homens fossem usados no assentamento. Antes do pedreiro fazer o “embolsamento” com massa de cimento, era necessário enrolar uma faixa de tecido de algodão no ponto de junção para evitar a penetração de cimento no duto.

Resumindo, embora uma manilha de grês fosse relativamente barata, sua utilização exigia muito gasto em a transporte e o método de construção era caro e complicado, tornando o preço do quilômetro construído bem alto!

Quando comecei a trabalhar na Telepar, a empresa costumava usar dutos de grês de 4 furos em suas canalizações subterrâneas. A maioria das cidades que estavam sob minha responsabilidade eram pequenas e não exigiam a construção de linhas de dutos. Apenas alguns laterais curtos. Mas, herdei também algumas cidades grandes, cujas redes exigiam canalizações subterrâneas. Entre elas estava Cascavel, uma das primeiras que projetei e construí. O projeto previa a construção de apenas 1.400 metros de dutos de grês de 04 furos, chamados DM-4.

Seguiu para lá nosso melhor e único empreiteiro de dutos, Lourival Frelik. Foram enviados para Cascavel seis caminhões com dutos DM-4. É importante lembrar que Guarapuava fica a 450 Km de Curitiba. Na ocasião, o trecho entre Guarapuava e Cascavel, com 220 Km, ainda era de terra.

Passadas umas três semanas, o Lourival ligou pedindo mais dutos DM-4. Providenciamos uma carga adicional de 10 toneladas, um caminhão com 250 peças. Na semana seguinte novo telefonema, pois continuava faltando manilhas. Desta vez, quisemos saber o que estava acontecendo. “Tem muito buraco no trecho entre Guarapuava e Cascavel. Quase todas as manilhas estão chegando quebradas”, explicou Lourival.

Em resumo, Compramos e mandamos para Cascavel 2 mil dutos DM-4, e aplicamos mil e quatrocentos. Seiscentas unidades quebraram no transporte. O custo da obra praticamente dobrou!

Fiquei sabendo que uma companhia telefônica que operava na região do ABC paulista tinha começado a usar dutos de PVC. Tratei de acionar os meus contatos e consegui uma visita.

Descobri que uma barra de 6 metros de PVC equivalia a um DM-6 ou a 1,5 DM-4, com um décimo do peso. O preço do quilo de resinas plásticas na época era muito mais caro do que nos dias de hoje, mas as vantagens eram muitas.

Por exemplo, um trecho de 120 metros de canalização DM exigia 120 embolsamentos feitos dentro da vala. Os mesmos 120 metros realizados com PVC exigiam apenas 24 conexões, feitas com cola e fora da vala, pois só depois de emendados, os dutos eram colocados na vala, que podiam ser mais estreitas. Bastavam 40 centímetros, o que representava 20% de economia nos custos de escavação, fechamento e repavimentação.

De volta a Curitiba, lembrei que um colega meu de curso, que havia se formado engenheiro civil, estava trabalhando na Tigre. Combinamos realizar uma construção experimental com a participação daquele fabricante. A Tigre possuía uma frota de caminhões para transportar seus produtos.

Para minimizar custo com transporte, a parede dos dutos teve sua espessura diminuída. Também decidimos usar dutos com 100 mm e com 75 mm. Dutos de 100 mm para receber cabos com capacidade acima de 600 pares. Dutos de 75 mm para cabos abaixo de 600 pares. Estimávamos que as quantidades em metros se dividiriam mais ou menos ao meio, o que se confirmou na prática.

Como o volume máximo de carga sempre era atingido antes do limite de peso, A Tigre carregava primeiro os dutos de 100 mm. Os dutos de 75 mm viajavam dentro dos dutos de 100 mm. Na maioria das obras de canalização subterrânea implantadas no interior, um único caminhão passou a transportar todos os dutos necessários.

Para evitar que a pequena espessura resultasse em amassamentos durante a compactação, decidimos tamponar as pontas dos dutos e pressurizá-los durante a obra. A construção experimental foi implantada em Pato Branco e correu tudo tão bem que a Telepar tratou de padronizar de dutos de PVC em todas as suas canalizações subterrâneas. Com o tempo, o preço do PVC baixou e a espessura dos tubos foi aumentada até  um valor entendido como sendo de segurança e acabou a necessidade de pressurizar durante a obra.

O uso de dutos de grês ficou restrito serviços de reparo de linhas existentes. É claro que tivemos que enfrentar alguns problemas criados pelos fabricantes de dutos DM. Mas, esta é outra história.

Já faz pelo menos duas décadas que dutos de PVC não são mais usados em canalizações de telecomunicações. De lá para cá tem sido usados dutos de polietileno e de polipropileno. Eles possuem a vantagem de ser flexíveis. Eles são entregues em bobinas com centenas de metros. Ninguém mais fala mais em “barras” de dutos.

Há dutos lisos e corrugados. Dutos singelos e múltiplos. Para facilitar a identificação, os tubos são numerados ou coloridos. A única desvantagem que o polietileno e o polipropileno apresentam com relação ao PVC está no fato de não poderem ser colados: Exigem conexões mecânicas que muitos empreiteiros insistem em não usar.

No exato momento, está chegando uma nova família de dutos no Brasil. Tratam-se de micro dutos, com diâmetros entre 04 mm e 15 mm, destinados a receber micro cabos ópticos. Micro cabos não podem ser tracionados. Precisam ser lançados por sopramento. Esta técnica será coberta em outra oportunidade!